A batalha por Lisboa – parte II

Por fim, na madrugada de 24 de agosto, ambas as forças militares se encontraram perto de um pequeno afluente do rio Tejo, o ribeiro de Alcântara. Ao raiar do dia, a ala italiana do exército espanhol atacou os portugueses, que conseguiram repelir a primeira investida. Pouco depois, porém, a cavalaria investiu e cercou o exército português, ferindo D. Antônio no rosto e na garganta e provocando a debandada de sua tropa rumo a Lisboa. O prior do Crato, então, fugiria para o norte do reino, onde procuraria continuar a lutar; Aveiro, Braga e Porto cairiam, porém, após pouco tempo de assédio espanhol.

D. Catarina, duquesa de Bragança
D. Catarina, duquesa de Bragança

Foragido, D. Antônio se refugia entre seus partidários, muito embora Felipe II oferecesse amplas recompensas a qualquer pessoa que o entregasse. Apenas em maio de 1582 o filho de D. Luís fugiria rumo ao exílio na França, falecendo lá em 1595. O rei espanhol foi oficialmente jurado como soberano de Portugal cerca de um mês antes da fuga do primo pelas Cortes reunidas em Tomar; pouco menos de um ano depois, sua prima D. Catarina, duquesa de Bragança, ficaria viúva. Vendo aí uma oportunidade de unificar ambas as pretensões à Coroa portuguesa, o rei Felipe apressou-se a pedi-la em casamento.

D. Catarina, porém, recusaria, assim como não prosseguiria com qualquer negociação que envolvesse a renúncia de seus direitos ao trono – inclusive uma que previa o matrimônio entre sua filha mais velha e o herdeiro de Espanha, que seria Felipe III após a morte de seu pai em 1598. De fato, o papel político da duquesa de Bragança nos anos seguintes, até sua própria morte em 1614, se limitaria a uma atuação discreta nos bastidores, mesmo que seu filho D. Teodósio provasse ser um vassalo fiel do rei que um dia o mantivera refém.

A batalha por Lisboa – parte I

Os governadores do reino português, ainda receosos demais para proclamar Felipe II como rei, propuseram que o Conselho de Estado o fizesse; este órgão, contudo, desvencilhou-se da oportunidade ao declarar que apenas as Cortes poderiam tomar uma decisão de tal magnitude. No dia 18 de julho, o duque de Alba invadiu o território para apossar-se do reino em nome do seu suserano, o rei de Espanha. Um mês antes, entretanto, D. Antônio já fora aclamado rei por populares na cidade de Santarém. Quatro dias depois, ele entrou oficialmente na cidade de Lisboa, sendo reconhecido como rei pela Câmara da cidade, francamente hostil aos governadores (PERES, 1929, p. 25); estes, aliás, sentindo-se ameaçados,  fugiram da vila próxima de Setúbal e juntaram-se à proteção de Felipe II.  E foi na vila de Castro Marim que, em 17 de julho, eles finalmente reconheceram o rei espanhol como herdeiro do falecido D. Henrique e soberano legítimo de Portugal.

D. Antônio, rei de Portugal
D. Antônio, rei de Portugal

Foi, portanto, numa situação jurídica considerada ilegal que D. Antônio, assim como seu antepassado D. João I, passou parte de seu reinado. A situação do prior do Crato, contudo, era especialmente precária em comparação. Não apenas seu adversário direto pelo trono era um homem maduro e comandava um reino militarmente mais poderoso, mas também o exército português estava em frangalhos após Alcácer-Quibir. Nestas circunstâncias, medidas algo extremas foram tomadas: além de distribuir muitas e variadas mercês para angariar mais apoios, D. Antônio apreendeu a prata das igrejas das cidades que o apoiavam, além dos diamantes da Coroa, alforriou escravos que se dispusessem a lutar e organizou batalhões compostos por frades – tudo isso para conseguir montar um exército capaz de enfrentar as debilitadas forças espanholas que se aproximavam. Ao final, D. Antônio tinha cerca de 9.000 soldados. O exército espanhol, em compensação, tinha pouco mais do que o dobro disso.

