Leonor Teles de Menezes – parte IV

Por volta de 1377 ou inícios de 1378, D. Fernando sofreu uma misteriosa tentativa de envenenamento. Embora sobrevivesse, sua saúde ficou bastante fragilizada, o que o levou a escrever um testamento. Nele, reiterava seu desejo que sua única filha legítima, D. Beatriz, o sucedesse no trono após sua morte; se ele falecesse antes que a princesa atingisse a maioridade, a rainha D. Leonor deveria ser a tutora e regente até a consumação do casamento de D. Beatriz com o duque de Benavente ou quando ela atingisse 12 anos. Além disso, o rei excluiu da linha sucessória todos os meio-irmãos, filhos de Inês de Castro, já exilados a esta altura; isso mostrava claramente o quão fundo a disputa entre a rainha e os parentes do marido chegara. O único que ainda mantinha razoáveis relações com Leonor era D. João, o Mestre de Avis, que era filho de uma amante de D. Pedro I de Portugal.

O Mestre de Avis
O Mestre de Avis

Neste contexto, pode-se entender o crescente interesse do rei e da rainha em assegurar a posição de sua herdeira ao propor um novo e mais seguro matrimônio para ela: ao invés do duque de Benavente, o filho recém-nascido do rei de Castela. Esta manobra, que aparentemente prejudicava Portugal, veio dos próprios temores de D. Fernando em relação à morte. Ainda com sequelas do atentado contra a sua vida, ele procurava assegurar-se dos interesses sucessórios da única filha, e, neste sentido, um casamento com o herdeiro do trono castelhano era mais vantajoso do que com seu irmão ilegítimo. Evidentemente, a ideia agradava aos castelhanos, e foi aceita. Um casamento do herdeiro de Castela com a herdeira de Portugal, além de legitimar a nascente dinastia, ampliaria consideravelmente as fronteiras daquele reino, afinal. Um novo tratado foi logo assinado, e em inícios de 1380, D. Beatriz ficou formalmente noiva do príncipe castelhano.

Paralelamente, contudo, as amistosas relações não eram tão evidentes quanto pareciam, uma vez que em breve D. Fernando também negociava as núpcias de sua herdeira com o sobrinho do duque de Lancaster para firmar uma aliança contra Castela, cuja coroa João de Gaunt ainda ambicionava. Esta surpreendente duplicidade de Portugal pode ser atribuída tanto ao rancor do rei português contra o usurpador castelhano devido aos territórios que perdera em conflitos anteriores quanto à forte influência do favorito da rainha, o agente inglês João Fernandes de Andeiro, que também seria um suposto amante de D. Leonor. Em junho de 1381, as tropas inglesas desembarcaram em Portugal, juntamente com o irmão do duque de Lancaster, o conde de Cambridge, sua esposa, Isabel de Castela – também filha do assassinado Pedro I – e o prometido de D. Beatriz, o herdeiro Eduardo. Eles seriam recepcionados e hospedados por D. Fernando e D. Leonor, com quem também trocariam ricos presentes. Pouco depois deste auspicioso começo, as tropas combinadas de Inglaterra e França foram novamente à guerra contra Castela.

Leonor Teles de Menezes – parte III

A primeira criança de Leonor e D. Fernando, D. Beatriz, nasceu em 1º de março de 1373 ainda em meio a um movimento contra o recente casamento real. Segundo Fernão Lopes, cronista do período, o reino como um todo ficou indignado com as núpcias do monarca com uma mulher tão pouco adequada, que claramente o tinha enfeitiçado (LOPES, p. 210): devido ao fato do marido anterior dela ainda viver, a união sequer era legítima. Revoltas contra o matrimônio ocorriam até mesmo em Santarém, no lar da infância de Leonor. Por certo tempo, ainda segundo Lopes, ela até mesmo temeu ser abandonada por D. Fernando. O rei, contudo, reafirmou o casamento numa cerimônia pública na cidade do Porto, num mosteiro da Ordem do Hospital chefiado por Álvaro Gonçalves Pereira, homem da família influente na Península Ibérica e vassalo de confiança de D. Fernando. Além disso, Álvaro era parente por afinidade da rainha por meio da tia desta, Guiomar – poucos anos depois, inclusive, D. Leonor tomaria o filho deste, Nuno, como escudeiro. De qualquer forma, o fato que aquela união precisou ser justificada publicamente mostra bem claramente seu grau de fragilidade perante o público.

