A última rainha de Felipe II: Ana de Áustria – parte III

No outono de 1570, Ana começou seu progresso para a Espanha acompanhada por dois de seus irmãos mais novos, Alberto e Venceslau. Na sua comitiva, também iam parentes e amigos de Floris, barão de Montigny, prisioneiro político do rei de Espanha desde 1567. Eles tentavam convencer Ana a apelar para seu marido libertar Floris, e, de fato, receberam dela uma promessa nesse sentido. No início de outubro, ela chegou à Espanha depois de uma viagem pelo Canal da Mancha; antes de sua entrada oficial na Corte espanhola, contudo, o barão de Montigny foi executado por estrangulamento em sua cela, mesmo depois de um pedido pessoal dela para que o rei o poupasse.

D. Diego, príncipe herdeiro de Espanha e Portugal
D. Diego, príncipe herdeiro de Espanha e Portugal

Em certo sentido, a execução de Floris deu o tom do que seria o quarto matrimônio de Felipe II de Espanha. Desde o início, o rei espanhol preocupou-se em separar sua vida conjugal com Ana de suas funções políticas-administrativas; apesar de ter se encantado com a jovem sobrinha, ele limitava suas visitas aos aposentos dela a apenas duas por semana. Como Isabel de Valois antes dela, Ana de Áustria também se apaixonou pelo marido, embora ele fosse mais de vinte anos mais velho. Diferentemente dela, contudo, a arquiduquesa austríaca foi inicialmente mais feliz no que diz respeito à produção de herdeiros para o trono espanhol. Logo no ano seguinte ao casamento, ela deu à luz ao príncipe Fernando, e em 1573 nasceria outro menino, batizado com o mesmo nome do falecido herdeiro de Felipe II. Embora essas duas crianças fossem viver pouco, em 1575 nasceria aquele que seria futuramente jurado como herdeiro nas Cortes de Tomar, o príncipe Diego. Em 1578, veio à luz um quarto menino, nomeado em homenagem ao pai.

Poucos meses depois do nascimento daquele que seria Felipe III de Espanha, ocorreu a tragédia de Alcácer-Quibir, onde morreu o ainda solteiro D. Sebastião, junto com a maior parte da fina flor da nobreza portuguesa. Como seu sucessor no trono português ficou seu idoso tio-avô, o cardeal D. Henrique. Rapidamente, a crise sucessória foi aberta, com vários pretendentes ao trono – descendentes de vários filhos de D. Manuel I – se apresentando para herdar Portugal, como D. Antônio, prior do Crato, filho ilegítimo do infante D. Luís, e D. Catarina, duquesa de Bragança, secundogênita do infante D. Duarte. Felipe II, como primogênito da infanta D. Isabel, conseguiu impor sua superioridade militar sobre a fraqueza jurídica de sua candidatura, e, após a morte de D. Henrique revelar que, em seu testamento, ele não decidira nada de definitivo sobre a sucessão, o rei de Espanha marchou com seus exércitos para tomar o que já considerava como sua posse. Se for aceita a morte de D. Henrique como o ponto inicial do reinado de D. Felipe I, então, Ana de Áustria teria sido a primeira rainha de Portugal da dinastia de Habsburgo.

Felipe III de Espanha
Felipe III de Espanha

De qualquer forma, seu período como consorte não duraria muito. Oito meses depois do nascimento de sua filha Maria, a rainha Ana morreria de falha cardíaca na vila de Badajoz enquanto rumava para se encontrar com o marido em Portugal. Faltavam cinco dias para que ela completasse 31 anos de idade. Com a morte de D. Diego em 1582, Felipe II ficaria com apenas um herdeiro homem para herdar o império espanhol; mesmo assim, não se casaria novamente até sua própria morte em 1598. Se isso se deveu às suas tentativas para se casar com sua prima também viúva, D. Catarina, ou então ao luto prolongado por Ana de Aústria – dita sua esposa mais amada – não se pode saber ao certo.

Para saber mais:

BOUZA, Fernando. D. Filipe I. Círculo de Leitores, 2005.

ELLIOTT, John. La España imperial – 1469-1716. Madrid: Biblioteca Historia de España, 1963.

VELLOSO, José Maria de Queiroz. D. Sebastião (1554-1578). Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1935.