D. Felipe I, rei de Portugal
D. Felipe I, rei de Portugal

Subornando a nobreza pelas cidades em que passava, o duque de Alba rapidamente submeteu Extremos, Redondo, Évora-Monte, Arraiolos, Évora e Montemor-o-Novo, muito embora o povo procurasse sabotar seu progresso com incêndios (MACEDO, 1936, pps. 101-102). Negociações de paz entre as duas partes foram feitas, mas estavam destinadas ao fracasso; o mais provável é que D. Antônio procurasse ganhar algum tempo com elas enquanto esperava a resposta de França e Inglaterra ao pedido de auxílio que fizera.

As chamas da guerra – parte II

De qualquer forma, a entrevista de D. Henrique com a sobrinha seria um fracasso do ponto de vista dos interesses sucessórios desta. Lágrimas e afeto seriam tudo o que D. Catarina conseguiria, se despedindo pouco depois do tio sem qualquer mudança aparente na decisão do rei quanto à sua sucessão. Contudo, depois que D. Henrique, último dos filhos sobreviventes de D. Manuel I, faleceu em 31 de janeiro – exatos 68 anos após o seu nascimento – e seu testamento foi aberto, constatou-se que nele nada havia sobre a questão sucessória. Pelo conteúdo de seu testamento, o rei estava mais preocupado com a salvação de sua alma imortal.

Cardeal Rei D. Henrique
Cardeal Rei D. Henrique

Os governadores que assumiram, percebendo-se com os poderes bastante limitados diante da iminente revolta, dissolveram então as Cortes, argumentando que os mandatos dos procuradores teriam expirado após a morte de D. Henrique. Enquanto isso, D. Antônio e o duque de Bragança, nomeado procurado por D. Catarina, não entraram em um acordo quanto ao que poderia ser feito com a invasão espanhola iminente.Paralelamente, Felipe II, que procurava evitar entrar em Portugal com suas tropas reduzidas pela peste, tentou convencer ambos a aceitá-lo como rei mediante suborno, oferecendo várias mercês. Outras potências europeias também teriam entrado na negociação: diplomatas franceses podem ter sugerido o casamento de uma das filhas de D. Catarina com o irmão mais novo de Henrique III como forma de impedir o rei espanhol de tomar posse de Portugal, ao passo que a rainha inglesa Isabel I teria trocado correspondências com D. Catarina e prometido apoio a D. Antônio (COSTA, 1960, pps. 306, 311 e 317; AMEAL, 1958, p. 339).

Todos esses acordos diplomáticos, contudo, previam algum tipo de aliança entre D. Catarina e D. Antônio, que tempos antes já se mostrara inviável. Finalmente, depois de meses de paralisação dos três lados, D. Antônio foi aclamado por populares em Santarém em 19 de junho, sendo recebido poucos dias depois em Lisboa. Em um mês, as tropas espanholas, comandadas pelo duque de Alba, já estariam avançando pelo território português.

Fernando Álvarez de Toledo, o terceiro duque de Alba
Fernando Álvarez de Toledo, o terceiro duque de Alba

As chamas da guerra – parte I

Depois da abertura oficial das Cortes em Almeirim em 11 de janeiro de 1580, o doente e febril D. Henrique foi progressivamente cada vez mais pressionado entre duas facções opostas: aquela que defendia o direito de sucessão de Felipe II, liderados pelos embaixadores espanhóis, e outra que lutava pelo direito do povo português em escolher seu próprio monarca, encabeçada pela Câmara de Lisboa, mais favorável a D. Antônio (POLÓNIA, 2006, pps. 238-239).