Mas simplificaríamos demais a questão se colocarmos a culpa da impopularidade do matrimônio de D. Fernando e D. Leonor apenas sobre a última: segundo a interpretação de Maria José Pimenta Ferro (1983, p. 53), a revolta contra o casamento apenas teria sido uma de várias rebeliões populares contra medidas da Coroa geradas pelos gastos bélicos de D. Fernando num contexto internacional de contestações contra a nobreza. Desta forma, embora as núpcias do rei com Leonor Teles de Menezes provavelmente tenham descontentado alguns, por si só não ocasionou mais revolta do que a carestia de vida, os abusos dos grandes senhores ou a corrupção da corte portuguesa durante o reinado de D. Fernando. Apesar disso, porém, é interessante tomar nota da recusa do infante D. Dinis, meio-irmão de D. Fernando, em se curvar perante D. Leonor na cerimônia de beija-mão que se seguiu à cerimônia matrimonial; isto simbolizava claramente a antipatia dos filhos de Inês de Castro em relação à rainha. O confronto entre as duas facções parecia inevitável.

João de Gaunt, duque de Lancaster
João de Gaunt, duque de Lancaster

Em 1371, a curta paz nos reinos ibéricos chegou ao fim quando o nobre inglês João de Gaunt, recém-casado com a filha mais velha sobrevivente de Pedro I de Castela, Constança, reivindicou o trono daquele reino no nome da esposa. Para perseguir tal projeto, o duque de Lancaster necessitava do apoio de alguns vizinhos de Castela. D. Fernando aceitou prontamente a aliança, vendo uma aí uma oportunidade não só de estreitar os laços comerciais e militares entre Portugal e Inglaterra, como também de recuperar alguns territórios capturados por Castela no conflito anterior. Embora esta primeira investida fosse ser um fracasso devido ao atraso dos soldados ingleses, obrigando o rei português a aceitar outro tratado de paz com Castela, pouco tempo depois uma aliança perpétua com a Inglaterra de Eduardo III foi traçada no chamado Tratado de Westminster; este acordo seria o antecessor direto do célebre Tratado de Windsor, assinado poucos anos depois e ainda em vigor nos dias de hoje, constituindo-se na aliança mais antiga ainda em atividade.

Como parte do tratado de paz com Castela, a princesa D. Beatriz, ainda com três anos, foi prometida a um filho bastardo de Henrique II, D. Fradique, duque de Benavente, que mal completara seis anos. Seria apenas o primeiro noivo da herdeira de Portugal. Entretanto, a promessa de matrimônio entre ambos foi ofuscada pelo escândalo da morte da irmã da rainha, Maria, casada há pouco com o meio-irmão do rei, D João. Leonor já se mostrara hostil com ambos após saber do casamento, e boatos registrados pelo cronista Fernão Lopes dão a entender que a rainha, temendo pelo seu futuro após uma doença de seu marido, armou uma trama que levasse o popular infante a assassinar Maria – com quem Leonor há tempos não tinha boas relações – devido ao seu suposto adultério. De fato, após cometer o crime, D. João fugiria para Castela, se reunindo ao irmão D. Dinis, já exilado há alguns anos. Assim, as principais ameaças ao poder de D. Leonor se encontravam anuladas no momento em que a saúde de D. Fernando começava a declinar.

