O amor secreto de Carlos V: Germaine de Foix

Nascida em data indefinida em 1488, Germaine de Foix era filha de João, conde de Étampes, visconde de Narbonne e terceiro filho da rainha Leonor de Navarra, com Maria de Orléans, irmã mais velha de Luís XII de França. Com tais credenciais nobiliárquicas, incluindo uma pequena pretensão ao trono de Navarra por intermédio de seu pai, ela desde cedo despertaria a atenção do mercado matrimonial europeu; de fato, já em 1505, o recém-enviuvado Fernando II de Aragão estava fazendo uma proposta à mão da jovem para o seu tio materno, o rei de França. Muito embora Germaine fosse, em realidade, sobrinha-neta do rei aragonês – quase quatro décadas mais velho do que ela –, as vantagens do casamento facilmente superavam as dificuldades de se conseguir uma dispensa papal. Além de uma aliança com França, a noiva ainda viria para Aragão com as posses nominais dos reinos de Nápoles e Jerusalém, sem contar a pretensão à Navarra. Essa aparente generosidade de Luís XII era, porém, envenenada; Nápoles já pertencia aos aragoneses, Jerusalém caíra há muito para os infiéis e Navarra seria herdada pelos filhos da prima de Germaine, a rainha Catarina, antes de recair sobre seu irmão mais novo ainda solteiro, Gastão.

Germaine de Foix
Germaine de Foix

De qualquer forma, a pretensão menor de Germaine ao trono de Navarra apenas adicionava um pouco mais de urgência para um casamento que, em realidade, tinha outro objetivo primário: a produção de um herdeiro homem para Aragão. Uma série inesperada de mortes entre a progênie de Fernando II de Aragão com Isabel I de Castela deixara o território espanhol para a terceira filha, Joana, casada desde 1496 com o ambicioso Felipe de Habsburgo, duque de Borgonha, com quem já tinha quatro crianças na época da morte da rainha Isabel em 1504. Rapidamente, Felipe e Fernando entrariam em confronto pelo controle político da nova rainha e, indiretamente, da maior parte da Península Ibérica. Neste sentido, o novo matrimônio do idoso rei era fundamental: se ele pudesse produzir um herdeiro com sua nova esposa, Aragão escaparia ao domínio dos Habsburgo, e talvez pudesse até mesmo ampliar sua influência na Europa devido ao dote e possíveis direitos sucessórios de Germaine.

Em 1506, o genro e rival de Fernando morreria depois de uma breve doença, mas a concepção de um príncipe para Aragão ainda era vital para evitar a dominação austríaca. Finalmente, em 3 de maio de 1509, nasceu um menino, nomeado João; a criança, contudo, faleceria em questão de horas. Germaine e Fernando não teriam mais filhos antes da morte dele em 1516. Apesar de Joana ainda estar viva a esta altura, ela foi mantida encarcerada por seu filho Carlos, que assumiria a herança dos avôs maternos. A rainha viúva, que tinha sob seu poder alguns territórios na Península Itálica, também os cedeu ao neto por afinidade. Nestas circunstâncias, é claro que o novo monarca estava disposto a cumprir os pedidos do falecido avô para que cuidasse de Germaine em sua viuvez.

Um jovem Carlos I de Espanha
Um jovem Carlos I de Espanha

Contando com apenas 15 anos na época do falecimento de seu avô, o jovem Carlos ainda era um tanto inexperiente política e sexualmente quando se encontrou com a fogosa Germaine nas imediações de Valladolid. Muito provavelmente a rainha viúva causou uma forte impressão no rei logo a princípio; diferente do que se poderia imaginar, se tratava de uma mulher que sequer completara 30 anos de idade, alegre e divertida mesmo em seu sofrimento recente, ainda que não fosse considerada propriamente bela – de fato, tinha uma tendência à obesidade. Quando Germaine quis saudar o monarca fazendo uma inclinação cerimonial, Carlos I de Espanha não permitiu, impedindo-a de saltar de sua mula. Em pouco tempo já eram amantes. Ela sairia da corte de Aragão e iria para Castela, onde Carlos organizaria vários banquetes em sua honra, tornando-a inclusive uma influente conselheira política enquanto ele negociava com Aragão para ser reconhecido oficialmente como rei.