A última rainha de Felipe II: Ana de Áustria – parte II

Em 1566, a rainha Isabel finalmente teve uma criança viva, a infanta Isabel, e em 1567 nasceu outra, a infanta Catarina, o que reforçou a descendência de Felipe II. Logo no ano seguinte, entretanto, ocorreria a tragédia: num intervalo de poucas semanas, morreriam tanto o herdeiro Carlos quanto a rainha Isabel, deixando o rei espanhol, quase ao mesmo tempo, viúvo e sem um herdeiro homem.

Ana de Áustria na época de suas negociações nupciais
Ana de Áustria na época de suas negociações nupciais

Na época das duas mortes na corte espanhola, Ana de Áustria já tinha quase 19 anos e se preparava para seu casamento. Como filha mais velha do Sacro Imperador Romano e sobrinha do poderoso Felipe II, ela era uma noiva bastante disputada. Em princípio, ela fez parte de uma aliança matrimonial que uniria os maiores reinos da cristandade – no caso, Espanha, França e Portugal. A ideia era que, enquanto ela se casasse com seu primo, o príncipe espanhol Carlos, sua irmã mais nova Isabel se casaria com o rei francês Carlos IX; a irmã deste, Margarida, seria por sua vez a noiva de D. Sebastião.

Dois fatores, porém, alterariam toda a configuração deste plano de aliança nupcial. Primeiramente, o já naturalmente reticente rei português tinha grande aversão quanto a casar-se com uma princesa de um reino que tinha tão boas relações com hereges protestantes. Apesar do projeto matrimonial ter o apoio de seu tio D. Henrique e do próprio papa, Pio V, nada convenceria D. Sebastião. Então, as noivas foram trocadas por Felipe II: enquanto D. Sebastião ficaria com Isabel de Áustria, Carlos se casaria com Margarida. Isso agradou o rei português.

D. Sebastião (c. 1570)
D. Sebastião (c. 1570)

Em 1568, contudo, Felipe II ficou subitamente sem herdeiro homem e viúvo. A saída natural parecia ser que ele se casasse com a jovem Margarida no lugar do falecido filho. Contudo, como D. Sebastião antes dele, o rei espanhol resistiu; não pela suposta promiscuidade da princesa francesa, mas pelo simples fato que, devido ao fato de Margarida ser a irmã mais nova de sua terceira esposa, Felipe II tinha um laço de afinidade com ela, o que tornaria sua união incestuosa. Por mais insistente que a mãe de Margarida, a célebre Catarina de Médicis, pudesse ser, nada dobraria a resistência de Felipe II – muito embora, interessantemente, outrora ele tivesse tentado se casar com a irmã mais nova de sua segunda esposa, Maria I de Inglaterra. Assim, o rei espanhol destrocou as noivas e ficou noivo de Ana de Áustria em 1569, para a grande irritação de D. Sebastião, que permaneceu solteiro. Margarida, por sua vez, acabaria se casando em 1572 com o rei de Navarra.

A última rainha de Felipe II: Ana de Áustria – parte I

Filha primogênita de Maximiliano II, Sacro Imperador Romano, com Maria de Espanha, sua prima direta, a arquiduquesa Ana de Áustria nasceu em 1º de novembro de 1549 e simbolizou uma tentativa de reconciliação entre os dois ramos Habsburgo. Embora amigavelmente separados quando Carlos V – pai de Maria – doou a Boêmia e a Hungria ao seu irmão caçula, Fernando, as relações na família deterioram-se quando Carlos V começou a insistir para que seu filho e herdeiro Felipe o sucedesse como imperador, efetivamente tomando as terras que prometera anteriormente a Fernando.

O jovem arquiduque Maximiliano
O jovem arquiduque Maximiliano

Embora eventualmente tenha se atingido um compromisso que Felipe sucederia Fernando – que acabaria não sendo cumprido – o ocorrido danificou bastante as relações entre os dois irmãos, e mais ainda entre os primos, muito diferentes entre si; enquanto Felipe foi criado como um príncipe espanhol, sendo bastante reservado, Maximiliano era a essência de um expansivo príncipe alemão. Além disso, este tinha fortes tendências à tolerância religiosa que alimentava a heresia protestante nos territórios alemães, tolerância esta totalmente estranha ao católico Felipe. Neste contexto explosivo, é provável que Maximiliano tenha inclusive sido envenenado a mando do herdeiro espanhol.