Leonor Teles de Menezes – parte II

Nesta época, D. Pedro I de Portugal já falecera, com seu primogênito o sucedendo no trono com apenas 22 anos de idade. Logo após a sua aclamação, D. Fernando teve que lidar com a crise que ocorria no reino vizinho de Castela: seu primo, Pedro I de Castela, fora aprisionado e assassinado por seu meio-irmão ilegítimo, Henrique de Trastámara, que se declarou rei. Em apoio às pretensões das filhas de seu primo, o monarca português foi à guerra contra o usurpador. Procurando garantir também o apoio do rei de Aragão, D. Fernando comprometeu-se formalmente com a filha deste, a infanta D. Leonor. Em 1370, uma embaixada, liderada por João Afonso Teles, foi enviada à Aragão para entregar ouro de ajuda militar no conflito e presentes para a noiva, além de levá-la para Portugal. Embora bem recebido por Pedro IV de Aragão, o embaixador não conseguiria cumprir seu objetivo; segundo o rei, sua filha não poderia partir sem que a dispensa papal para o matrimônio tivesse sido garantida. O mais provável, porém, é que o monarca não quisesse se comprometer rapidamente com o lado português do conflito, que não estava conseguindo subjugar Castela.

D. Fernando
D. Fernando

De fato, a guerra estava tecnicamente empatada, e quando delegados do papa Gregório XI vieram à Península Ibérica para propor a paz, D. Fernando e Henrique II prontamente a aceitaram. Como parte do acordo de paz de 1371, o rei português teve que abandonar Leonor de Aragão e comprometer-se com a filha do monarca castelhano – outra infanta chamada Leonor. Quando Pedro IV de Aragão soube de tal traição, ordenou que o ouro trazido para uma ajuda que nem se concretizara fosse imediatamente retirado da guarda de um tesoureiro português e colocado no tesouro aragonês. Isso em muito desagradaria D. Fernando, danificando em consequência as relações entre Portugal e Aragão.

A esta altura, a terceira Leonor, sobrinha de João Afonso Teles, estava casada há alguns anos com João Lourenço da Cunha. Sua irmã Maria, porém, já era uma viúva, sendo uma dama de companhia da meia-irmã do rei, D. Beatriz; ocasionalmente Leonor a visitava. Em uma dessas temporadas na corte, a jovem senhora de Pombeiro atraiu a atenção do rei D. Fernando. Provavelmente a atração real foi correspondida, uma vez que Leonor prolongou tanto sua estada na corte portuguesa que seu marido teve que ordenar que ela retornasse. A esta altura, contudo, D. Fernando já estava tão apaixonado que ordenou à Maria que fingisse uma doença para que Leonor pudesse permanecer na corte. Alarmada com a insistência do rei, Maria procurou o auxílio do tio, que, temendo um escândalo que prejudicasse a família Teles de Menezes e as relações de Portugal com Castela, tentou sem sucesso convencer o rei a devolver Leonor para João Lourenço da Cunha. D. Fernando, porém, que talvez nunca tivesse levado realmente a sério o compromisso matrimonial com Castela, estava decidido em seu propósito com Leonor: entre abril e agosto de 1371, um divórcio entre ela e João foi prontamente arranjado. Humilhado, o marido se retirou do reino. Em breve, sua antiga esposa e o rei se casariam numa cerimônia com poucas testemunhas, consumando o relacionamento apenas após a cerimônia. Em pouco tempo, a nova rainha estava grávida.

Leonor Teles de Menezes – parte I

Nascida por volta de 1350 na província portuguesa de Trás-os-Montes, Leonor Teles de Menezes foi a filha caçula de Martim Afonso Teles de Menezes, um descendente ilegítimo do rei D. Sancho I de Portugal, e Aldonça de Vasconcelos. Seu avô materno, João Mendes de Vasconcelos, foi um membro importante da nobreza portuguesa, servindo como alcaide-mor das vilas de Miranda do Corvo e de Estremoz; além disso, ele foi uma das testemunhas convocadas por D. Pedro I de Portugal para jurar seu casamento secreto com Inês de Castro. Seu pai, contudo, após servir por alguns anos a Coroa de Castela, seria o próprio mordomo-mor da rainha D. Maria de Portugal – talvez até mesmo seu amante – durante o conturbado casamento desta com Afonso XI.