Devido à sombra incestuosa que cobria ambos, contudo, o caso amoroso de Carlos e Germaine era extremamente discreto. Em 1518, a rainha viúva deu à luz uma filha, batizada como Isabel. O nascimento pareceu esfriar o romance, uma vez que pouco depois o rei já estava negociando um novo matrimônio para Germaine; desta vez, o marquês de Brandenburg, que juntamente com a esposa foi feito vice-rei em Valência. Já em 1525, entretanto, Germaine se encontrava viúva pela segunda vez. Carlos, que a esta altura negociava seriamente suas núpcias com a infanta portuguesa Isabel, apressou-se em casar Germaine pela terceira vez com o duque de Calábria.

Embora não pareçam ter retomado outra vez a ligação sexual, Germaine e Carlos manteriam boas relações até a morte desta em 1536. A filha deles, contudo, teve um destino menos evidente. Após ter passado uma infância discreta na corte castelhana, “a sereníssima Dona Isabel, infanta de Castela, filha da Majestade do Imperador” desapareceu dos registros históricos. Certamente ainda se encontrava viva na época da morte da mãe, uma vez que é mencionada como beneficiária no testamento de Germaine, mas seu destino certo é até hoje nebuloso – quase tanto quanto o relacionamento proibido, ardente e secreto de seus pais.

Para saber mais:

HIERRO, María Pilar Queralt del. “Germaine de Foix, a paixão proibida do imperador”. IN: Rainhas na sombra: amantes e cortesãs que mudaram a História. Rio de Janeiro: Versal, 2015.

http://www.britannica.com/biography/Charles-V-Holy-Roman-emperor

A imperatriz portuguesa: Leonor de Avis

Terceira filha (sexta criança) do casamento do rei D. Duarte com sua esposa aragonesa, a infanta D. Leonor nasceu em 18 de setembro de 1434. Embora tivesse duas irmãs mais velhas – D. Felipa e D. Maria – ambas morreriam ainda crianças; Leonor ficaria, portanto, como a filha mais velha sobrevivente do rei, o que poderia futuramente elevar seu valor no mercado matrimonial da nobreza medieval. Contudo, a morte prematura de D. Duarte em 1438 e a ascensão ao trono do irmão mais velho da infanta complicou consideravelmente a situação. D. Afonso V, o novo monarca, era uma criança de apenas seis anos; uma regência seria necessária. Inicialmente, sua mãe e homônima ocuparia o cargo, mas sofreria grandes pressões dos nobres partidários do duque de Coimbra, irmão do falecido rei. Após alguns meses de tensão política, a rainha viúva seria obrigada a capitular e se exilar em Castela, efetivamente abandonando todos os filhos e filhas restantes ao cargo do cunhado – incluindo D. Leonor, doente na época.

Pedro, agora o novo regente, entregaria a infanta mais velha aos cuidados de D. Guiomar de Castro, futura condessa de Atouguia. Seria lá que D. Leonor cresceria e amadureceria, só deixando a companhia de D. Guiomar em 1445, quando, após a morte da mãe, ela e as duas irmãs ainda vivas – D. Catarina e D. Joana – ganhariam residência própria na corte. Pouco depois, seu matrimônio começaria a ser arranjado por intermédio de sua tia paterna D. Isabel, duquesa da Borgonha, e seu tio materno, o rei de Aragão, que inclusive providenciaria a pintura de retratos da infanta para serem enviados aos putativos noivos, o rei da França e o imperador da Alemanha. Teria sido durante essa época que D. Leonor, já com 16 anos, teria tido um romance com o irmão do futuro conde de Portalegre, o fidalgo D. João de Menezes. Após participar da comitiva que levou a infanta para o futuro marido, Frederico III, ele teria em seu desgosto juntado uma ordem religiosa, tornando-se um frei.