Daí a importância da crescente família que Maximiliano formou com a irmã de Felipe com o passar dos anos. Depois de Ana em 1549, nasceria Fernando em 1551 – mas que só viveu até o ano seguinte – e depois o eventual herdeiro, Rodolfo, em 1552, seguido por Ernesto em 1553, Isabel em 1554, Maria em 1555 – que também viveu pouco – e Mateus em 1556, além de outras cinco crianças sobreviventes. No jogo de influência das dinastias europeias, os Habsburgo estavam definitivamente bem-abastecidos.

Príncipe Felipe em aproximadamente 1550
Príncipe Felipe em aproximadamente 1550

Num plano mais pessoal de sucessão, contudo, Felipe – rei de Espanha desde 1556 – estava ameaçado por sua fraca progênie.  Na altura da sucessão de Maximiliano como Sacro Imperador Romano em 1564, ele só tinha um único filho instável, Carlos, fruto de seu primeiro casamento com D. Maria de Portugal; seu segundo matrimônio, com Maria I de Inglaterra, não produzira descendência, e suas núpcias com Isabel de Valois só haviam produzido três crianças falecidas pouco após o nascimento. Naquele frágil cenário, Maximiliano, herdeiro do irmão mais novo de Carlos V e marido da irmã mais velha de Felipe, estava numa boa posição para herdar o trono espanhol, embora o rei de Portugal, D. Sebastião, filho da irmã mais nova, talvez fosse o favorito para suceder o tio devido à proximidade política-cultural entre os reinos ibéricos.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte IV

Depois de D. Isabel, a rainha ainda teria mais três crianças: outra D. Blanche (n. 11/04/1398), que também faleceria jovem, D. João (n. 13/01/1400) e D. Fernando, o Infante Santo (n. 29/09/1402), este último quando Philippa já estava com 42 anos de idade. Esta última gestação, aliás, como a primeira gravidez da rainha, começou com preocupações; na época da nova concepção, a rainha encontrava-se bastante doente, fraca e febril. Foi recomendado pelos médicos que um aborto fosse induzido para conservar sua vida, e D. João I até mesmo se dispôs a dar a ela pessoalmente a bebida que interromperia a gravidez. Philippa, contudo, se recusaria, expondo sua fé e confiança na sabedoria de Deus. Meses depois, ela teria um “muy bõo e seguro parto”. Rapidamente, o caçula se tornaria o favorito da mãe.

D. Fernando, caçula de Philippa, conhecido como o Infante Santo
D. Fernando, caçula de Philippa, conhecido como o Infante Santo

Em adição a ser uma das consortes mais importantes da história portuguesa em termos políticos, Philippa também ditaria os termos do comportamento e modelo de vida das rainhas seguintes. Estabelecendo formalmente uma corte bastante religiosa em Portugal, a virtuosa esposa de D. João I preocupava-se, em princípio, apenas com a criação de sua progênie enquanto o rei governava e pacificava as fronteiras. Neste sentido, sua influência política ocorreu apenas de maneira indireta ao intermediar contatos entre seu reino de adoção e a Inglaterra, como no caso já abordado do casamento de D. Beatriz. A morte de João de Gaunt em 1399 em nada alterou a importância dinástica de Philippa, uma vez que pouco depois seu próprio irmão deporia Ricardo II e se tornaria Henrique IV de Inglaterra. Além disso, ela beneficiou a fraca economia portuguesa ao incentivar seu marido e filhos para ir rumo à conquista do importante ponto comercial de Ceuta.

D. Duarte, secundogênito homem de Philippa e sucessor de seu pai no trono de Portugal
D. Duarte, secundogênito homem de Philippa e sucessor de seu pai no trono de Portugal

Pouco antes do embarque, entretanto, a rainha ficou seriamente doente. Era a peste, que desde o início do ano de 1415 atacava em Lisboa e no Porto. Enfraquecida por seus constantes jejuns e vigílias, Philippa foi presa fácil para a moléstia, e em pouco tempo já se encontrava à beira da morte. Para sua própria proteção, D. João I foi afastado dela, mas nada deteve a aproximação dos três infantes mais velhos, que compartilharam dos últimos momentos da mãe; seriam inclusive presenteados por ela com preciosas espadas. Depois, a rainha comungou e recebeu a extrema-unção, morrendo pouco depois com um sorriso nos lábios. Tinha 53 anos. Mesmo em luto, seu marido e seus filhos prosseguiriam com os planos de Philippa e iriam conquistar Ceuta, dando o pontapé inicial naquelas que seriam as Grandes Navegações.