D. Maria de Portugal, rainha de Castela
D. Maria de Portugal, rainha de Castela

O serviço de Martim Afonso Teles de Menezes terminaria bruscamente com seu assassinato em inícios de 1356 por homens do filho de sua senhora, o rei Pedro I de Castela, seguindo uma revolta desta. Sua viúva, Aldonça, sozinha agora com três crianças, possivelmente foi viver com eles junto aos tios paternos, João Afonso Teles, outro influente membro da corte portuguesa, e Guiomar Pacheco, em Santarém. Pouco tempo depois, a mãe de Leonor também morreria, deixando Leonor, a irmã Maria e o primogênito João para serem criados por Guiomar, que era uma aparentada por via ilegítima da realeza castelhana. Vendo todas as ligações com as casas reais ibéricas que a família de Leonor desfrutava, portanto, seria algo surpreendente se ela não tivesse convivido por algum tempo com o herdeiro do trono português D. Fernando, conforme defendido por Alberto Armando Martins (2011). Afinal, o príncipe era apenas cinco anos mais velho, e desde jovem pernoitava em Santarém durante as caçadas que tanto apreciava.

Isto não quer dizer, é claro, que qualquer proposta de matrimônio entre ambos estivesse sendo perseguida pelos Teles de Menezes e os Pacheco. Muito embora Leonor fosse consideravelmente bem nascida para os padrões da aristocracia ibérica, que valorizava mesmo as linhas de descendência ilegítimas, isto não significava que ela poderia ser a esposa do futuro rei português. De qualquer forma, seu primeiro marido seria bastante influente: tratava-se de João Lourenço da Cunha, senhor do Pombeiro e vassalo do infante D. João, filho de D. Pedro I e Inês de Castro. Eles teriam dois filhos juntos: uma menina que faleceu ainda na infância e um menino chamado Álvaro.

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte IV

Ao alvorecer do dia 8 de agosto, o duque de Medina Sidónia procurou reorganizar a frota, mas a Invencível Armada já se espalhara em pânico por boa parte da costa francesa, embora as chamas tenham de fato provocado pouco dano físico aos navios. Ao perder sua coesão, a frota espanhola perdera seu principal trunfo perante os ingleses, que daí por diante têm a vantagem definitiva na batalha. Ao decorrer da manhã, eles cercaram os galeões portugueses na altura da cidade francesa de Gravelines, tirando-os pouco a pouco de batalha ao atacá-los simultaneamente com dezenas de navios e centenas de tiros. Todos os navios acabam destruídos, com exceção do galeão São Mateus – cuja tripulação rendeu-se – e do galeão São Felipe – cuja tripulação abandonou o navio antes da captura.

Isabel I de Inglaterra recebendo suas vitoriosas tropas em Tilbury
Isabel I de Inglaterra recebendo suas vitoriosas tropas em Tilbury

Com a perda de sua principal força e com o restante da frota em frangalhos, não restou alternativa para o duque de Medina Sidónia senão ordenar o retorno à Espanha, sendo seguidos de perto pelos ingleses que, contudo, não tinham mais munição para atacá-los. Para evitar possíveis emboscadas no Canal da Mancha, o comandante optou por contornar a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda, retornando pelo Mar do Norte numa viagem relativamente tranquila até 26 de agosto, quando um grande temporal se abateu sobre a fragilizada Armada, dispensando-a novamente. Muitos navios desapareceram, presumivelmente tendo sido afundados durante a tormenta. Os poucos sobreviventes apenas alcançariam novamente a Península Ibérica no início de setembro.

