A vida e candidatura de Catarina de Médicis ao trono português – parte III

A candidatura da rainha francesa foi, contudo, amplamente rejeitada, embora seja citada nos pareceres de outros candidatos, como por exemplo no da duquesa de Bragança, homônima de Catarina. Segundo as Allegações de Direito, principal obra de sustentação da defesa da pretensão da duquesa ao trono de Portugal, mesmo que a rainha Catarina fosse de fato a descendente do matrimônio citado – o que ela não prova conclusivamente -, seu parentesco com D. Manuel I de Portugal era distante demais para que pudesse ser considerada seriamente como candidata ao trono (1580, pps. 187-188).

A rainha Catarina após a sua viuvez
A rainha Catarina após a sua viuvez

De qualquer forma, supondo que Catarina de Médicis fosse realmente descendente de D. Afonso III por meio de um suposto filho gerado com Matilda, condessa de Bolonha, esta criança não teria direito à sucessão portuguesa, uma vez que nascera antes de seu pai se tornar rei. Mesmo que a união de seus pais não tivesse sido anulada para que o rei português pudesse se casar com Beatriz de Castela, o fato deste suposto filho não ter perseguido em vida seu direito de sucessão o tornaria de efeito nulo para seus descendentes. A sucessão legítima de Portugal, portanto, recaiu sobre os descendentes de D. Dinis, filho mais velho sobrevivente do segundo casamento de D. Afonso III – de onde descendem todos os demais candidatos à sucessão (1580, pps. 199-200). Dessa forma, é concluído pelos autores das Allegações de Direito que Catarina de Médicis “não te direito, nem auçam algua, em que fe poffa fundar” seu direito ao trono português.

De fato, hoje é conhecido que Catarina de Médicis descendia, na verdade, da prima de Matilda, Adelaide de Brabant, que herdou o condado de Bolonha após a morte de Matilda em 1258, sendo sucedida por sua vez por seu filho Roberto. Três séculos depois, a linhagem terminaria em Catarina de Médicis, que por seu casamento com o príncipe Henrique anexaria Bolonha à coroa francesa. Então, depois da morte de todos os seus descendentes homens, o reino de França passaria para o seu genro, que subiu ao trono francês em 1589, inaugurando a dinastia real dos Bourbon. Pouco antes, porém, a própria Catarina morreria, provavelmente de pleurisia, deixando como legado uma fama nada honrosa de uma mulher amarga e manipuladora. Mas, segundo seu próprio genro, o rei de Navarra, que segundo alguns boatos ela tentara envenenar (BRÂNTOME, 1666, p. 88):

“Eu pergunto, o que uma mulher poderia fazer, deixada após a morte do marido com cinco pequenas crianças em seus braços, e duas famílias da França que estavam pensando em usurpar a coroa – nós mesmos (os Bourbons) e os Guises? Ela não estaria disposta a interpretar estranhos papéis para enganar primeiro um e depois o outro, a fim de proteger, como fez, seus filhos, que reinaram sucessivamente sobre o sábio exemplo desta mulher sagaz? Estou surpreso que ela nunca agiu pior.”

Virna Lisi como Catarina de Médicis no filme A Rainha Margot (1994)
Virna Lisi como Catarina de Médicis no filme A Rainha Margot (1994)

A vida e candidatura de Catarina de Médicis ao trono português – parte II

Depois da noite de núpcias, Henrique não voltou a prestar muita atenção à esposa, uma vez que, apesar da pouca idade, já tinha variadas amantes, como a famosa Diana de Poitiers, uma dama cerca de 20 anos mais velha que detinha grande influência sobre o príncipe. Parenta distante de Catarina, Diana foi a responsável por garantir que Henrique não repudiasse a esposa pouco ameaçadora politicamente, mesmo depois que o falecimento de Clemente VII e a recusa de seu sucessor, Paulo III, em pagar o dote de Catarina tenha estremecido a aliança entre aquele reino e Roma. Em 1536, após a morte de seu irmão mais velho, Henrique tornou-se o herdeiro do trono. Como Catarina ainda não tinha filhos, a pressão da corte para anular o casamento cresceu consideravelmente.