D. Henrique
D. Henrique, rei de Portugal

Mesmo antes disso tudo, porém, a candidatura de D. Catarina pareceu recuar enquanto perdia relevância política com a doença de D. Henrique. Apesar disso, a duquesa não cessou de tentar reivindicar a coroa portuguesa. Quando, temendo a guerra civil devido a crescente agitação social, além da possibilidade de legitimação do por ele detestado, mas popular entre o povo comum, D. Antônio pelo papa Gregório XIII após a anulação do julgamento prévio de D. Henrique, o monarca português entrou em acordo secreto com Felipe II e decidiu que este seria o seu sucessor, mesmo sem o apoio das Cortes ou mesmo uma declaração formal. Mediante a recusa da duquesa de Bragança em aceitar a perda de seus direitos após ser informada da resolução do rei, D. Henrique entrou em contato com a sobrinha por meio de um enviado para convencê-la, o doutor Paulo Afonso, que se hospedou por alguns dias em Vila Viçosa. D. Catarina, intransigente, não cedeu aos apelos do eloquente desembargador.

D. Catarina, duquesa de Bragança
D. Catarina, duquesa de Bragança

Pouco mais de um mês depois, porém, a situação se agravaria perceptivelmente; após D. Henrique remeter um recado às Cortes, julgando que um acordo com o rei espanhol seria melhor do que uma resolução por sentença, houve um tumulto generalizado entre os defensores da tese da eleição, em especial dos partidários de D. Antônio, ainda em liberdade no reino português. Um acordo mostrou-se impossível.  Instada pelo marido, D. Catarina apressou-se em visitar o tio moribundo em Almeirim, chegando em 29 de janeiro e causando um sobressalto em Cristovão de Moura, um dos principais agentes de Felipe II, que temeu que poderia haver um levantamento popular em favor da duquesa de Bragança. Tais temores do embaixador se mostrariam, contudo, infundados, muito embora aparentemente o povo tenha saudado D. Catarina como rainha em sua chegada à Almeirim (AMEAL, 1968, p. 338).

Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte IV

Em 1299, o rei nomearia D. Isabel como a principal executora de seu testamento, além de possível regente do Portugal, antes de partir numa campanha contra uma nova revolta de seu irmão mais novo. Nos anos seguintes, contudo, a aliança com Aragão e com o irmão favorito de D. Isabel, o rei Jaime II, perdeu importância com a ascendência cada vez maior da união Portugal-Castela, fazendo cair o capital político da rainha.  Depois, portanto, que o herdeiro D. Afonso se uniu a sua mãe contra a legitimação de seus primos ilegítimos, filhos de seu tio homônimo, D. Dinis virou-se contra a rainha. Logo após, o príncipe e o rei começaram a se chocar politicamente com cada vez maior frequência, com D. Isabel apoiando tão visivelmente o filho que D. Dinis acabou desterrando-a da corte e a destituindo-a de todas as suas rendas.

D. Afonso IV de Portugal
D. Afonso IV de Portugal

Enquanto isso, ressentido pelo favorecimento indevido que o pai dava a um filho ilegítimo, Afonso Sanches, e temeroso que este meio-irmão pudesse ser a escolha de D. Dinis para sucedê-lo no trono, além de estimulado ao confronto por nobres descontentes pela política de controle de poder senhorial exercida por D. Dinis, D. Afonso retirou-se do reino com sua esposa e solicitou publicamente que lhe fosse dado o governo de justiça do reino. O pedido foi negado. Provavelmente vendo nisso uma confirmação de que seria deserdado em benefício do irmão bastardo, D. Afonso iniciou o confronto contra D. Dinis, cercando e conquistando algumas cidades. Em 1323, apenas a intervenção da própria rainha D. Isabel teria impedido um confronto direto entre pai e filho; segundo a lenda, ela teria se posicionado em uma mula em meio aos exércitos das duas partes. Já no ano seguinte, ambos os lados exaustos entrariam em concórdia, e a paz retornaria. A relação entre D. Dinis e D. Isabel, porém, nunca foi mais a mesma. Quando ele morreu em 1325, seria enterrado no convento de São Dinis, em Odivelas. A rainha, simbolicamente, seria enterrada após seu falecimento no convento de Santa Clara, em Coimbra, para onde se retirara em sua viuvez.

