Leonor de Viseu – parte III

A partir da separação do marido, D. Leonor passou a dedicar-se basicamente a uma vida de oração e contemplação, além de cuidados com seu único e adorado filho, o príncipe D. Afonso, e eventuais visitas à corte. Em 29 de novembro de 1490, o herdeiro do trono se casou com sua antiga prometida, Isabel de Aragão. Após grandes festas em Évora, o novo casal foi se estabelecer em Santarém em julho seguinte, sendo acompanhados na viagem pelo rei e pela rainha. Em meio aos entretenimentos, o herdeiro do trono português desafiou o fidalgo D. João de Meneses para uma corrida. Foi quando ocorreu a tragédia: em meio à disputa, o cavalo de D. Afonso tropeçou e caiu, derrubando o príncipe e caindo sobre ele, deixando-o inconsciente. Seu estado foi piorando gradativamente até 13 de julho, quando finalmente morreu, deixando seus pais inconsoláveis e uma jovem viúva arrasada.

Infanta Isabel de Aragão
Infanta Isabel de Aragão

Sem nenhum filho legítimo restante e impossibilitado de qualquer forma de produzir algum com D. Leonor devido à saúde frágil desta, D. João II começou a planejar a legitimação de D. Jorge, seu filho ilegítimo com Ana de Mendonça. Isso provocou a resistência acirrada da rainha. Segundo o costume, os sucessores de direito de D. João II eram os filhos de seu falecido tio D. Fernando, os irmãos da rainha; depois do assassinato jurídico de D. Diego, duque de Viseu, era agora D. Manuel, duque de Beja, que ocupava tal posição. Para evitar este evento, o rei procuraria Roma para legitimar o bastardo, pedido que lhe foi negado por influência desestabilizadora dos Reis Católicos, já de posse da filha Isabel, que para lá retornara depois da morte do marido. Sem escolha e adoecendo cada vez mais, D. João II acabou cedendo e nomeando D. Manuel como seu sucessor no trono. Morreu pouco depois com apenas 40 anos.

Quando ascendeu à Coroa em 1495, o irmão mais novo de D. Leonor já tinha 26 anos, mas ainda não se casara. Neste panorama, a própria rainha era a sua herdeira caso ele falecesse prematuramente, embora ela manifestasse o desejo de abdicar do juramento como sucessora da Coroa em nome de sua irmã D. Isabel, viúva do duque de Bragança, que tinha filhos homens sobreviventes. Pouco tempo depois, de qualquer forma, ficou acertado que D. Manuel se casaria com a antiga nora de Leonor, a infanta Isabel, que acabaria tendo um menino pouco antes de sua falecimento por complicações em seu único parto, em 1498.

Após a morte da primeira esposa e pouco tempo antes do falecimento de D. Miguel, o rei casou-se pela segunda vez com Maria de Aragão, quarta filha dos Reis Católicos, com quem teria ampla descendência. Neste panorama, D. Leonor perdeu gradativamente sua importância sucessória, e passou a dedicar-se cada vez mais à caridade, doando parte de sua imensa fortuna para construir a Santa Casa de Misericórdia e o Hospital Real de Todos os Santos, considerado o melhor da época, além de vários conventos. Em um deles, ela viveria seus últimos anos praticamente como uma freira, falecendo já durante o reinado do sobrinho, D. João III, em 17 de novembro de 1525.

Para saber mais:

FONSECA, Luís Adão de. D. João II.  Círculo de Leitores, 2012.

DELURUE, Maria Luisa; OLIVEIRA, Maria Manuela. D. João II – um rei emblemático. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.

Leonor de Viseu – parte II

Nas negociações posteriores para a paz com Castela, D. Afonso V abdicou da esposa Joana, que se recolheu para um convento. Os herdeiros dos tronos foram, neste sentido, utilizados como barganha para assegurar o bom comportamento das partes; quando a infanta Isabel, primogênita dos Reis Católicos, foi enviada para a vila fronteiriça de Moura, encontrou lá o jovem D. Afonso, de apenas cinco anos, único filho legítimo do rei, que fora separado de sua mãe D. Leonor alguns meses antes. Ambos foram criados juntos sobre a guarda de D. Beatriz, duquesa de Viseu. Rapidamente, se efetuaria a negociação de um futuro casamento entre eles.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