Henrique II de França
Henrique II de França

Mais uma vez, a principal amante real interviu. Além de ensinar truques à Catarina para engravidar, garantiu que Henrique cumprisse seus deveres conjugais ao atiçá-lo sexualmente por algum tempo quando ele a visitava em seus aposentos, apenas para depois expulsá-lo para o quarto da esposa, localizado no andar de cima. Isso, e mais a orientação dos médicos, deram resultado: em 19 de janeiro de 1544, Catarina deu à luz um menino, batizado em homenagem ao rei Francisco. A anulação do casamento não ocorreria, e mais nove crianças se seguiriam. Após a morte de seu sogro em 1547, Catarina se tornaria rainha de França.

A maioria de seus filhos e filhas, contudo, era doente e não sobreviveu por muito tempo depois de atingir a idade adulta. Em 1559, após o falecimento de seu marido num insólito acidente de justa – depois do qual Catarina devidamente expulsou a antiga favorita Diana da corte – o primogênito deles subiu ao trono com a regência da mãe, sob uma atmosfera de crescente tensão religiosa no reino, mas morreria em pouco tempo. O segundo filho, durante o reino do qual ocorreria o Massacre de São Bartolomeu (por influência da rainha viúva, que procurava tirar Carlos IX da influência de seus adversários políticos, os Guise), também faleceria sem deixar descendentes. O terceiro filho também morreria sem deixar herdeiros, abrindo espaço para que um parente distante, o rei de Navarra, casado com a princesa Margarida, única das filhas de Catarina a ter sua própria saúde robusta, herdasse o trono francês. Ainda antes disso, porém, Catarina se candidataria à sucessão do trono português.

A base de sua pretensão era sua suposta descendência do primeiro casamento do quinto rei português, D. Afonso III, com Matilda, condessa de Bolonha; ela teria, portanto, precedência sobre todos os demais candidatos, como seu antigo genro Felipe II de Espanha. A prova que sua candidatura foi realmente séria é a quantidade de material jurídico disponível hoje sobre a questão; a exemplo dos outros pretendentes ao trono de Portugal, Catarina mandou preparar diversos pareceres jurídicos que supostamente provavam seu direito de se tornar rainha portuguesa por direito próprio (SERRÃO, 1960, pps. 81 e 82).

Primeira página da "Declaration du droit de legitime succession", um dos pareceres jurídicos feitos para a rainha Catarina em sua disputa pelo reino português
Primeira página da “Declaration du droit de legitime succession”, um dos pareceres jurídicos feitos para a rainha Catarina em sua disputa pelo reino português

A vida e candidatura de Catarina de Médicis ao trono português – parte I

Um dos detalhes mais desconhecidos e estapafúrdios da história portuguesa é a candidatura da rainha francesa Catarina de Médicis ao trono português durante a crise sucessória de 1580. Esposa do falecido Henrique II e mãe dos reis Francisco II, Carlos IX e Henrique III, além da célebre Margarida, rainha de Navarra, a nobre de origem florentina defendeu seus direitos por certo tempo no caos político-jurídico que se seguiu à morte do rei Sebastião em Alcácer-Quibir. Mas quem era ela realmente?

A rainha Catarina (c. 1555)
A rainha Catarina (c. 1555)

Nascida em 13 de abril de 1519, ela era filha de Lourenço de Médicis, duque de Urbino e líder de facto de Florença, e Madalena de La Tour d’ Auvergne, segunda filha de João, conde de Auvergne e Bolonha. Era, portanto, descendente de uma das famílias mais antigas de França, embora suas fortunas já estivessem decaindo há algumas gerações. O casamento entre Lourenço e Madalena foi o resultado final de um pacto entre o rei francês Francisco I e o papa Leão X, posteriormente conhecida como Concordata de Bolonha (ALMEIDA, 2010, p. 27). Enquanto Francisco I se comprometeu a realçar a autoridade da Igreja no reino francês, voltando a entregar à autoridade romana as anatas das igrejas de França (tributo referente a um ano de rendimento), o papa concordava em apoiar a pretensão do rei ao trono de Nápoles.