Representação moderna do rei Felipe II de Espanha recebendo a notícia da derrota da Invencível Armada
Representação moderna do rei Felipe II de Espanha recebendo a notícia da derrota da Invencível Armada

A derrota da Invencível Armada marcaria o início da supremacia inglesa na Europa, numa era conhecida como sendo a Era Dourada no período Tudor. Além disso, o lento declínio do império espanhol, que já ameaçava colapsar sobre seu próprio peso, tornou-se irreversível, num processo que começaria mais claramente a partir da morte de Felipe II em 1598 e a ascensão de seu filho Felipe III. Quanto ao recém-anexado Portugal, a perda de centenas de soldados e da parte militarmente mais forte de sua marinha marcou-se como um momento difícil na recém-instaurada União Ibérica. Um ano depois, aproveitando-se da fraqueza espanhola, os ingleses apoiariam uma tentativa de invasão do prior de Crato, mas não conseguiram tomar Lisboa e seriam derrotadas. De qualquer forma, aquele seria o mais forte desafio à dominação filipina desde 1580, o que ajudou a fragilizar o domínio espanhol sobre Portugal desde o início da união de ambos.

Para saber mais:

http://torredahistoriaiberica.blogspot.com.br/2011/01/invencivel-armada-espanhola-1588.html

http://www.areamilitar.net/HISTbcr.aspx?N=102

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/30471/hoje+na+historia+1588++invencivel+armada+espanhola+e+arrasada+pelos+ingleses.shtml

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte III

No dia 31 de julho, ocorreriam os primeiros tiros entre espanhóis e ingleses. Um galeão português, chamado de São João, atrasara-se em relação ao restante da frota e foi atacado por alguns navios ingleses. O São João acabaria sendo socorrido por outro galeão português, o São Mateus, mas não antes que algumas centenas de tiros fossem disparados. No mesmo dia, o navio castelhano San Salvador sofreria uma explosão a bordo que mataria boa parte de sua tripulação e o tornaria vulnerável à captura por parte dos ingleses.

Dois dias depois, ventos inesperados empurrariam a frota espanhola diretamente para cima dos navios ingleses, o que causou uma série de violentos confrontos. Em determinado momento, o galeão português São Martinho se viu sozinho para lutar com vários galeões ingleses. A superioridade da marinha portuguesa nesta batalha é bem evidenciada pelo fato que, sem ajuda, o São Martinho conseguiu evitar que qualquer navio inglês se aproximasse, embora os tiros do adversário tivessem aberto furos no casco.

Representação da batalha do galeão português São Martinho com os navios ingleses
Representação da batalha do galeão português São Martinho contra os navios ingleses

No dia 5 de agosto, a frota espanhola finalmente conseguiu ancorar em Calais enquanto os ingleses, a oeste, reabasteciam-se de pólvora. Lá, o duque de Medina Sidónia foi informado que o duque de Parma só estaria pronto para se juntar a eles duas semanas depois, uma vez que apenas fora informado da aproximação da Armada poucos dias antes. No final do mesmo dia, os ingleses lançaram um ataque com navios incendiários, semeando o terror e a desorganização entre a frota espanhola, que se dispersou. Era o início do fim.

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte II

As forças combinadas do império Habsburgo, entretanto, não eram tão poderosas quanto seu nome poderia sugerir. Além de nove galeões de guerra portugueses e quatro galeaças napolitanas, a maior parte dos navios que compunham a Invencível Armada não passavam de navios mercantes armados às pressas com canhões. De fato, apenas uma fração bastante reduzida das forças navais de Felipe II estava realmente em condições de combate, em contraste notável com a marinha inglesa. O primeiro comandante nomeado da frota seria o notável almirante Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz. Ele iniciaria os preparativos, mas morreria antes do início da invasão, sendo substituído pelo inexperiente Alonso Pérez de Guzmán, o duque de Medina Sidónia. A frota se reuniria no rio Tejo, em Lisboa, de onde partiria para se encontrar com as forças comandadas por Alexandre Farnese, o duque de Parma, em Flandres. No total, seriam quase 50.000 soldados e 130 navios, que se enfrentariam com 197 navios ingleses e quase 16.000 homens.