Antes disso, contudo, em 1336 ela impediria mais uma vez o derramamento de sangue quando seu filho, ofendido pelos maus-tratos que o genro, o rei Afonso XI de Castela, infringira à sua filha D. Maria, marchou com suas tropas rumo ao reino vizinho. Após cavalgar em encontro a D. Afonso IV, D. Isabel conseguiu convencer o filho a reconsiderar; pouco depois, a doente rainha viúva morreria em sua cama, vítima de uma febre. Após séculos de milagres feitos por sua intervenção terem sido relatados, Isabel de Aragão foi beatificada em 1525. Um século depois, ela viraria oficialmente uma santa da Igreja Católica.

Santa Isabel, Rainha de Portugal
Santa Isabel, Rainha de Portugal

Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte III

Finalmente, em 26 de junho de 1282, na cidade portuguesa de Trancoso, Isabel encontrou o rei com o qual já era casada por procuração há alguns meses. Mesmo tendo apenas 12 anos, ela já era bastante alta para uma mulher medieval; quando adulta, atingiria cerca de 1,75.  Em compensação, D. Dinis, com pouco mais de 20 anos, não tinha sequer 1,70 (CRESPO, 1942, p. 115). Não que isso o tenha impedido de arranjar amantes. Enquanto Isabel de Aragão não atingia a idade adequada para a consumação física, o rei, um homem ruivo com “clara apetência sexual” (PIZARRO, 2005, p. 231) gerava vários filhos bastardos com variadas amantes. Por outro lado, a maioria das infidelidades comprovadas de D. Dinis ocorreu durante o período de extrema juventude da rainha, rareando mais durante o resto do casamento.

Mesmo assim, porém, D. Isabel demorou algum tempo antes de gerar filhos. A partir de 1284, quando atingiu a idade para consumação do matrimônio, até o nascimento da infanta Constança (n. 04/01/1290), que seria a primogênita do casal real, não existe nenhum registro de aborto, natimortos ou crianças que faleceram jovens, nem mesmo por fontes secundárias do período, que costumam ser procuradas por historiadores para fornecer informações dessa espécie. Dessa forma, a conclusão mais aparente é que, por algum motivo, ou D. Dinis evitava a cama da esposa ou, o que parece mais provável ao considerar-se que o casal ainda não gerara herdeiros para Portugal, a própria D. Isabel resistia às relações sexuais com certa frequência. Mas por que isso aconteceria?

Os atores Maruchi Fresno e Antonio Vilar como Isabel de Aragão e D. Dinis no filme Rainha Santa (1947)
Os atores Maruchi Fresno e Antonio Vilar como Isabel de Aragão e D. Dinis no filme Rainha Santa (1947)

Pizarro, em sua biografia de D. Dinis (2005), considera que a dificuldade se deu não por incompatibilidade física entre os cônjuges; a rainha Isabel também não teria dificuldades em engravidar, uma vez que, após o nascimento de Constança, em pouquíssimo tempo ela geraria aquele que seria o infante Afonso (n. 08/02/1291). Depois dele, porém, não se seguiria mais nenhuma criança, embora D. Dinis e D. Isabel ainda fossem ter muitas décadas de casamento. Para o autor citado, deve-se procurar nas diferentes personalidades de ambos o motivo da baixa fertilidade. Enquanto o rei era vigoroso, enérgico e bastante atraído pelo sexo oposto, a rainha era marcadamente devota e pouco afeita aos prazeres físicos, preferindo os jejuns e penitências constantes. Nestas circunstâncias, pode ser presumido que o ardor amoroso de D. Dinis não era correspondido por D. Isabel, que evidentemente, em sua espiritualidade, sentia-se enojada pela promiscuidade dele.  Assim, após ela cumprir seu dever como esposa do rei e gerar um herdeiro para D. Dinis, pode-se entender o motivo que ambos decidiram não compartilhar mais do mesmo leito.