D. Leonor
D. Leonor

A escolha do imperador para ser o marido da primogênita sobrevivente de D. Duarte foi um movimento político do regente, o duque de Coimbra, que, juntamente com sua irmã, a duquesa de Borgonha, participava das negociações nupciais. Naturalmente hostil à casa reinante de Aragão devido à privação dos direitos de sua própria esposa, a condessa de Urgell, D. Pedro desejava uma aliança que enfraquecesse os aragoneses, como um casamento com o Sacro Império ou com a França. Para D. Isabel, promover um casamento francês para infanta era crucial para restabelecer as relações borgonhesas com este reino após as crescentes vitórias militares do último na Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra, antigo aliado de Borgonha.

Entretanto, esta inclinação pró-francesa seria alterada por dois importantes fatores: em primeiro lugar, a crescente preponderância de Frederico III no cenário europeu, e em segundo lugar a chegada à maioridade de D. Afonso V em 1448. Nos turbulentos eventos que acompanharam este último evento, o duque de Coimbra perderia influência para D. Afonso, duque de Bragança e seu meio-irmão ilegítimo. Este tinha inclinações pró-aragonesas. Acontecia que o rei de Aragão da época procurava agradar Frederico III para assegurar suas possessões italianas; uma vez que o imperador cobiçava as riquezas representadas por um possível casamento com uma infanta da Casa de Avis, o rei aragonês passou a apoiar tais núpcias, que de qualquer forma prejudicavam os rivais franceses. Desta forma, D. Leonor perdeu a chance de ser rainha de França, mas ganhou a oportunidade de se tornar a primeira imperatriz portuguesa da história.

Frederico III
Frederico III

Após longas negociações, o casamento entre a infanta portuguesa D. Leonor e o Sacro Imperador Romano Frederico III foi por fim acertado, tendo sido estipulado um grande dote. Em fins de outubro de 1451, D. Leonor viajaria ao encontro do marido, chegando finalmente na cidade de Siena em meados de novembro. Lá, ela encontraria Frederico III pela primeira vez. Embora as impressões pessoais de cada um sejam obscuras, pode-se fazer um palpite bastante acertado baseando-se em opiniões contemporâneas; a noiva era considerada bela, distinta e culta, tendo inclusive conversado com o marido sem o auxílio de um intérprete, como seria comum. Por outro lado, ele era hesitante e um tanto frio emocionalmente. Apesar disso, contudo, ele ficou impressionado com D. Leonor. Após este primeiro encontro, Frederico a levaria até Roma, onde ambos se casariam oficialmente e seriam coroados conjuntamente pelo papa Nicolau V. Na verdade, seria a última vez que este tipo de cerimônia ocorreria na capital da cristandade.

Após o evento, ambos iriam para o sul, chegando em abril de 1452 para as celebrações nupciais oferecidas pelo tio de Leonor, o rei de Aragão, em seu reino de Nápoles. Lá, finalmente, ocorreria a consumação do consórcio entre a infanta, que ainda não completara 18 anos, e o imperador, que era quase vinte anos mais velho. Apesar dos receios iniciais dele quanto à capacidade de D. Leonor em dar à luz, a relação provou-se fértil; não muito tempo depois da união, nasceria o primeiro filho, Cristovão, seguido depois por outro menino, Maximiliano. Em breve, entretanto, as diferenças apareceriam. Os interesses de D. Leonor em dança e caça, por exemplo, não eram compartilhados por seu marido, que em breve mandaria embora as companhias portuguesas de sua esposa devido aos gastos que elas acarretavam. A relação esfriaria ainda mais com a culpabilização de Leonor pela morte de alguns filhos do casal – nomeadamente Cristovão, Helena e João – ainda na infância, alegadamente porque ela permitira que as crianças comessem a estranha comida de sua terra natal.