Alonso Pérez de Guzmán, duque de Medina Sidónia
Alonso Pérez de Guzmán, duque de Medina Sidónia

Embora o planejamento espanhol fosse bem definido, variadas circunstâncias atrasaram a partida da frota. Primeiramente, um vendaval danificou vários navios enquanto a peste se espalhava por parte da frota ancorada em Lisboa. Quando finalmente partiu, um temporal a empurrou até a parte sul do reino. Apenas em inícios de junho foi possível para parte dos navios – já com provisões apodrecidas – chegar às costas da Galícia. No fim do mês, porém, ainda haviam navios fora do porto, que foram dispersos por uma violenta tempestade, que conseguiu até mesmo empurrar um dos galeões portugueses para perto da costa francesa. Tomando conhecimento da série de infortúnios espanhóis, os ingleses posicionaram alguns navios perto da entrada do Canal da Mancha para melhor observar a movimentação deles a partir de então.

Percurso parcial da Invencível Armada
Percurso parcial da Invencível Armada

A frota espanhola finalmente saiu de Galícia no dia 23 de julho, tendo que deixar para trás alguns navios avariados. A costa inglesa foi avistada seis dias depois, sendo devidamente detectada pelos navios espiões, que se dirigiram à Plymouth para avisar da aproximação espanhola e, assim, poder atacá-los; condições desfavoráveis na maré, contudo, não o permitiram, e a frota adversária conseguiu passar sem danos e se agrupar para combate.

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte I

Em 1587, o poderio econômico-militar de Felipe II estava no seu auge. Com as colônias portuguesas absorvidas pela Espanha após sua ascensão neste reino como D. Felipe I, seu império agora era tão grande que um pôr-do-sol jamais o atingia inteiramente; além disso, o rei detinha influência sobre boa parte da Península Itálica e nos Países Baixos. O poder de Felipe II era tão grande que o rei inclusive teve dificuldades para achar noivos apropriados para suas duas filhas, as infantas Isabel e Catarina, frutos do casamento com a falecida princesa francesa Isabel de Valois; ou os potenciais maridos eram já seus vassalos, e uma aliança seria desta forma desperdiçada com um matrimônio, ou eles eram seus dedicados inimigos há muito.

Retrato nupcial do príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, e de Maria I da Inglaterra
Retrato nupcial do príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, e de Maria I da Inglaterra

Entre estes reinos adversários, encontrava-se a Inglaterra. As relações diplomáticas entre este reino e a Espanha eram sabidamente instáveis. No início do século XVI, haviam sido aliadas devido à união matrimonial entre o jovem rei Henrique VIII e a caçula dos Reis Católicos,  Catarina de Aragão. Mais tarde, a proposta de núpcias entre a única filha sobrevivente destes, a princesa Maria, e o monarca de Espanha, Carlos V, fortaleceria os laços políticos entre os reinos. Com a anulação das núpcias de Henrique e Catarina na década de 1530 e a Reforma Anglicana, contudo, Inglaterra e Espanha se distanciaram. Seria apenas com a ascensão da princesa Maria ao trono, já na década de 1550, que eles se reaproximariam com o matrimônio da rainha com o então príncipe Felipe, numa união que não se provaria fértil. A sucessora protestante de Maria, sua meia-irmã Isabel, não se mostraria receptiva aos avanços espanhóis, recusando uma proposta nupcial de seu cunhado recém-enviuvado.

Representação de Isabel I em sua coroação
Representação de Isabel I em sua coroação

A partir de então, as relações entre Espanha e Inglaterra ficariam cada vez mais frias, embora Isabel não concretizasse o principal temor espanhol e se aliasse à França por via matrimonial. Neste contexto de degeneração crescente da diplomacia anglo-espanhola, Felipe II passou a apoiar sub-repticiamente a pretensão ao trono inglês da prima de Isabel, a rainha escocesa Maria, descendente em linha legítima do primeiro rei Tudor, Henrique VII, por meio de sua filha Margarida. Em 1567, Maria foi detida ao fugir para a Inglaterra na sequência de uma revolta dos nobres escoceses, e desde então permaneceu em prisão domiciliar. Então, no contexto europeu da década de 1580 de um catolicismo cada vez mais militante contra a heresia protestante, ela teria planejado o assassinato da prima inglesa que jamais vira em quase vinte anos de prisão. Por isto, seria decapitada no dia 8 de fevereiro de 1587.