A falta de contato físico frequente não significa, é claro, que a rainha não tenha tido o respeito de D. Dinis. Ambos compartilhavam alguns interesses, como poesia e caridade; além disso, D. Isabel foi uma das rainhas portuguesas mais influentes no plano político, até mesmo por ser o símbolo maior de uma importante aliança com o reino de Aragão. Em 1297, a assinatura do Tratado de Alcañices com Castela representou um importante prestígio para a rainha, inclusive presente no momento das negociações. Além de ter sido acertado o casamento de sua filha D. Constança com o príncipe herdeiro Fernando, as fronteiras entre Portugal e Castela foram estabelecidas – fronteiras, aliás, que até hoje separam Portugal de Espanha. O estabelecimento de uma promessa de matrimônio entre seu filho D. Afonso e a irmã do príncipe Fernando, a infanta Beatriz, pareceram neste sentido um acordo definitivo de paz entre ambos os reinos.

Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte II

Mesmo que fosse de certa maneira inevitável, existiam evidentes vantagens numa aliança Portugal-Aragão. Para o primeiro, uma união entre ambos encurralaria a já hegemônica Castela, permitindo um maior equilíbrio de forças, o que era sempre vantajoso para um território  com independência ainda não totalmente consolidada; para o segundo, um cenário político mais homogêneo na Península Ibérica permitiria a maior consolidação do projeto de domínio do Mediterrâneo. Assim, em breve D. Dinis estava procurando convencer o rei de Aragão em concordar com seu casamento com a infanta mais velha, Isabel, auxiliado por um primo francês, o rei Felipe III.

Representação moderna de Pedro III de Aragão
Representação moderna de Pedro III de Aragão

Em setembro de 1280, já era bastante claro que o matrimônio ocorreria em breve, e em fevereiro do ano seguinte ocorreu a primeira cerimônia por procuração em Barcelona. Quando os emissários aragoneses chegaram à Portugal pouco depois para a segunda cerimônia, contudo, encontraram D. Dinis em confronto com o irmão mais novo, D. Afonso, que se rebelara. Mesmo assim, ocorreu a união por procuração entre a infanta e o rei. A vitória de D. Dinis pouco depois e a fuga de D. Afonso para Sevilha consolidaram a situação.

Agora, a legitimação efetiva do matrimônio apenas dependia da consumação física. Isabel, entretanto, ainda era jovem demais; além disso, a guerra civil em Castela entre o rei Afonso X e seu filho e herdeiro Sancho não permitia uma viagem segura para a jovem rainha de Portugal. Finalmente, em maio ou junho de 1282, a comitiva da infanta iniciou a viagem, com Pedro III despedindo-se emocionado da filha, entre lágrimas de ambos, dizendo (LOPES, 1419, p. 165):

“Filha, Deus, que te chamou para este casamento e Lhe agradou por saíres de minha casa em nome de raynha, Ele te queira guardar neste caminho que não hajas nenhum percalço. Deus, que sempre te amou na terra onde nasceste, acompanhe os teus feitos nessa terra para onde vais, de maneira que estejas sempre a teu prazer e te dê boa ventura com o teu marido.”

Os atores Maruchi Fresno e Antonio Vilar como Isabel de Aragão e D. Dinis no filme Rainha Santa (1947)
Os atores Maruchi Fresno e Antonio Vilar como Isabel de Aragão e D. Dinis no filme Rainha Santa (1947)

Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte I

De todas as rainhas portuguesas, pouquíssimas conseguiram suscitar a mesma admiração que Isabel de Aragão, consorte do rei D. Dinis; nenhuma, porém, conseguiu sequer rivalizar com a veneração popular que esta despertou, coroada quando Isabel foi oficialmente canonizada pelo papa Urbano VIII em 1625. Mas quem era exatamente essa mulher que despertaria tanta devoção?

Isabel de Aragão
Isabel de Aragão

Nascida em data indefinida entre 1269 e 1271, ela era a filha primogênita (terceira criança) de Pedro III de Aragão e Constança de Sicília. Quando Isabel ainda era uma criança, seu pai lutaria pela herança de sua esposa, última herdeira viva de Manfredo, rei de Sicília, após o trágico destino de seus meios-irmãos, presos e cegados após a batalha de Benevento, em 1266. Após a conquista, o reino de Sicília seria anexado ao de Aragão, o que ajudaria Pedro a ser cognominado hoje como O Grande e conhecido como um dos monarcas mais bem-sucedidos da história de Aragão.