Pouco tempo após a morte de João, Leonor também faleceria em 3 de setembro de 1467. Faltavam apenas duas semanas para que ela completasse 33 anos de idade. Seu marido ainda viveria mais 36 anos, quando morreria em idade avançada após uma hemorragia causada pela amputação de um pé gangrenado. Apesar de contar com apenas um herdeiro homem, Frederico nunca se casara novamente após sua viuvez décadas antes. Ele seria sucedido no trono imperial pelo filho Maximiliano, que viria por sua vez a ser o avô paterno do célebre Carlos V.

Para saber mais:

HANREICH, A. “D. Leonor de Portugal, esposa do Imperador Frederico III (1436-1467)”. IN: Relações entre a Áustria e Portugal. Testemunhos Históricos e Culturais. Coimbra: Livraria Almedina, 1985.

SARAIVA, António. O crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1990.

As infantas esquecidas: Isabel e Catarina de Habsburgo

Quando Felipe II de Espanha casou-se, pela terceira vez, com a princesa francesa Isabel de Valois – em 22 de junho de 1559, como parte de um novo tratado de paz com o reino vizinho – provavelmente ele não esperava que a nova esposa tivesse tanta dificuldade em gerar filhos homens. Afinal, numa época em que os exemplos ancestrais eram bastante importantes para definir a questão da fertilidade de uma mulher, Isabel era filha de ninguém menos do que Catarina de Médicis, que gerara sete crianças que haviam sobrevivido até a idade adulta. Neste sentido, os dez anos de casamento entre Catarina e Henrique II até o nascimento do filho primogênito talvez tenham contribuído para assegurar ao rei espanhol que tudo o que a sua jovem esposa necessitava era tempo.

De fato, depois da morte de três bebês, Isabel deu à luz a uma menina saudável em 12 de agosto de 1566. Nomeada em homenagem à célebre bisavó paterna, a nova infanta foi desde cedo a alegria do rei, que teria inclusive declarado que o nascimento dela o deixara mais feliz do que se tivesse tido um segundo filho homem. Logo no ano seguinte, em 10 de outubro, nasceria outra menina, provavelmente batizada em homenagem à mãe da rainha de Espanha. A vinda de um infante parecia uma questão de tempo quando, meses após o nascimento da infanta Catarina, Isabel concebeu mais uma vez. Entretanto, a tragédia atacaria o seio da família real espanhola naquele momento: o herdeiro de Felipe II, o príncipe Carlos, morreria de forma suspeita após ter conspirado contra o pai; sua madrasta, com quem ele teria sido bastante ligado em vida, teria um aborto pouco tempo depois, morrendo em decorrência das complicações. Numa questão de semanas, portanto, o rei de Espanha perdeu o herdeiro e a esposa, e agora a pequena infanta era a herdeira de um império onde o sol sempre brilhava.

A infanta Isabel aos 13 anos de idade
A infanta Isabel aos 13 anos de idade

Mesmo depois que Felipe II se casasse, pela quarta vez, com a arquiduquesa austríaca Ana, filha de sua irmã Maria, e produzisse mais cinco crianças – das quais apenas seu sucessor, Felipe III, sobreviveria à idade adulta – a infanta Isabel sempre seria sua favorita, muito possivelmente por ter herdado a sua sagacidade política. De aparência delicada e beleza italiana herdada da avó materna, a rainha viúva de França, a infanta Isabel era considerada, em sua juventude, mais bonita do que a irmã mais nova, a animada infanta Catarina; segundo registros de embaixadores da época, a primogênita era “belle comme le beau jour” e “di rara e suprema beleza”, enquanto a caçula, embora menos favorecida em formosura, era “piu alegra, piu giovale”. Ambas foram criadas em grande medida por sua tia Joana, viúva do príncipe D. João e mãe do rei português, D. Sebastião, e pela duquesa de Alba.