A esta altura, o príncipe D. João já se tornara novamente rei com a morte de D. Afonso V em 28 de agosto de 1481. Com sua ascensão definitiva ao trono, as tensões políticas em Portugal cresceram. Honrado, rígido e avesso às intrigas palacianas, o novo rei era tido em pouca conta pelas poderosas famílias nobres que dominavam Portugal, como os Bragança e os Viseu, seus próprios parentes, que ficaram descontentes com o fortalecimento excessivo da autoridade real patrocinada por D. João II. Visando subordinar tais súditos excessivamente poderosos, o rei determinou que um novo juramento de vassalagem, a ser feito em Évora, que incluiria agora um reconhecimento tácito dos nobres à soberania do rei português. O primeiro que faria o juramento perante o restante da nobreza convocada seria exatamente D. Fernando, terceiro duque de Bragança, como esperado do chefe da maior Casa do reino de Portugal. Mas D. Fernando, em conselho régio, hesitou e protestou consideravelmente antes de assinar o compromisso, possivelmente porque os termos de obediência foram considerados pela nobreza presente como sendo prejudiciais às honras e privilégios que detinham há gerações. Ele seria apoiado nisso pelo seu cunhado, o duque de Viseu.

Suspeitando de uma conspiração contra ele, D. João II impôs o exame das contas ducais dos envolvidos na questão por corregedores, que eventualmente descobriram correspondência incriminatória entre o duque de Bragança e os reis de Espanha, Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Após um curto julgamento, o duque de Bragança foi executado em Évora. O duque de Viseu, parente direto do monarca português pelo casamento deste com sua irmã, também não foi poupado e logo seria assassinado pessoalmente pelo rei com golpes de punhal, aniquilando assim o último foco de resistência perante seu governo centralizador. Os Bragança restantes tiveram seus bens confiscados pela Casa real e fugiram em exílio para a Espanha.

D. Leonor de Viseu
D. Leonor de Viseu

Segundo o relato de uma fonte da época, quando a rainha D. Leonor tomou conhecimento da morte do irmão pelas mãos do marido, teve um ataque histérico e começou a gritar em desespero. Sabendo disso, D. João II ordenou-lhe que parasse, ou então seria acusada de conivência com a conjura. A esposa o obedeceu. Pouco antes, ela tivera um parto prematuro, com o bebê não sobrevivendo muito tempo após o nascimento; depois disso, foi recomendado que o casal não tentasse mais ter filhos, num contexto em que a amante do rei, Ana de Mendonça, dera à luz um menino saudável, batizado com o nome de Jorge, não muito tempo antes. Somando tudo, é bastante provável que após 1483, D. João II e D. Leonor tenham cessado a maioria de seus contatos conjugais, com a forte afeição que outrora os unira passando a ser apenas uma distante lembrança.

Leonor de Viseu – parte I

Nascida em 2 de maio de 1458, no ducado do pai, o infante D. Fernando, Leonor de Viseu era a primogênita mulher (terceira filha) do casamento deste com sua prima distante, a infanta D. Beatriz. A ascendência dela era, logo, duplamente real, uma vez que seus progenitores eram igualmente descendentes de D. João I de Portugal.  Além disso, seu pai D. Fernando era também filho do rei D. Duarte e irmão do monarca reinante, D. Afonso V, além de tio do herdeiro D. João; em realidade, D. Leonor era pouco mais nova do que este, e ambos passariam grande parte da infância juntos, desenvolvendo uma grande amizade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Neste panorama, um projeto nupcial começou a se desenhar, e o rei D. Afonso V entrou em conversas com o irmão mais novo para casarem os filhos, no que seria outro matrimônio intra-familiar na Casa de Avis. Na década de 1470, não existiam de fato muitas alternativas; as Casas dos demais infantes haviam-se reduzido demais em número, não tendo filhas da idade apropriada, e as relações de Portugal com os demais reinos ibéricos encontravam-se débeis, especialmente com Castela, a única que poderia disponibilizar uma princesa da idade certa, a herdeira Joana.