Enquanto seu pai lutava batalhas pela herança de sua mãe no outro lado do mar Mediterrâneo, a jovem infanta crescia com mais três irmãos e uma irmã, além de vários meios-irmãos, frutos dos casos extraconjugais paternos. Uma característica, contudo, parece tê-la destacado em meio ao conjunto desde cedo: sua precoce religiosidade. De fato, esta era uma característica comum em sua família, presente por exemplo em sua tia-avó e homônima, Isabel de Hungria, santificada rapidamente após sua morte em 1231.

Quando Isabel tinha quase 10 anos, começou-se a negociar um casamento entre ela e o novo rei de Portugal, D. Dinis. Diferentemente da maioria dos monarcas do período, D. Dinis não foi casado por seu pai e antecessor, D. Afonso III – que não tratou, aliás, do matrimônio de nenhum filho ou filha. Assim sendo, uma das maiores prioridades do rei no começo de seu reinado foi exatamente preencher esta vacância na corte portuguesa. Ironicamente, porém, como aponta Pizarro (2005, p. 74) a liberdade de escolha de D. Dinis foi bastante tolhida desde o começo da empreitada matrimonial: qualquer princesa inglesa ou francesa ou era muito jovem ou já casada, e o Sacro Imperador Romano não tinha interesse em disponibilizar qualquer uma de suas filhas.

D. Dinis, rei de Portugal
D. Dinis, rei de Portugal

A escolha, portanto, acabou por se reduzir às infantas da Península Ibérica. A rainha de Navarra, Joana I, já era casada, e as filhas de Afonso X de Castela eram, em questão de parentesco, perigosamente  próximas do rei português, o que poderia prejudicar a validade de um possível matrimônio. Nestas circunstâncias, D. Dinis voltou-se para Aragão. Neste reino, existiam duas infantas – Isabel e sua irmã mais nova, Violante – que eram afastadas o suficiente para um casamento seguro. Além disso, a infanta mais velha encontrava-se próxima de atingir a idade mínima para o casamento.

As filhas do Venturoso – parte III

Conhecida como ”A Sempre-Noiva” por seus vários projetos de casamento frustrados, D. Maria foi a única filha sobrevivente do terceiro casamento de D. Manuel I de Portugal com Eleanor de Áustria. Nascida em 1521, a infanta ficou órfã de pai com menos de um ano de vida. Curiosamente, Eleanor fora em princípio destinada ao herdeiro de D. Manuel I, o príncipe João. Porém, em virtude das relações pouco amistosas entre pai e filho, da viuvez repentina do rei e da atração do monarca português pela atraente noiva de seu herdeiro, que tinha praticamente a mesma idade das infantas, ela acabaria se casando com o rei, com quem teria o infante D. Carlos (n. 1520, f. 1521) e a infanta D. Maria.

Leonor de Áustria, Rainha de Portugal
Leonor de Áustria, Rainha de Portugal

Após a morte do rei e subida ao trono de D. João III, houve rumores que ele se casaria com sua madrasta, por quem seria loucamente apaixonado. Houve até mesmo boatos que a rainha viúva de Portugal já estaria grávida dele. Apesar disso, Eleanor retornaria em 1523 para a Espanha, sendo impedida, contudo, de levar D. Maria consigo pelo próprio rei, que a essa altura já assumira o papel de pai efetivo da irmã caçula, quase vinte anos mais nova do que ele. Por um lado, havia um claro componente afetivo nesta recusa, que seria agravado com o passar dos anos e a morte da maioria dos filhos de D. João III com a irmã mais nova de Eleonor, Catarina de Áustria. Em 1530, Eleanor realizaria um novo matrimônio com o rei da França, Francisco I, e tentaria novamente trazer a filha para junto de si, principalmente depois que ficou viúva pela segunda vez em 1547. O rei português recusaria todos os pedidos.