Desde cedo, as infantas foram treinadas para o matrimônio, inevitável para as filhas de um homem tão influente como Felipe II, tendo variados tutores e recebendo aulas de dança, música e desenho – talentos, aliás, que haviam herdado da falecida mãe. O principal pretendente da irmã mais velha era seu primo D. Sebastião, muito embora ele fosse mais de dez anos mais velho do que Isabel. Apesar de ele ter sido amplamente incentivado por sua avó e tutora, D. Catarina, a esperar pelo amadurecimento físico da infanta, o fato é que o próprio Felipe II não levava a sério os propósitos matrimoniais de D. Sebastião; segundo o historiador Queiroz Velloso, o monarca espanhol não comprometeria a primogênita a um contrato do qual o rei português, conhecido por sua misoginia em todas as cortes europeias, depois pudesse procurar escapar por motivos variados. Ao invés disso, Isabel foi prometida a outro primo, o excêntrico herdeiro Rodolfo, futuro Imperador Sacro Romano. Depois de mais de vinte anos de compromisso, contudo, o noivo decidiu que não se casaria com a infanta espanhola, mantendo-se ao invés disso solteiro até sua morte.

A infanta Catarina com aproximadamente 15 anos de idade
A infanta Catarina com aproximadamente 15 anos de idade

Então, enquanto a irmã mais nova Catarina se casaria em 1584 com o duque de Saboia, Isabel seria mantida solteira por vários anos. Vivendo na corte espanhola, ela ajudaria a criar o irmão sobrevivente e auxiliaria o pai nas questões políticas do império. Isabel era, de fato, presença constante nos Conselhos de Estado e a única autorizada a traduzir os documentos de origem italiana de seu pai para a língua espanhola. Na ausência de uma rainha, portanto, a infanta Isabel assumiu o papel da dama mais importante da corte de Espanha. Esta situação se manteria até 1598, quando o já idoso Felipe II resolveu matrimoniar a primogênita com outro primo seu, o arquiduque Alberto – irmão mais novo de Rodolfo – para que ambos juntos pudessem governar os revoltosos Países Baixos em nome da Coroa espanhola. Pouco antes do casamento, o rei morreria.

Para que quaisquer filhos nascidos da união com a infanta Isabel fossem considerados legítimos, o arquiduque Alberto teve que ser liberado de seus antigos votos eclesiásticos. Contudo, a união permaneceria estéril até a morte dele em 1621; apesar disso, o governo conjunto do dois é considerado como sendo a Era Dourada dos Países Baixos, que possibilitou paz e estabilidade após várias décadas de guerra. Após a morte de Alberto, Isabel continuaria como regente em nome do sobrinho, Felipe IV de Espanha, posição que somente deixaria de ocupar após sua própria morte em 1633.

A essa altura, contudo, a irmã de quem fora tão próxima na infância, Catarina, já falecera há muito. Inteligente e arrogante, a infanta fora de início impopular no ducado do marido, uma vez que era julgada como sendo uma agente de interesses espanhóis. Rapidamente, contudo, sua influência positiva em Saboia e no duque Carlos foi registrada. Durante as ausências dele durante campanhas militares, Catarina seria uma regente respeitada, ajudando também a estimular a vida cultural do ducado enquanto tinha várias crianças, entre elas o sucessor do marido. Em 1597, ela morreria pouco depois de um aborto, assim como sua mãe tanto tempo antes.

De fato, assim como a rainha Isabel de Valois, ambas as filhas, as infantas esquecidas de Espanha, seriam afundadas pela maré da História ao serem esmagadas pela influência e fama tão próxima do homem mais poderoso da segunda metade do século XVI: o homem que assinava suas carinhosas cartas às filhas como “seu bom pai”.