Assim sendo, o fato de D. João ter estima por sua futura esposa foi, em vários sentidos, um acaso, uma vez que isto estava longe de ocupar a prioridade na questão de casamentos políticos. Na verdade, no labirinto que era as relações entre a nobreza do período, o duque de Viseu casou, ao mesmo tempo, a filha mais velha com a Coroa, e a mais nova – D. Isabel – com aquela família que representava a resistência da aristocracia portuguesa ao centralismo régio, os Bragança. Pondo em termos simplistas, o casamento de D. João foi feito com o principal aliado da Casa real, que ao mesmo tempo flertava com o inimigo. De qualquer maneira, a união do príncipe se realizaria por fim no dia 22 de janeiro de 1470. Leonor tinha apenas 12 anos, e João 15. Pouco mais de cinco anos depois, nasceria o primeiro filho do casal, batizado em homenagem ao rei D. Afonso V, ocasionando festas e manifestações de alegria por todo o reino.

Isabel I de Castela
Isabel I de Castela

O príncipe D. João, contudo, não se encontrava presente ao nascimento do filho, ou mesmo para visitar sua esposa após o parto. Não por frieza aos eventos, mas sim pelo fato de estar liderando exércitos para guerrear contra Castela naquele momento; quando D. Afonso nasceu, em 18 de maio de 1475, seu avô já invadira o reino vizinho para defender os direitos ao trono de sua sobrinha – e futura esposa – Joana, suposta filha de Henrique IV. O príncipe João o acompanharia, deixando D. Leonor em gravidez avançada em Lisboa. Depois de testemunhar o casamento de seu pai com a rainha de Castela, João retornou a Portugal, onde atuou como regente na ausência de D. Afonso V. Pouco depois, contudo, o príncipe se dirigiu apressadamente para socorrer as tropas do pai, cercada pelos aragoneses.

Embora a atuação de D. João tenha sido eficiente, não impediu as tropas portuguesas de serem desbaratadas e derrotadas na batalha de Toro, que marcou a virada castelhana na guerra de sucessão. Após procurar pessoalmente um maior auxílio de França, aliada de Portugal na guerra, um desiludido rei abdicou em nome do príncipe D. João, escrevendo-lhe para que assumisse o trono. Inicialmente, o filho obedeceu e foi jurado monarca numa cerimônia privada, com D. Leonor como sua rainha. Pouco depois, contudo, quando D. Afonso V foi convencido a retornar a Portugal e reassumir o posto, o filho devidamente renunciou e retornou ao seu grau nobiliárquico anterior.

Joana de Castela, a ‘Beltraneja’ – parte II

Em princípio, Joana parecia ter ligeira vantagem no confronto. Além do apoio da alta nobreza castelhana, ela ainda contava com importantes membros do clero e algumas Casas de origem portuguesa, sem contar seu poderoso tio, o rei Afonso V, que em breve também oficializaria as negociações nupciais existentes há tempos e se tornaria seu marido em 25 de maio de 1475, seguindo uma invasão bem-sucedida das tropas portuguesas em Castela. Por seu lado, Isabel tinha o apoio de Aragão, de Casas castelhanas menores e de membros do clero, mas também tinha ao seu lado dois importantíssimos trunfos: a poderosa Casa de Medina-Sidônia e o suposto pai biológico de Joana, Beltrán de la Cueva.

Isabel I de Castela em sua maturidade
Isabel I de Castela em sua maturidade

Apesar de sua pouca idade, Joana foi considerada uma líder promissora nas primeiras Cortes que presidiu com seu marido pouco após o matrimônio. O apoio a Isabel, contudo, crescia, embora a guerra ainda estivesse indefinida até 1º de maio de 1476, quando ocorreu a batalha de Toro. Ali, as tropas portuguesas recuaram e debandaram perante as aragonesas, marcando uma grande derrota do partido de Joana, que então partiu para a cidade portuguesa de Abrantes para sua proteção. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento da ausência da rival para convocar suas próprias Cortes, onde sua filha primogênita e homônima foi jurada como herdeira, simbolizando a legitimidade da própria Isabel; o nascimento de seu filho João em 1478 a fortaleceria ainda mais.