Para saber mais:

COELHO, Maria Helena da Cruz. D. João I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2012.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte III

Apesar de ter herdado de sua mãe a aparência loira e clara tão valorizada nas mulheres no período medieval, a rainha Philippa não era considerada bela ou com particulares encantos. Para piorar a situação, seu marido já tinha uma amante – Inês Pires – há alguns anos, com quem tivera dois filhos sobreviventes, D. Afonso e D. Beatriz.  Mesmo assim, superando os temores da corte, Philippa engravidou rapidamente. Em junho, diante de novo fracasso de sua campanha contra os castelhanos, o duque de Lancaster acertou com João I de Castela um matrimônio entre a jovem Catarina e o mais jovem ainda Henrique, como forma de unir as pretensões ao trono e encerrar definitivamente a guerra entre Castela e Inglaterra. Neste meio tempo, o rei de Portugal caiu gravemente doente durante o percurso até Coimbra. A rainha e o duque foram rapidamente visitá-lo, temendo o pior, uma vez que D. João I até já fizera um testamento. Em meio à tensão, Philippa abortou. Pouco depois, o rei melhorou de forma inesperada, podendo seguir com o resto da comitiva para a cidade de Porto.

Catarina de Lancaster
Catarina de Lancaster

Em provável consequência deste momento difícil, os recém-casados se aproximaram. Pouco depois, D. João I deixaria Inês Pires, que foi rapidamente encaminhada por Philippa para um convento, onde se tornaria futuramente a abadessa, enquanto seus filhos D. Afonso e D. Beatriz passaram a ser criados no paço real. De fato, D. João I não teria mais casos extraconjungais registrados. Não muito depois, Philippa daria à luz a princesa D. Blanche (n. 13/07/1388). Embora o bebê tenha morrido antes mesmo de completar um ano, rapidamente seria seguida por um irmão e herdeiro ao trono, o príncipe D. Afonso (n. 30/07/1389). Três infantes o seguiriam em rápida sucessão: D. Duarte (n. 31/10/1391), D. Pedro (n. 09/12/1392) e D. Henrique (n. 04/03/1494). A linha real portuguesa estava assegurada, mesmo que, assim como a irmã mais velha, o primogênito também falecesse ainda criança, deixando a herança para o irmão D. Duarte. Em 21 de fevereiro de 1397, o nascimento de herdeiros homens seria interrompido temporariamente pelo nascimento da infanta D. Isabel, única filha de Philippa que sobreviveria à infância.

D. Afonso
D. Afonso

Paralelamente à produção daquela que seria conhecida futuramente como a “Ínclita Geração”, a rainha providenciava com o marido os matrimônios da descendência ilegítima daquele.  Em 1401, D. Afonso casou-se com a altamente disputada filha e herdeira do Condestável do rei, D. Beatriz Pereira. Inicialmente, na verdade, o rei tentou um matrimônio entre ela e o herdeiro do trono D. Duarte, mas tal ideia foi recusada por Nuno Álvares Pereira, que não desejava que sua Casa terminasse anexada ao patrimônio real. Assim, as núpcias entre sua herdeira e o filho legitimado do rei acabaram negociadas como alternativa, ocorrendo finalmente em Lisboa na presença do rei e dos grandes nobres do reino. Pouco depois, o próprio D. Afonso acompanharia sua irmã à Inglaterra para o casamento desta com um algo relutante conde de Arundel, aparentado próximo da família real inglesa. Uma década depois, ficando viúva do primeiro marido, ela se casaria novamente com o conde de Huntington, sobrinho da rainha de Portugal por meio de sua irmã Isabel. Mais uma vez, o tratado de Windsor era confirmado por influência direta da esposa inglesa de D. João I.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte II

Em fins da década de 1370, João de Gaunt anunciou sua pretensão ao trono de Castela pelo direito de sua esposa, filha e herdeira do falecido Pedro I, e aliou-se a D. Fernando I de Portugal para guerrear contra o inimigo comum de ambos, o usurpador Henrique de Trastámara. Embora nem a pretensão nem a aliança tivessem os resultados esperados, na década de 1380 o duque de Lancaster viu uma nova oportunidade na crise sucessória portuguesa de 1383-85, onde a filha de D. Fernando I e esposa de João I de Castela, a princesa D. Beatriz, lutava pelos seus direitos sucessórios contra o tio ilegítimo, o Mestre de Avis. Em meio a um anti-castelhanismo crescente entre os portugueses, este seria aclamado em março de 1384 como D. João I de Portugal. No ano seguinte, a estrondosa vitória em Aljubarrota – com participação de tropas inglesas – efetivamente sepultou as chances de D. Beatriz ao trono português, ao mesmo tempo em que fortaleceu a proposta nupcial do duque de Lancaster ao novo rei.