Para saber mais:

DANTAS, Júlio. “As filhas do Demônio”. IN: Eterno feminino. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1929.

http://www.mujeresenlahistoria.com/2011/02/la-hija-fiel-isabel-clara-eugenia-1566.html

http://internationalmonarchism.blogspot.com.br/2008/10/forgotten-infantas-isabella-clara.html

Leonor de Aragão – parte III

De fato, a guerra pareceu quase desde o começo um desastre consumado, e assim procedeu; nos confrontos com os muçulmanos, os portugueses saíram derrotados, e a retirada de volta ao reino foi um martírio de fome e sede. Além disso, o infante D. Fernando foi capturado, e o preço para o seu resgate era a devolução de Ceuta, conquistada décadas antes por D. João I. Atormentado pela prisão do irmão, D. Duarte tentou fugir com a família da peste que assolava Portugal, mas quando chegou à cidade de Tomar já estava doente, agonizando numa questão de dias. Novamente grávida, a rainha foi afastada dele, juntamente com as crianças do casal. Os irmãos do rei, incluindo o ilegítimo D. Afonso, apressaram-se a ir encontrá-lo quando se percebeu que o quadro de D. Duarte era fatal, mas não conseguiriam chegar a tempo. Ainda grávida, D. Leonor se tornaria uma viúva em 9 de setembro de 1438. O novo rei, D. Afonso V, era seu filho, e tinha apenas seis anos de idade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Depois dos funerais de D. Duarte e da proclamação de seu filho mais velho, D. Afonso, como novo rei de Portugal, o testamento do falecido foi finalmente aberto. Não é sabido exatamente quando o fez, mas provavelmente, devido às suas disposições, foi já perto de sua morte. De qualquer forma, o documento era incendiário; declarava, já de início, que a rainha D. Leonor deveria ser a tutora, curadora e regente dos filhos do casal, incluindo o herdeiro D. Afonso. Além disso, uma determinada quantia era deixada para a negociação da libertação do infante D. Fernando, seu irmão mais novo. Se isso não fosse suficiente, o falecido rei determinava que a colônia de Ceuta fosse cedida de volta aos infiéis como preço pela volta de D. Fernando.

Ambas as questões tinha ferrenhos oponentes. No tocante à segunda, porém, a procrastinação logo se mostrou ser uma arma valiosa. A negociação pela volta do infante foi tão postergada que o mesmo acabaria por morrer ainda em possessão dos inimigos no ano de 1443, cinco anos após a falecimento do rei D. Duarte.  Agora, quanto à regência a situação era mais difícil. Seria a quinta regência pela qual passaria o reino, a terceira chefiada por uma mulher. Considerando-se os antecedentes – Teresa Henriques, expulsa do reino pelo próprio filho, e Leonor Teles, expulsa para o reino do genro – as perspectivas de Leonor de Aragão não pareciam boas.

Alguns meses depois da morte do marido, D. Leonor deu à luz a última filha deles, a infanta D. Joana, futura rainha de Castela. Neste momento, ela já assumira a regência, confirmada pelas Cortes de Torres Novas de 1438, mas as resistências contra ela era muitas. Seu sexo, sua inexperiência política e seu nascimento e criação em Aragão faziam com que sua escolha para regente, na verdade, fosse um mero respeito às vontades do falecido rei D. Duarte enquanto outros candidatos, como o infante D. Pedro, iam reunindo aliados entre a nobreza. A cidade de Lisboa, contudo, rapidamente se rebelou após a escolha das Cortes, e sua insatisfação só foi contida por tropas do irmão de Leonor, o conde de Barcelona.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A situação marcou a fim da vantagem da rainha. Mesmo apoiada pelo irmão ilegítimo de D. Duarte, D. Afonso, e fazendo múltiplas concessões a D. Pedro na criação de D. Afonso V, ela perdera a vantagem que a vontade póstuma do marido lhe fornecera. Eventualmente, as Cortes de Lisboa escolheram D. Pedro, duque de Coimbra, como o novo regente. A rainha viúva conspiraria até o ano seguinte para recuperar a regência do cunhado, mas sem sucesso; em dezembro de 1440, D. Pedro a forçaria a partir de volta para Castela, onde ela morreria em 1445.