Depois de repelir os franceses, aliados de Portugal, e garantir o recuo de D. Afonso V e Joana, a Guerra de Sucessão Castelhana basicamente se limitou aos confrontos navais e breves revoltas internas contra o domínio crescente de Isabel, sufocadas com rapidez. Em fevereiro de 1479, Portugal sofreu mais um grave revés quando a dispensa papal que havia garantido o casamento de tio e sobrinha foi anulada, prejudicando em muito a pretensão de D. Afonso V. Sem escolha, o rei teve que concordar com um tratado de paz. Assinado na vila de Alcáçovas em 4 de setembro de 1479 e ratificado por ambos os lados no ano seguinte, ele consistiu basicamente na renúncia de D. Afonso V a qualquer direito ao trono castelhano, assim como a Joana, com quem não tivera filhos ou talvez sequer consumara o casamento.

Joana de Castela, dita a 'Beltraneja', interpretada por Carmen Sánchez na série Isabel (2011-14)
Joana de Castela, dita a ‘Beltraneja’, interpretada por Carmen Sánchez na série Isabel (2011-14)

Após ter renunciado oficialmente à sua pretensão como rainha de Castela e Portugal, o destino de Joana ficou entre duas alternativas oferecidas por Isabel: ou ela se casaria com seu filho João quando este atingisse a maioridade, ou então entraria para um convento e professaria votos de castidade. Joana escolheu a vida religiosa, se juntando ao convento de Santa Clara em Coimbra, embora se recusasse a professar os votos até o fim de sua vida. Até mesmo por isso, sua importância dinástica não padeceu de imediato, e ela recebeu propostas de casamentos até a sua velhice. Em 1504, após a morte de Isabel, Fernando II de Aragão tentou casar-se com ela para fazer frente à pretensão da filha e do genro ao trono castelhano, mas Joana se recusaria, preferindo continuar uma vida religiosa relativamente livre em Portugal, embora não ausente de orgulho. Afinal, quando ela morreu em Lisboa em 1530, ainda assinava como “La Reina”.

Para saber mais:

ELLIOT, J.H. “La unión de las coronas.” In: La España imperial. 1469-1716. Madrid: RBA Collecionables, 2006. (1ª edição 1963).

http://www.arqnet.pt/dicionario/joanad1.html

Joana de Castela, a ‘Beltraneja’ – parte I

Única filha oficialmente resultante do casamento entre Henrique IV de Castela e Joana de Portugal, a princesa Joana nasceu em fins de fevereiro de 1462. Pela via materna, ela era sobrinha do rei D. Afonso V; pela via paterna, ela era a herdeira presuntiva ao trono de Castela na ausência de irmãos homens. Contudo, ela nascera após sete anos de esterilidade matrimonial, quando já se considerava que Henrique IV era de fato impotente – como sua primeira esposa rejeitada, Blanche de Navarra, alegava, com um casamento de mais de uma década sem consumação para apoiá-la.

Joana de Portugal
Joana de Portugal

De qualquer forma, o rei pareceu reconhecer a jovem Joana como sua herdeira desde o seu nascimento, convocando inclusive seus meios-irmãos Isabel e Afonso para testemunhar o parto da rainha. Após o evento bem-sucedido, a primeira foi colocada na equipe de damas de honra que servia Joana de Portugal, enquanto Afonso, o antigo herdeiro presuntivo, começou sua educação oficial com um tutor. Não muito após o nascimento da princesa Joana, entretanto, começariam os rumores que ela não era a filha do rei, mas sim fruto de um relacionamento da rainha com o nobre Beltrán de la Cueva. O nascimento de duas crianças ilegítimas não muito depois, concebidas durante o caso que a rainha Joana teve com o sobrinho de um bispo, prejudicou em muito a posição da princesa; em primeiro lugar, porque o matrimônio de seus pais acabaria dissolvido em decorrência destes eventos escandalosos, e em segundo porque a conduta de sua mãe testemunhava diretamente contra a sua pretensa legitimidade. Agora, uma facção considerável da nobreza defendia que Joana, a Beltraneja (filha de Beltrán) não poderia suceder ao rei e defendiam os direitos do príncipe Afonso na rebelião que fatalmente se seguiu.