Por trás desta compreensível negação do ponto de vista sentimental, porém, escondem-se interesses de Estado. Como a única filha sobrevivente de D. Manuel I e Eleonor de Áustria, D. Maria tinha direito a uma considerável herança, proporcional ao dote que sua mãe trouxera para Portugal em 1518. Não era interessante para o reino, do ponto de vista financeiro, que parte de seus recursos fosses esvaído pela saída da bela herdeira, tanto por vontade própria quanto por via de uma negociação matrimonial.

D. Maria, duquesa de Viseu
D. Maria, duquesa de Viseu

Desse ponto de vista, podemos entender melhor porque, diferentemente de suas meias-irmãs D. Isabel e D. Beatriz, D. Maria teve uma série de noivados cancelados, muito embora questões políticas externas também tenham desempenhado seu papel na questão: por exemplo, em 1537, depois de D. João III ter rejeitado alguns pretendentes franceses à mão da irmã, D. Maria foi brevemente considerada para ser a quarta esposa do rei inglês Henrique VIII, recém-enviuvado de sua terceira consorte, Joana Seymour, que morrera pouco depois do nascimento do único filho homem sobrevivente do rei, o príncipe Eduardo. Rapidamente, porém, os ingleses ficaram mais interessados na rica prima de D. Maria, Cristina, que além de ser uma bela herdeira, também era a filha do rei deposto de Dinamarca, podendo eventualmente herdar este reino. No final, por interferência de Carlos V, tio de ambas, que tinha uma oposição pessoal ao monarca inglês, nenhum dos casamentos seria realizado; Henrique VIII acabaria se casando com a alemã Ana de Cleves.

Cristina de Dinamarca
Cristina de Dinamarca

Outra união frustrada seria com seu primo, o príncipe espanhol Felipe. Depois que este enviuvou da homônima de D. Maria, filha de D. João III, em 1545, houveram longas negociações para um segundo matrimônio com a dinastia de Avis, materialmente muito vantajoso para os Habsburgo (COSTA, 1958, p. 82). Finalmente, em 1553, D. João III cedeu e emissários espanhóis chegaram a ser enviados para levar a valiosa infanta, já chamada oficialmente de princesa de Castela. Mais uma vez, porém, os planos seriam alterados: poucos meses mais tarde, com a morte do rei inglês Eduardo VI e a sucessão de Maria I, tornou-se mais interessante um casamento de Felipe com esta prima inglesa. A culta infanta portuguesa, que, como outras damas da época renascentista, recebeu ampla educação doméstica e livresca (SANTOS, 2007, p. 21), foi novamente abandonada.

Depois disso, apesar de outras possibilidades de núpcias terem surgido, como um casamento com o enviuvado Sacro Imperador Romano, Fernando I, ou uma união com o duque de Saboia, D. Maria pessoalmente as rejeitou, temendo que tivessem o mesmo fim dos projetos matrimoniais anteriores (BRAGA, 2002, p. 78). Em 1558, depois da morte do irmão mais velho, D. Maria saiu de Portugal para encontrar-se com sua mãe Eleanor de Áustria, pela primeira vez em quase 30 anos. Após algumas semanas juntas, cada uma retornou ao seu reino de origem; ainda no caminho de volta, Eleanor faleceria.

D. Maria passou o restante dos seus dias administrando o ducado de Viseu e agindo como protetora de artistas e escritores, tendo sido supostamente a musa inspiradora de Luís de Camões, autor do poema épico As Lusíadas (PINTO, 1996, p. 152). Durante o período tumultuoso da menoridade do jovem D. Sebastião, foi defendido por uma facção da nobreza portuguesa que ela substituísse sua cunhada D. Catarina como regente, mas estes planos acabaram por não resultar em nada (BUESCU, 2007, p. 347). Ainda donzela, D. Maria morreria apenas em 1577.