Philippa de Lancaster
Philippa de Lancaster

Naquele momento, D. João I tinha à sua escolha duas donzelas, ambas filhas de João de Gaunt: Philippa e Catarina. Enquanto aparentemente a segunda era melhor opção, considerando-se que era a única filha da legítima herdeira castelhana, a infanta Constança, a escolha recairia sobre Philippa, que já tinha um irmão para assumir a herança de sua mãe; a princípio, isso seria um movimento desvantajoso por parte dos portugueses. Por outro lado, porém, Catarina carregava consigo a promessa e o peso da constante guerra; embora Portugal fosse aliado de Inglaterra contra Castela, o fato é que, após um escaramuçado conflito pela garantia da independência, D. João I preferiu estabilizar o reino com a nova dinastia de Avis. Philippa, então, foi a escolhida.

D. João I de Portugal
D. João I de Portugal

Após a liberação formal de seus votos religiosos pelo papa Bonifácio IX, o rei casou-se com a primogênita de João de Gaunt em 14 de fevereiro de 1387, numa cerimônia algo apressada pelo pai da noiva, uma vez que este queria que eles estivessem oficialmente aliados pelo sangue o mais rápido possível para então guerrear contra Castela; isto seria bastante dificultado se o casamento não ocorresse antes da Quaresma. Após a benção nupcial solene pelo bispo e um grande banquete de comemoração, os recém-casados foram ritualmente postos na cama para a consumação. Os noivos eram notavelmente maduros para a época; enquanto D. João I tinha quase 30, Philippa já alcançara os 27, sendo já vários anos mais velha do que sua mãe quando esta morrera. Muitos na corte portuguesa inclusive temiam que a nova rainha já tivesse passado da idade para conceber.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte I

Nascida em 31 de março de 1360, Philippa de Lancaster foi a primogênita de João de Gaunt, quarto filho homem do rei Eduardo III da Inglaterra e sua rainha Philippa de Hainault, com sua prima de 3º grau e esposa, a grande herdeira Blanche de Lancaster. A princesa era, portanto, descendente por ambos os lados da alta nobreza inglesa, fruto de um luxuoso matrimônio realizado em 1359 sob importantes auspícios políticos; apesar disso, contudo, diferentemente de muitas núpcias aristocratas do período, é dito que o duque e a duquesa de Lancaster tiveram um casamento feliz até a morte de Blanche em setembro de 1369, pouco depois do falecimento da avó e homônima de Philippa. Vítima da peste, a duquesa deixaria para trás um viúvo em profundo luto e três crianças sobreviventes das sete que dera à luz – Philippa, sua irmã Isabel (n. 1364, f. 1426) e o caçula Henrique (n. 1367, f. 1413). Após alguns anos de viuvez, João de Gaunt se casaria pela segunda vez com outra herdeira, a infanta castelhana Constança, com quem teria Catarina (n. 1373, f. 1418).

Blanche de Lancaster
Blanche de Lancaster

Paralelamente, contudo, o duque de Lancaster tinha um caso de longa data com Catarina Swynford, cunhada do famoso poeta Geoffrey Chaucer, com que ele tinha uma forte amizade e a quem encomendaria aquela que seria a primeira obra célebre de Chaucer, O Livro da Duquesa, provavelmente feito em homenagem à mãe de Philippa. O relacionamento extraconjugal de ambos, que começaria ainda durante a viuvez de João de Gaunt, entrando pelo matrimônio deste com Constança e culminando num casamento em 1396 e legitimação dos quatro filhos do casal, provocaria uma profunda vergonha em Philippa, potencializada pelo fato que a amante do pai era também sua governanta. Geoffrey Chaucer também seria um de seus tutores, participando daquela que seria uma educação notável para uma mulher no século XIV; além de bem versada em poesia, filosofia e teologia, Philippa também conhecia os escritores clássicos.