Após a Segunda Batalha de Olmedo, em 1467, Henrique IV e Afonso atingiram finalmente um consenso: o último sucederia ao rei se se casasse com a princesa Joana. Afonso, porém, não viveu muito tempo depois de ser reconhecido como o herdeiro do trono castelhano, sendo vítima da praga (ou do veneno, segundo rumores) logo no ano seguinte. Como herdeira de seu irmão, Isabel tornou-se a líder da causa rebelde. A facção da nobreza liderada por ela, porém, não era forte o suficiente para depor o rei. Novamente, então, os dois lados chegaram a um acordo: Henrique IV nomearia Isabel como sua herdeira presuntiva antes de Joana, mas Isabel não se casaria sem a permissão do irmão. Não muito tempo depois, contudo, o rei estava tentando casar Isabel com D. Afonso V de Portugal, ao mesmo tempo em que negociava uma união entre sua filha Joana e o herdeiro de D. Afonso, o príncipe D. João: assim, tia e sobrinha reinariam consecutivamente tanto em Castela quanto Portugal.

Henrique IV de Castela
Henrique IV de Castela

Neste contexto, o casamento secreto entre Isabel de Castela e o herdeiro Fernando de Aragão, já em 1469, precipitou o início da luta pela sucessão do trono castelhano, com Henrique IV procurando restabelecer Joana como sua herdeira. A esta altura, a princesa já tinha sete anos, e negociações matrimoniais para sua mão já haviam começado com alguns príncipes franceses, embora ainda sem um compromisso mais aparente quando, em 1474, Henrique IV faleceu. Quase que imediatamente, as pretensões opostas de tia e sobrinha se chocaram, e a Guerra de Sucessão Castelhana começou.

Isabel de Coimbra – parte II

Em abril de 1441, temendo a oposição do conde de Barcelos, antigo aliado da rainha D. Leonor, o duque de Coimbra realizou os votos iniciais dos esponsais do rei e de sua prima, que na época ainda não passavam de crianças. Anos depois, mais maduros, ambos seriam encaminhados para a união de fato. Parece extremamente provável que a consumação tenha sido adiada pelo regente até que sua filha estivesse fisicamente madura, diminuindo assim as chances de possíveis complicações no parto. Porém, mesmo depois da união oficial em 1447, o regente demorou a repassar as responsabilidades do governo para o rei, já um homem feito. Isso estimularia as intrigas da corte, chefiadas pelo outro tio do monarca, o recém-elevado duque de Bragança, que começava a desfrutar cada vez mais do favor de D. Afonso V. Neste conflito, a rainha assumiria o papel de mediadora – à semelhança de tantas consortes portuguesas antes dela – procurando evitar consequências trágicas na disputa entre os tios do rei.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

As fortes personalidades dos três homens envolvidos, contudo, dirigiram os eventos para uma rota de colisão. Apesar de se utilizar de palavras suaves para tentar convencer o marido a aceitar o pai de volta à corte, D. Isabel não conseguiu lutar contra as correntes cada vez mais contrárias ao seu pai, enquanto o duque de Coimbra, ao procurar garantir a sua honra, não protegeu a sua integridade física. Entrando em conflito com as forças reais na batalha de Alfarrobeira, em 20 de maio de 1449, D. Pedro morreu. Na sequência do conflito, seus filhos e filhas tiveram que partir para o exílio, e a própria rainha encontrou-se em perigo, com a anulação de seu casamento sendo considerada por uma facção considerável da nobreza, a fim de que D. Afonso V se unisse à uma donzela mais adequada. O rei, porém, recusou a possibilidade e continuou a tratar D. Isabel com toda a consideração adequada à sua posição.

Neste contexto, a vida da rainha correu sério perigo até a descoberta de sua primeira gravidez logo no ano seguinte. O infante nasceria em 29 de janeiro de 1451, sendo batizado em homenagem ao bisavô e fundador da dinastia de Avis, D. João I. Em breve se seguiria mais uma gestação, que daria origem a infanta D. Joana. Depois destes sucessos, a rainha pediu ao rei – e foi atendida – que seu pai fosse devidamente sepultado no mosteiro da Batalha. Pouco depois, o herdeiro João faleceu; não muito tempo após, contudo, nasceu outro menino para o casal, que foi nomeado em homenagem ao irmão morto. Ele seria o futuro rei D. João II.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