Maria, Rainha dos Escoceses
Maria, Rainha dos Escoceses

Quando as notícias da execução da rainha escocesa atravessaram o mar e chegaram à Espanha, Felipe II viu ali uma maneira de deslanchar definitivamente a planejada ofensiva para conter a agressiva expansão comercial inglesa, que já há tempos começava a ameaçar a soberania espanhola com os ataques constantes de seus corsários às possessões ultramarinas do império. Com as forças navais combinadas de Portugal, Espanha e Nápoles, o rei espanhol intencionava derrubar a excomungada rainha Isabel e substituí-la – ao menos nominalmente – no trono inglês, conforme tinha sido a última vontade expressa no testamento da falecida Maria de Escócia.

Um Habsburgo em Portugal: o início do reinado de D. Felipe I e as Cortes de Tomar

Após conquistar definitivamente o reino de Portugal pela força das armas na batalha de Alcântara, Felipe II passou então a procurar garantir juridicamente a nova aquisição ao império Habsburgo enquanto D. Antônio formava um governo de oposição no arquipélago dos Açores. Se, por um lado, o desafio do prior do Crato ao domínio espanhol serviu para sobressaltar o novo regime, juntamente com a oposição silenciosa da Casa de Bragança, por outro lado ambas as hostilidades foram de curta vida. No caso dos Bragança, embora a pretensão da duquesa viúva D. Catarina ao trono continuasse, seu filho D. Teodósio rapidamente se provaria um apoiador fiel da nova dinastia após chegar à maturidade, essencialmente anulando a ameaça brigantina naquela geração. No caso antonino, o reinado do prior do Crato nos Açores duraria poucos anos antes que ele recuasse para o exílio na Inglaterra e França, onde morreria tentando organizar uma nova expedição.

D. Felipe I, rei de Portugal
D. Felipe I, rei de Portugal

Comparado a isso, a vitória jurídica de Felipe II nas Cortes de Tomar pode ser considerada fulminante do ponto de vista da legitimidade dinástica dos Habsburgo. Reunidas em abril de 1581, as Cortes sancionaram o domínio filipino ao aprovar a proposta de governo do novo rei, que consistia em muito em um renascimento do plano manuelino de 1499, quando parecia que o herdeiro do rei português, D. Miguel, também sucederia ao trono de Espanha. De fato, como naquela ocasião, era prevista a presença de um Conselho de Portugal sempre junto ao monarca para tratar exclusivamente dos assuntos daquele reino. Por outro lado, se o rei português tivesse que se afastar fisicamente do reino, seu papel político só poderia ser incarnado por um vice-rei de sangue real ou então por uma junta de governadores portugueses.

Outras instituições da Coroa foram também submetidas a tais regras, que visavam exatamente tornar o governo português exclusivo apenas aos naturais: por exemplo, os cargos e ofícios da justiça e fazenda não poderiam ser preenchidos por estrangeiros, assim como as funções da casa e capela reais. Da mesma forma, o comando militar de tropas e frotas portuguesas tornou-se exclusivo de naturais do reino, e as Cortes, quando convocadas pelo rei, seriam a única forma de representação legítima dos estados do reino. Desta forma, portanto, Felipe II de Espanha dava sua garantia que seus súditos portugueses teriam o monopólio das nomeações em funções e ofícios do aparelho monárquico português (SCHAUB, 2001, p. 21).