Para saber mais:

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

Leonor de Aragão – parte II

A morte do primeiro rei da dinastia de Avis, D. João I, em 13 ou 14 de agosto de 1433, marcou formalmente o início do reinado de D. Duarte, muito embora ele já partilhasse de alguns deveres reais há vários anos, principalmente depois de superar o choque da morte súbita da mãe em 1415. Diferentemente do que se esperava de um rei, contudo, D. Duarte partilhou e até superou o “espantoso praanto” dos irmãos, precisando inclusive de um confessor para recuperar a calma – embora a morte do doente rei fosse há muito esperada. No dia seguinte, o astrólogo do novo rei alertou-o para atrasar sua aclamação por algumas horas, a fim de evitar uma conjunção infeliz dos astros; D. Duarte agradeceria ao conselho, mas manteria sua decisão inicial. Posteriormente, estes dois eventos seriam usados em crônicas do rei como sinais antecipatórios de seu trágico reinado.

D. Duarte
D. Duarte

Conforme o costume, a nova rainha D. Leonor não participou da cerimônia de aclamação do marido – assim como não participaria oficialmente de seu governo formal. Apesar de ter herdado de seu pai o desejo de guerrear contra os infiéis de África, D. Duarte também foi desde o início um rei muito consciencioso de seus deveres, mantendo uma agenda bastante rígida para os padrões da época e até mesmo para os dias de hoje; em média, trabalhava por doze horas diárias em seis dias por semana, excluindo-se apenas o domingo. Neste sentido, a importância da rainha estava em manter intacto o modelo de família real devota inaugurado por sua falecida sogra, que influenciaria toda a pirâmide social da época.

Para isso, sua impressionante fertilidade não deixaria de ser crucial. Na época da ascensão de D. Duarte, ele e D. Leonor já haviam tido quatro crianças; os dois mais velhos seriam nomeados como seus avôs paternos durante suas curtas vidas. O segundo menino, por sua vez, receberia o nome tradicional da dinastia de Borgonha, Afonso, e sucederia o irmão mais velho como herdeiro do pai – como, aliás, ocorrera como o próprio secundogênito D. Duarte. Outra menina, D. Maria, nasceria também em 1432, mas viveria pouco; provavelmente o tempo insuficiente entre estas duas gestações de D. Leonor contribuiu para tal resultado. No ano seguinte, a esposa de D. Duarte encontrava-se em gravidez avançada quando o rei faleceu em agosto. Pouco tempo depois, nasceria outro menino, D. Fernando.

D. Fernando
D. Fernando

Portanto, enquanto D. Duarte engendrava a reforma monetária e legislativa do reino – incluindo a célebre Lei Mental – D. Leonor engendrava a próxima geração dos Avis, com as quais o rei poderia manejar sua política externa. Depois da aclamação, nasceriam sucessivamente D. Leonor (1434), D. Duarte (1435) e D. Catarina (1436); após isso, porém, houve uma pausa, provavelmente gerada pela natural exaustão do corpo da rainha. Enquanto isso, D. Duarte planejava com D. Henrique e o irmão caçula D. Fernando a expedição há muito sonhada à Tânger, embora os demais irmãos fossem contra.

Leonor de Aragão – parte I

Nascida em 1º de março de 1402, Leonor de Aragão foi a quinta criança (segunda menina) de Fernando I de Aragão e sua esposa, a condessa castelhana Leonor de Albuquerque. Seu pai fora o segundo filho de uma infanta de Aragão; quando seus tios morreram sem descendência, ele reivindicou sua herança em 1412. Fernando continuaria, contudo, a exercer a regência de Castela, que iniciara juntamente com sua cunhada, a rainha viúva Catarina de Lancaster, após a morte de seu irmão Henrique III em 1406, até sua própria morte prematura em 1416. Ele seria sucedido em Aragão pelo filho primogênito Afonso, que em 1420 casaria a irmã Maria com o jovem rei castelhano João II.