Alguns meses depois deste novo nascimento, D. Isabel ficou severamente doente, sofrendo de hemorragias. Pelo tempo, não se tratava de complicações no parto; problemas relacionados à um aborto ou um nascimento prematuro também não são prováveis, considerando-se que as crônicas nada mencionam a este respeito. Tendo em vista a rapidez da degeneração no estado da rainha, a hipótese de veneno parece ser confirmada. Se os responsáveis esperavam um novo casamento do rei, enganaram-se; apesar de lhe restar apenas um herdeiro homem vivo, D. Afonso V fez um voto de castidade em honra da falecida esposa. Décadas depois, porém, ele o romperia para casar-se com a sobrinha, a infanta Joana, no contexto da guerra de sucessão castelhana.

Para saber mais:

FREITAS, Isabel Vaz de. D. Isabel de Coimbra – Insigne Rainha (1432-1455). Disponível em: http://repositorio.uportu.pt/jspui/bitstream/11328/974/1/D.%20Isabel%20de%20Coimbra.pdf .

Isabel de Coimbra – parte I

Nascida em 1432, Isabel de Coimbra era a primeira filha mulher (terceira criança) do infante D. Pedro, secundogênito sobrevivente de D. João I de Portugal e irmão mais novo do herdeiro D. Duarte, e Isabel, condessa de Urgell. Pouco antes, nascera seu primo, o infante D. Afonso, que seguia diretamente seu pai D. Duarte na sucessão real; quase que de imediato, tanto o duque de Coimbra quanto seu irmão ilegítimo, o conde de Barcelos (1), manifestaram interesse quanto ao futuro matrimônio do infante. Enquanto D. Pedro propunha a filha D. Isabel como noiva, D. Afonso oferecia uma de suas netas, também chamada Isabel. Devido à extrema juventude de todas as crianças envolvidas, entretanto, a questão foi deixada em suspenso.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A morte súbita do já rei D. Duarte poucos anos depois, ocorrida pouco depois da catastrófica derrota em Tânger, empurrou o reino para uma crise política; a regente por ele escolhida em seu testamento era sua esposa aragonesa, a rainha D. Leonor, embora por tradição o direito pertencesse ao seu irmão seguinte, D. Pedro. O conflito parecia inevitável. Para procurar diminuir a tensão, a regente revelou ao cunhado a suposta vontade do falecido monarca em casar seu herdeiro D. Afonso com a prima D. Isabel de Coimbra, que ela se propunha a realizar. A decisão pragmática da rainha viúva, que provavelmente tencionava anular um partido de oposição com a união proposta, em muito desagradou o conde de Barcelos.

De qualquer forma, o compromisso entre as duas partes não foi atingido, com D. Leonor tendo que abdicar da função de regente em nome de D. Pedro, que possuía muito mais apoio do que ela. Mesmo assim, porém, o projeto de casamento entre os primos foi mantido, com o novo regente apressando-se em garantir uma dispensa para a união em Roma. D. Leonor e seus parentes aragoneses, por outro lado, pressionavam contra. Eventualmente, a dispensa seria garantida, o que possibilitaria que D. Pedro pudesse, com segurança, forçar a rainha viúva para o exílio, acompanhada por seus partidários.

D. Isabel
D. Isabel

Enquanto estas reviravoltas políticas eram realizadas, D. Isabel era cuidadosamente educada do ducado de seu pai, contando com mestres educadores italianos e a leitura de clássicos, como era esperado para uma futura rainha. Aliás, a jovem infanta foi possivelmente educada junto ao noivo, o rei, que passara a ser criado pelo tio após o exílio de sua mãe. Eventualmente, D. Afonso V se apaixonaria pela discreta prima que, apesar de não ser considerada bela pelos padrões da época, era doce, prudente, honesta, virtuosa e inteligente; de fato, as descrições de D. Isabel nas crônicas do reinado de seu futuro marido aproximam-se bastante do ideal feminino da época. Por seu lado, D. Isabel não deve ter considerado difícil amar seu justo, culto e gentil prometido, mesmo que este não tivesse sido um dever imposto a dedicada filha do duque muitos anos antes, e teria uma sincera amizade com D. Afonso até o fim de sua vida.

(1) Título utilizado prioritariamente por D. Afonso antes de sua ascensão como duque de Bragança.