D. Diego, príncipe herdeiro de Espanha e Portugal
D. Diego, príncipe herdeiro de Espanha e Portugal

Ao final da reunião dos estados, as Cortes juraram fidelidade ao novo monarca e ao seu herdeiro na época, D. Diego, o que interessantemente não era nem um pouco habitual na tradição portuguesa – D. Manuel I, D. João III e D. Sebastião, por exemplo, não haviam recebido tal tratamento. Nomeado como D. Felipe I de Portugal, o novo rei permaneceria por mais dois anos em Lisboa antes de retornar para a capital espanhola. Em seu lugar, deixaria seu sobrinho Alberto de Áustria como vice-rei.

Inês de Castro – parte III

Aproximadamente na época de seu suposto matrimônio, Pedro e Inês passaram a viver em Coimbra no Paço de Santa Clara, construído pela avó do rei, a Rainha Santa. Enquanto isso, na corte portuguesa, a nobreza pressionava cada vez o rei D. Afonso IV para que afastasse definitivamente aquelas influências galegas e cada vez mais pró-castelhanas da convivência de seu herdeiro. Uma vez que a intransigência da recusa de D. Pedro para afastar-se daquela que ele alegava que era sua esposa legítima era absoluta, o monarca teve que ordenar a morte de Inês. Em 07 de janeiro de 1355, três nobres – Diogo Alves Pacheco, Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves – aproveitaram a ausência do príncipe numa excursão de caça e prenderam Inês, executando-a por decapitação quase imediatamente. Segundo algumas versões da história, o próprio rei estava com eles, e Inês teria tentando comovê-lo ao exibir seu filho mais novo perante seus olhos; desta forma, a criança teria testemunhado a inevitável morte de sua mãe.

Inês (ao fundo) tentando comover o rei D. Afonso IV ao exibir seus filhos diante dele no filme Inês de Portugal (1997). No caso, o filme tomou uma liberdade poética ao envelhecer bastante o segundo, que ainda era um bebê na época da execução da mãe
Inês (ao fundo) tentando comover o rei D. Afonso IV ao exibir seus filhos diante dele no filme Inês de Portugal (1997). No caso, o filme tomou uma liberdade poética ao envelhecer bastante o segundo, que ainda era um bebê na época da execução da mãe

Quando foi informado do acontecido, a consternação de D. Pedro transbordou imediatamente para a revolta contra o pai, e ele começou a assaltar militarmente várias cidades ao norte do reino. Apenas a intervenção de sua mãe, a rainha D. Beatriz, conseguiu reconciliar pai e filho alguns meses depois. De qualquer forma, D. Afonso IV morreria em menos de dois anos, tornando Pedro rei de Portugal. Imediatamente, ele prosseguiu a vingança pelo assassinato de Inês: negociou com o rei de Castela – e seu sobrinho – para que os assassinos de sua esposa fossem devidamente extraditados de volta para Portugal em troca de alguns prisioneiros castelhanos retidos no reino. Apenas Diogo Alves Pacheco conseguiria fugir e, assim, ser poupado do destino dos outros dois: é dito que, enquanto o monarca assistia, ambos tiveram seus corações arrancados pelo carrasco.

Depois, D. Pedro I prosseguiu para legitimar Inês como sua rainha. Além de declarar publicamente o seu matrimônio com a ajuda de algumas duvidosas testemunhas, tornando desta forma seus filhos infantes de Portugal, ele ainda teria desenterrado o caixão da esposa, colocado seu cadáver no trono e ordenado então que os nobres prestassem homenagem à sua soberana. Em algumas versões da história, a obrigação iria tão longe até um beijo na mão apodrecida da rainha.

Aclamação póstuma de Inês de Castro
Aclamação póstuma de Inês de Castro

D. Pedro I reinaria por mais dez anos até sua própria morte em 1367, quando seria sucedido pelo filho que tivera com sua primeira esposa Constança, Fernando. Ele seria enterrado, contudo, junto à Inês. Seus caixões ainda hoje estão no mosteiro de Alcobaça, posicionados de frente um para o outro; assim, o rosto do amante seria a primeira visão que cada um teria quando ressuscitarem no Juízo Final. Teriam ficado, desta forma, juntos até o fim do mundo.