Para selar o pacto, foi arranjado um casamento, como em muitas manobras políticas entre a nobreza, que foi prontamente aceito pelas partes envolvidas; o extremamente rico, mas ainda plebeu Lourenço, sobrinho de Leão X, foi honrado pela ligação com a realeza francesa (SOMERVILL, 2006, pps. 18-19) e a jovem Madalena e sua família, parentes distantes de Francisco I, foram beneficiados por uma ligação íntima com o próprio papa (KENT, 2004, p. 68).Os dois foram casados em 5 de maio de 1518 numa cerimônia luxuosa, como próprio do estatuto dos nubentes. Pouco mais de um ano depois, Madalena daria à luz a primeira filha do casal; de acordo com uma fonte contemporânea citada por Frieda, autora de uma biografia sobre Catarina de Médicis, seus pais ficaram “satisfeitos como se tivesse nascido um menino” (2006, p. 14). Em pouco tempo, contudo, a tragédia atacaria: em 28 de abril, a mãe morreria ou por complicações no parto ou pela praga que atacava a cidade naquele momento. Poucos dias depois, em 4 de maio, o pai também faleceria, vítima da sífilis.

Orfã, a menina herdou uma fortuna vastíssima, aumentada ainda mais poucos anos depois, quando sua tia por parte de mãe, que fora a herdeira do conde de Auvergne e Bolonha, morreu sem herdeiros direitos, o que tornou Catarina a nova condessa. Isso chamou a atenção do suserano destes condados, o rei Francisco I, que passou a insistir que Catarina fosse criada na corte francesa, provavelmente já com a intenção de casá-la com um de seus filhos e, assim, absorver a imensa fortuna da cobiçada herdeira. O tio-avô de Catarina, porém, planejava casá-la com seu sobrinho Hipólito, embora tenha morrido antes de atingir o intento. Em 1523, outro parente tornou-se papa com o nome de Clemente VII e, após superar uma grande revolta ao domínio dos Médicis em Florença, ocorrida entre 1527 e 1530 (KNECHT, 1998, p. 12), começou a negociar o matrimônio de Catarina. Após descartar uma verdadeira fila de pretendentes, como o rei escocês James V, Clemente concordou com o casamento de Catarina com o secundogênito de Francisco I, o príncipe Henrique. Os dois se uniram em 28 de outubro de 1533 numa extravagante festa na cidade francesa de Marselha. Ainda não tinham completado 15 anos de idade. Quando Catarina e Henrique se retiraram para o quarto para consumar o casamento, é dito que o próprio rei testemunhou a primeira noite do casal (KNECHT, 1998, p. 16), possivelmente para diminuir as chances de que o matrimônio pudesse ser anulado.