As filhas do Venturoso – parte II

Ainda antes do casamento de sua irmã mais velha Isabel, já estava sendo negociado um matrimônio para a segunda filha do Venturoso, Beatriz. Nascida em 31 de dezembro de 1504, ela foi batizada em homenagem à sua avó paterna, a duquesa de Viseu. Não poderia, é claro, ser planejado para ela uma união do mesma estirpe da primogênita, embora o casamento arranjado devesse ser de acordo com a sua posição como filha do rei: de fato, em 1521, ela partiu de Portugal para suas núpcias com o líder do cambaleante ducado de Saboia, Carlos.

Carlos, duque de Saboia
Carlos, duque de Saboia

A própria demora de casamento por parte do duque já demonstrava a frágil posição do ducado. Carlos sucedera à posição depois de uma série de mortes inesperadas na família cerca de 17 anos antes; Saboia, porém, já não era propriamente um ducado influente na complicada política italiana, e a ascendência crescente de Carlos V nas questões locais, assim como suas disputas com o rei de França, apenas o prejudicaram. É nesta conjuntura que deve ser analisada a sua proposta de casamento para a prima do imperador. Portugal, que por razões práticas mantinha uma boa relação com os ducados italianos, aceitou a proposta. O rei, D. Manuel I, inclusive ofereceu um baile a bordo do navio que levaria à secundogênita para seu novo lar.

Beatriz de Portugal, duquesa de Saboia
Beatriz de Portugal, duquesa de Saboia

Assim como sua irmã Isabel, Beatriz também era reconhecidamente bela e gentil, como se pode ver na descrição da recepção que daria à sua parenta Cristina, que se hospedara do ducado de Saboia em caminho para se encontrar com seu futuro marido, o duque de Milão (CARTWRIGHT, 1913, pps. 81-82), além de politicamente sagaz, embora seus esforços, ao contrários dos de Isabel, em grande parte fracassarem. Em 1531, ela receberia o comando do condado de Asti pelas mãos do próprio imperador, seu primo Carlos V. Após sua morte, as terras seriam incluídas nos domínios dos duques de Saboia, o que impediria que o título se tornasse uma honra vazia quando, em 1536, depois de desastrosos confrontos contra os suíços e os franceses nas Guerras Italianas, seu marido perdeu virtualmente todos os territórios detidos pelo ducado de Saboia.  No exílio, ela reencontrou a enviuvada Cristina, com quem tentara no ano anterior casar seu herdeiro – a morte da criança, porém, tornaria tais esforços nulos.

De qualquer forma, elas formariam uma grande amizade naqueles tempos difíceis para ambas. Enquanto Cristina enfrentava a viuvez e a disputa generalizada na Europa por sua mão, Beatriz sofria com o exílio e morte sucessiva de seus filhos. Ela e Carlos haviam tido já oito filhos, mas a maioria morrera ainda no início da infância – Adriano (n. 1522, f. 1523), Maria (n. 1530, f. 1531), Isabel (n. 1532, f. 1533) e dois meninos sem nome conhecido, nascidos e falecidos em 1533 e 1534 – e a maioria dos sobreviventes – o já mencionado Luís (n. 1523, f. 1536) e Catarina (n. 1529, f. 1536) – haviam falecido no mesmo ano da perda dos territórios de Saboia. Com a morte de um último menino, chamado João ou Giovanni (n. 1537, f. 1538) a herança suspensa de Saboia recaíra somente sobre o último filho sobrevivente, Manuel (n. 1528), que sobreviveria para recuperar os territórios perdidos para França e se candidatar, embora sem sucesso, à herança do reino de seu avô na crise sucessória portuguesa de 1580.

Manuel, único filho sobrevivente de Beatriz e duque de Saboia
Manuel, duque de Saboia, único filho sobrevivente de Beatriz

Beatriz, porém, não viveu para testemunhar estes eventos. Após uma entrevista frustrada com Carlos V, ela reencontrou-se com o marido na cidade de Nice, uma das poucas possessões que ainda restavam a ele. Foi lá que ela morreu em janeiro de 1538, cerca de um mês após seu último parto, de autoproclamado coração partido por todas as suas perdas.