João de Gaunt
João de Gaunt

Como um dos principais comandantes militares ingleses, o duque de Lancaster passou significativa parte da década de 1370 liderando as tropas contra os franceses, naquela série de conflitos entre os dois reinos que futuramente seria conhecida como a Guerra dos Cem Anos. Antes de partir, porém, ele instalou a família no castelo de Tutbury, localizado no condado de Staffordshire. E foi naquele lugar que Philippa amadureceria como mulher e se prepararia para o casamento, inevitável para uma donzela em sua posição; assim, teve lições sobre heráldica e etiqueta de corte, além de conviver com os vários trovadores bancados por sua madrasta Constança. Logo os primeiros pretendentes apareceriam para os filhos de Blanche de Lancaster: enquanto a secundogênita Isabel se casaria com o conde de Huntingdon, o jovem Henrique ficaria prometido à jovem herdeira Maria de Bohun. Philippa, porém, não entrou em nenhum compromisso formal, apesar de conversas neste sentido terem ocorrido com o rei de França e o duque de Luxemburgo. Aparentemente, um destino mais solene fora reservado para ela.

A Crise de 1383-85 – parte IV

Pelos dois anos seguintes, D. João I procurou pacificar o reino e garantir a retomada das terras que haviam se rebelado. Apenas em novembro de 1387 um acordo de paz temporário seria feito entre Castela e Portugal. Pouco depois, João I de Castela faleceu, deixando D. Beatriz viúva e sem filhos. Ela nunca se casaria novamente, embora recebesse várias propostas matrimoniais. Apesar que um novo tratado de paz fosse assinado entre os beligerantes pouco após a ascensão ao trono do filho de João I de Castela com a primeira esposa, Henrique III, o tratado definitivo só apareceria em 1411, mostrando que os castelhanos não desistiriam de sua pretensão a Portugal até pouco tempo antes da morte de D. Beatriz.

Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster. símbolo do tratado anglo-português
Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster. símbolo do tratado anglo-português

Provavelmente tendo plena consciência da ameaça em suas fronteiras, D. João I de Portugal preocupou-se em garantir uma aliança permanente para o reino; e, apesar dos problemas anteriores durante o reinado de D. Fernando I, a Inglaterra era uma candidata natural para isso depois de sua colaboração para a vitória portuguesa na batalha de Aljubarrota. Ratificado em nove de maio de 1386, o tratado de Windsor previa uma série de circunstâncias em seu enunciado nas quais um aliado poderia requisitar ajuda ao outro, focando-se especialmente em questões comerciais, embora sem esquecer a pretensão inglesa ao trono de Castela.

Neste sentido, pode ser considerado natural que a aliança anglo-portuguesa seria selada justamente com as núpcias da primogênita do duque de Lancaster, Philippa, com D. João I de Portugal. A união aconteceria já no ano seguinte à assinatura do tratado.

Para saber mais:

BALEIRAS, Isabel de Pina. Uma rainha inesperada: Leonor Teles. Lisboa: Temas e Debates, 2013.

MACEDO, Newton de. “Aljubarrota”. IN: História de Portugal – de D. João I aos Filipes. Lisboa: Lello & Irmão, 1936.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. “O sentimento nacional (1300-1415)”. IN: História de Portugal: volume I – Estado, Pátria e Nação (1080-1415). Lisboa: Editorial Verbo, 1978.

A Crise de 1383-85 – parte III

A guerra civil portuguesa não apenas dividiu o reino de Portugal, mas também as famílias que nele habitavam. Para ficar apenas em um exemplo mais concreto: o irmão mais velho do condestável do Mestre de Avis, Nuno Álvares Pereira – ironicamente, o antigo escudeiro de D. Leonor – era um dos principais comandantes do lado do rei de Castela. Diferentemente do que se possa imaginar, as classes sociais não se confrontaram, mas sim se dividiram entre ambas as facções ou em nome do ideal patriótico representado pelo Mestre de Avis ou então em nome do direito da herdeira do trono D. Beatriz.

Após ter tido a regência cedida para si, João I de Castela rumou para cercar Lisboa por terra e mar, apenas para ter suas tropas dizimadas pela peste e ser forçado a retirar-se, levando sua rainha doente consigo, no início de setembro. Enquanto o rei gastava forças tentando submeter a capital, Nuno Álvares Pereira avançou pelo Alentejo e venceu em nove de abril a Batalha dos Atoleiros, onde estivera em desvantagem numérica. No mar, os navios portugueses atacavam as costas da Galícia, investindo contra as embarcações castelhanas onde estavam ancoradas. No ano seguinte, o Mestre de Avis superou as pretensões superiores dos infantes D. João e D. Dinis – vistos como excessivamente simpáticos ao monarca de Castela – e foi eleito rei de Portugal nas Cortes de Coimbra, reunidas em março.