Matilda, condessa de Bolonha – parte II

Ambicioso, o novo conde rapidamente ganhou prestígio na corte francesa, tanto por seus feitos militares quanto pela proteção do casal real. Em 1242, tentou voltar à Península Ibérica pela primeira vez em anos para combater os mouros, numa proposta de Cruzada louvada pelo papa Inocêncio IV, mas a crise política em seu reino de origem interrompeu tais planos. Em 1245, com o matrimônio do rei com a infame Mécia Lopes de Haro, a crise no reino português chegou a seu auge. Clero, nobreza e burguesia se uniram contra D. Sancho II e requisitaram a intervenção do papa, que nomeou o já conhecido conde de Bolonha como rei por direito ao decretar a deposição de D. Sancho II; ao mesmo tempo, Inocêncio IV contou com informações privilegiadas de D. Afonso para poder anular o casamento do rei com Mécia e, assim, acabar por uma potencialmente perigosa aliança entre Portugal e Castela devido ao parentesco da rainha com o soberano daquele reino. O sequestro de Mécia por aliados do conde depôs efetivamente D. Sancho II, que abdicou e fugiu. Seu irmão mais novo voltou ao reino e intitulou-se Protetor do Reino até a morte do primogênito dois anos depois, quando o conde pode ser aclamado como D. Afonso III de Portugal.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Enquanto isso, a desprezada condessa continuava em Bolonha, nunca tendo a permissão para viajar até o reino onde seu marido era agora o monarca, muito provavelmente devido ao fato que a união se provara estéril (SERRÃO, 1978, p. 139). Por essa razão, muitos historiadores não consideram Matilda como rainha de Portugal (VENTURA, 2006, p. 201). Em 1253, com a primeira esposa ainda viva, D. Afonso III se casou novamente com Beatriz, filha ilegítima do rei Afonso X de Castela. A furiosa esposa queixou-se ao novo papa, Alexandre IV, que colocou Portugal novamente sobre interdito até que o rei comparecesse à uma audiência em Roma para julgar o pedido de divórcio.

Em 1258, porém, Matilda morreria sem que a ação tivesse sido julgada. Como seus dois filhos tinham falecido antes dela, o condado foi herdado por sua prima Adelaide de Brabant, que foi sucedida por sua vez por seu filho. Roberto. A linhagem continuaria até o século XVI, quando terminaria em Catarina de Médicis. De forma um tanto estapafúrdia, a futura rainha de França tentaria herdar o trono de Portugal na crise sucessória de 1580, alegando exatamente ser a descendente do suposto filho de Matilda e D. Afonso III.

Matilda, condessa de Bolonha – parte I

Nascida aproximadamente em 1202, Matilda, condessa de Bolonha, foi a única filha fruto do controverso casamento de Ida, condessa de Bolonha, e Renaud, conde de Dammartin. Filha primogênita de Maria, condessa de Bolonha, e Mateus de Alsácia, a própria Ida nascera depois que sua mãe, uma freira, foi sequestrada por seu pai e forçada ao matrimônio. Compreensivelmente, a união acabara anulada, mas Ida continuou como a herdeira de seu pai, que continuou a comandar Bolonha depois que Maria retornou ao convento após dar à luz a sua segunda filha.

Quando Ida tinha cerca de 13 anos, seu pai morreu e ela o sucedeu no condado. Sobre a proteção de seu tio Felipe, conde de Flandres, ela não foi obrigada a se casar ainda em juventude extrema, como era comum no caso de tantas grandes herdeiras da época. Apenas em 1181, já com 20 anos, ela contrairia núpcias com Geraldo de Guelders, mas ficaria viúva em poucos meses. No ano seguinte, ela voltou a se casar com Berthold, duque de Zahringen, mas ele também morreria em pouco tempo. Depois de alguns anos de viuvez, ela, a exemplo de sua mãe, foi sequestrada e forçosamente casada com o conde de Dammartin, mesmo tendo sido cortejada na época por Arnaldo de Guînes. Com esse casamento, Bolonha saiu da esfera de influência de Flandres e tornava-se vassala do reino de França.

Matilda, condessa de Bolonha
Matilda, condessa de Bolonha

Ida morreria em 1216, sendo sucedida por Matilda no comando do condado. Novamente, seu matrimônio foi adiado pelo pai, o conde Renaud, ansioso por manter certa influência em Bolonha. Somente alguns anos depois a jovem condessa se casaria com um filho legitimado do rei francês, Felipe, conde de Clermont-en-Beauvois. Juntos, eles produziriam uma filha e um filho sobreviventes antes da morte de Felipe em 1234, talvez assassinado por sua esposa, que a esta altura teria se apaixonado por Florent de Hainaut (VENTURA, 2006, p. 56).  De qualquer forma, estes novos planos matrimoniais não deram em nada.

