O amor secreto de Carlos V: Germaine de Foix

Nascida em data indefinida em 1488, Germaine de Foix era filha de João, conde de Étampes, visconde de Narbonne e terceiro filho da rainha Leonor de Navarra, com Maria de Orléans, irmã mais velha de Luís XII de França. Com tais credenciais nobiliárquicas, incluindo uma pequena pretensão ao trono de Navarra por intermédio de seu pai, ela desde cedo despertaria a atenção do mercado matrimonial europeu; de fato, já em 1505, o recém-enviuvado Fernando II de Aragão estava fazendo uma proposta à mão da jovem para o seu tio materno, o rei de França. Muito embora Germaine fosse, em realidade, sobrinha-neta do rei aragonês – quase quatro décadas mais velho do que ela –, as vantagens do casamento facilmente superavam as dificuldades de se conseguir uma dispensa papal. Além de uma aliança com França, a noiva ainda viria para Aragão com as posses nominais dos reinos de Nápoles e Jerusalém, sem contar a pretensão à Navarra. Essa aparente generosidade de Luís XII era, porém, envenenada; Nápoles já pertencia aos aragoneses, Jerusalém caíra há muito para os infiéis e Navarra seria herdada pelos filhos da prima de Germaine, a rainha Catarina, antes de recair sobre seu irmão mais novo ainda solteiro, Gastão.

Germaine de Foix
Germaine de Foix

De qualquer forma, a pretensão menor de Germaine ao trono de Navarra apenas adicionava um pouco mais de urgência para um casamento que, em realidade, tinha outro objetivo primário: a produção de um herdeiro homem para Aragão. Uma série inesperada de mortes entre a progênie de Fernando II de Aragão com Isabel I de Castela deixara o território espanhol para a terceira filha, Joana, casada desde 1496 com o ambicioso Felipe de Habsburgo, duque de Borgonha, com quem já tinha quatro crianças na época da morte da rainha Isabel em 1504. Rapidamente, Felipe e Fernando entrariam em confronto pelo controle político da nova rainha e, indiretamente, da maior parte da Península Ibérica. Neste sentido, o novo matrimônio do idoso rei era fundamental: se ele pudesse produzir um herdeiro com sua nova esposa, Aragão escaparia ao domínio dos Habsburgo, e talvez pudesse até mesmo ampliar sua influência na Europa devido ao dote e possíveis direitos sucessórios de Germaine.

Em 1506, o genro e rival de Fernando morreria depois de uma breve doença, mas a concepção de um príncipe para Aragão ainda era vital para evitar a dominação austríaca. Finalmente, em 3 de maio de 1509, nasceu um menino, nomeado João; a criança, contudo, faleceria em questão de horas. Germaine e Fernando não teriam mais filhos antes da morte dele em 1516. Apesar de Joana ainda estar viva a esta altura, ela foi mantida encarcerada por seu filho Carlos, que assumiria a herança dos avôs maternos. A rainha viúva, que tinha sob seu poder alguns territórios na Península Itálica, também os cedeu ao neto por afinidade. Nestas circunstâncias, é claro que o novo monarca estava disposto a cumprir os pedidos do falecido avô para que cuidasse de Germaine em sua viuvez.

Um jovem Carlos I de Espanha
Um jovem Carlos I de Espanha

Contando com apenas 15 anos na época do falecimento de seu avô, o jovem Carlos ainda era um tanto inexperiente política e sexualmente quando se encontrou com a fogosa Germaine nas imediações de Valladolid. Muito provavelmente a rainha viúva causou uma forte impressão no rei logo a princípio; diferente do que se poderia imaginar, se tratava de uma mulher que sequer completara 30 anos de idade, alegre e divertida mesmo em seu sofrimento recente, ainda que não fosse considerada propriamente bela – de fato, tinha uma tendência à obesidade. Quando Germaine quis saudar o monarca fazendo uma inclinação cerimonial, Carlos I de Espanha não permitiu, impedindo-a de saltar de sua mula. Em pouco tempo já eram amantes. Ela sairia da corte de Aragão e iria para Castela, onde Carlos organizaria vários banquetes em sua honra, tornando-a inclusive uma influente conselheira política enquanto ele negociava com Aragão para ser reconhecido oficialmente como rei.

Devido à sombra incestuosa que cobria ambos, contudo, o caso amoroso de Carlos e Germaine era extremamente discreto. Em 1518, a rainha viúva deu à luz uma filha, batizada como Isabel. O nascimento pareceu esfriar o romance, uma vez que pouco depois o rei já estava negociando um novo matrimônio para Germaine; desta vez, o marquês de Brandenburg, que juntamente com a esposa foi feito vice-rei em Valência. Já em 1525, entretanto, Germaine se encontrava viúva pela segunda vez. Carlos, que a esta altura negociava seriamente suas núpcias com a infanta portuguesa Isabel, apressou-se em casar Germaine pela terceira vez com o duque de Calábria.

Embora não pareçam ter retomado outra vez a ligação sexual, Germaine e Carlos manteriam boas relações até a morte desta em 1536. A filha deles, contudo, teve um destino menos evidente. Após ter passado uma infância discreta na corte castelhana, “a sereníssima Dona Isabel, infanta de Castela, filha da Majestade do Imperador” desapareceu dos registros históricos. Certamente ainda se encontrava viva na época da morte da mãe, uma vez que é mencionada como beneficiária no testamento de Germaine, mas seu destino certo é até hoje nebuloso – quase tanto quanto o relacionamento proibido, ardente e secreto de seus pais.

Para saber mais:

HIERRO, María Pilar Queralt del. “Germaine de Foix, a paixão proibida do imperador”. IN: Rainhas na sombra: amantes e cortesãs que mudaram a História. Rio de Janeiro: Versal, 2015.

http://www.britannica.com/biography/Charles-V-Holy-Roman-emperor

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