A irmã mais nova de Afonso, Leonor, também seria uma peça no jogo dinástico dos Trastámara para espalhar a descendência de Fernando I pelos tronos ibéricos, e, assim, ajudar a expandir a influência política da Casa. Esta ambição do ramo aragonês dos Trastámara conversava perfeitamente com a resistência da recém-instaurada dinastia portuguesa dos Avis em casar seus membros em Castela – ao menos enquanto a princesa Joana vivesse. Mas não deixavam de existir alternativas a um possível casamento aragonês: é bem possível, por exemplo, que influenciado por sua consorte, D. João I visse com simpatia uma possível união inglesa para seu herdeiro D. Duarte.

Leonor, condessa de Albuquerque
Leonor, condessa de Albuquerque

Por outro lado, as núpcias do herdeiro do trono português precisavam ser negociadas com cuidado. Nesse sentido, a existência de três outros filhos homens do rei – D. Pedro, D. Henrique e D. Fernando – tornavam essas longas negociações não apenas necessárias, mas plenamente possíveis. As primeiras negociações ocorreriam pouco depois da maioridade de D. Duarte, ocorrida em 1409, com a aragonesa Casa de Urgell; os choques de interesses desta com os do novo rei, Fernando I, acabaram destroçando a família, que acabou arruinada. A putativa noiva acabaria num convento. Depois disso, as próximas negociações matrimoniais registradas de D. Duarte ocorreram apenas em 1422, quando D. João I entrou em contato com condessa de Albuquerque para negociar um possível casamento entre seu herdeiro e a filha ainda solteira dela, Leonor.

A esta altura, contudo, os dois ramos da Casa de Trastámara haviam se tornado ferrenhos adversários, e João II de Castela proibiu a condessa de Albuquerque, sua vassala, de liberar a filha para as núpcias portuguesas. Os próximos anos foram uma verdadeira queda de braço entre Aragão e Castela pela posse da infanta Leonor, até que em 1427, finalmente, ela foi liberada para voltar ao seu reino de origem. Por todo o ano, as negociações continuariam, agora tornadas mais urgentes pela posse aragonesa da infanta. Em fevereiro de 1428, grandes festas aconteceriam na cidade de Valhadolid para a despedida de Leonor, depois das quais ela se dirigiria para a fronteira com Portugal.

Leonor de Aragão
Leonor de Aragão

Inicialmente, a cerimônia nupcial ocorreria em Évora, mas devido ao surto de peste que lá havia, foi transferida a mando de D. João I para Coimbra – o que muito enfureceu D. Duarte, que já gastara muito nos preparativos naquela cidade. Não estando disposto a enfrentar o humor do herdeiro, o rei acabou mandando o terceiro filho, D. Henrique, em seu lugar para atuar como mestre-de-cerimônias. A união oficial ocorreu por fim no dia 22 de setembro; antes mesmo disso, contudo, D. Duarte, que estava hospedado no mesmo paço de Leonor, a visitava duas ou três vezes por dia em seus aposentos. Embora o infante D. Henrique tenha assegurado ao pai que ambos não haviam chegado às intimidades, deve-se lembrar que o noivo era um homem enérgico de 37 anos; apesar de ter tendência à depressão, que o abateu pela primeira vez após a morte de sua mãe Philippa em 1415, dificilmente ainda era virgem, como já foi defendido anteriormente por alguns autores. De qualquer forma, os primeiros encontros entre ambos pareceram ser agradáveis; pouco mais de um ano após o casamento, nasceria o primeiro filho, batizado em homenagem ao avô.