Representação da batalha de Aljubarrota
Representação da batalha de Aljubarrota

Pouco depois, o agora D. João I de Portugal partiu para tomar algumas cidades que ainda resistiam. Foi bem-sucedido, mas pouco depois chegou a notícia de nova ofensiva castelhana a norte de Lisboa, que procurava conquistar Lisboa e cortar as linhas de abastecimento portuguesas. Após muitas discussões na reunião do conselho e a hesitação do rei de como proceder, Nuno Álvares Pereira retirou-se impulsivamente e partiu para enfrentar o inimigo na famosa batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385. Novamente em inferioridade numérica, apesar de ter um expressivo auxílio de tropas inglesas, os portugueses atacaram com tanto ímpeto que João I de Castela fugiu às pressas para embarcar de volta para o seu reino. Depois da vitória avassaladora, que ficaria marcada como um dos eventos mais marcantes da história de Portugal, as cidades que ainda se aliavam ao rei castelhano renderam-se.

A Crise de 1383-85 – parte II

O motivo do homicídio do favorito de D. Leonor desperta discussão até hoje. Em sua biografia da rainha (2013), Isabel de Pina Baleiras apresenta as várias justificativas de diversos autores.  Segundo o cronista Fernão Lopes, por exemplo, ao assassinar o amante da rainha, o Mestre de Avis apenas estaria seguindo orientações de um plano que já existia no tempo que seu meio-irmão D. Fernando ainda vivia; neste sentido, de acordo com o historiador José Mattoso, a morte do favorito teria sido uma forma do Mestre mostrar sua fidelidade póstuma ao rei. Por outro lado, segundo os estudiosos Horácio Ferreira Alves e Peter Russel, o grande poder político que o conde de Ourém dispunha em várias cortes europeias o tornava um forte apoio de D. Leonor; ao destruí-lo, a rainha viúva perderia seu principal apoio e liberaria o centro do governo para outras facções, como a dos filhos de Inês de Castro ou, como parecia mais provável diante das circunstâncias, o próprio Mestre de Avis.

Morte de João Fernandes de Andeiro, o conde de Ourém
Morte de João Fernandes de Andeiro, o conde de Ourém

De fato, foi o que ocorreu. Após a morte de Andeiro, a rainha deixou Lisboa e foi para a mais protegida vila de Alenquer, enquanto o Mestre ganhava mais influência nos assuntos governamentais, embora de início considerasse o exílio na Inglaterra para fugir da vingança de D. Leonor. A grande pressão popular e o medo de uma invasão castelhana, contudo, o fizeram ficar em Portugal. Foi nesta época, aproximadamente, que conversas sobre um possível matrimônio entre ele e D. Leonor vieram à tona como forma de gerar uma solução de compromisso entre ambas as partes; para evitar a guerra com Castela, ambos seriam regentes de Portugal até o herdeiro de D. Beatriz chegar à maioridade. Embora o Mestre tenha dado seu consentimento, D. Leonor recusaria a proposta.

Selo com as armas reais combinadas de Castela e Portugal
Selo com as armas reais combinadas de Castela e Portugal

Com o avanço progressivo das tropas castelhanas, consequências drásticas tornaram-se inevitáveis no governo português. Em 16 de dezembro de 1383, D. Leonor foi afastada da regência e o cunhado assumiu seu lugar numa ampla aclamação popular. Humilhada, a rainha viúva pediu ajuda ao genro para restaurar sua honra. Em 12 de janeiro de 1384, João I e D. Beatriz encontraram D. Leonor perto da vila de Santarém. Depois de um encontro emocionado da rainha viúva com a filha, o rei castelhano convenceu a sogra a renunciar oficialmente da regência em seu nome para lhe dar a autoridade necessária para submeter os revoltosos liderados pelo Mestre de Avis. Fragilizada, ela concordou, retirando-se depois para um convento em Castela. Munido do poder necessário, João I mandou fazer selos novos onde as armas de Portugal apareciam entrelaçadas com as de Castela, além de cunhar moedas próprias, que passaram a circular nas cidades que o apoiavam. A guerra civil se consumava.