Com cerca de 33 anos, Matilda era agora uma viúva madura e consideravelmente bela para a idade, com uma fortuna considerável para escolher o marido que desejasse. Em maio de 1238, após negociações com a rainha de França, Branca de Castela, Matilda casou-se com o sobrinho desta, D. Afonso de Portugal, que era o segundo filho do rei D. Afonso II e Urraca de Castela. Como secundogênito, D. Afonso saíra em desvantagem na partilha da herança paterna em relação a seu irmão mais velho, o novo rei D. Sancho II, e concordou com a rica união com a condessa 10 anos mais velha, que em pouco tempo, contudo, se provaria sem amor.

Mecia Lopes de Haro – parte III

A nova rainha foi rapidamente rejeitada pela alta nobreza, que alegava que o rei fora enfeitiçado para se matrimoniar com ela. Ao mesmo tempo, o clero português também se opunha ao casamento, argumentando que a falta de filhos era um sinal que Deus não via a união favoravelmente (ZIERER, 2003, p. 164) até mesmo porque uma dispensa adequada não fora procurada antes do matrimônio. Enquanto isso, a falta de intervenção real nos confrontos entre o clero e os mercadores acirrava os ânimos e tornara a situação ainda mais difícil do ponto de vista político. Por fim, por pressão do clero português, o papa Inocêncio IV declarou o rei deposto por meio de uma bula, indicando que seu irmão mais novo, D. Afonso, deveria tomar o seu direito em Portugal por meio de armas. Quase ao mesmo tempo, ele também declarou nulo o matrimônio entre D. Sancho II e a impopular Mécia devido ao parentesco próximo entre ambos. Este foi o fim simbólico do reinado do quarto rei de Portugal.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Foi quando a rainha foi sequestrada no palácio de Coimbra, sendo retirada dos aposentos conjugais por aliados de D. Afonso e levada para o palácio de Vila Nova de Ourém, talvez até mesmo tendo partido por livre vontade após ter tido prometidas algumas vantagens por parte do infante, com quem pode ter se aliado (SERRÃO, 1978, p. 131). O fato que ela estava ausente do testamento de D. Sancho II indica que esta hipótese pode ser verdadeira, ou pelo menos o rei pensava que assim o era. De qualquer forma, ele não conseguiria recuperá-la. Para escapar da humilhação, abdicou e fugiu para Castela, onde morreria poucos anos depois.

A antiga rainha viveu o resto de sua vida no palácio para onde fora levada, embora também tivesse terras e propriedades em outras partes do reino português (FERNANDES, 2006, p. 267). Morreu por volta de 1270. Como seu casamento com D. Sancho II foi anulado, existem historiadores que não a incluem na lista de rainhas de Portugal.

Mécia Lopes de Haro – parte II

Em algum momento entre 1240 e 1242, Mécia conheceu o rei português D. Sancho II e se tornou sua amante. Ainda que já fosse considerado de meia-idade para os padrões da época, ele ainda não se matrimoniara, possivelmente por influência de sua poderosa tia por via materna, a rainha Berengária, que aspirava que seu filho Fernando III acabasse por conseguir anexar Portugal depois da morte do estéril rei D. Sancho e de seus irmãos, o ambicioso D. Afonso e o religioso D. Fernando, que apesar de casados, não tinham descendência legítima. Contrariando a tia, porém, D. Sancho se casou com Mécia em segredo antes de 1245, tendo apenas posteriormente pedido uma dispensa papal para validar a união (FERNANDES, 2006, p. 254).  Sendo uma viúva castelhana de origem ilegítima, Mécia não foi muito bem recebida na corte portuguesa, principalmente porque ela nunca engravidara, mesmo que seu primeiro casamento tenha durado sete anos.

Antes de se casar com Mécia, D. Sancho II já reinara por 20 anos em Portugal, se tornando monarca ainda bem jovem após a morte de seu pai, D. Afonso II. Desde o início, a tarefa de governar se provou difícil para um rei que quase perdera sua herança para seu irmão mais novo, o infante Afonso, pouco antes da morte prematura do pai. Embora viesse a superar a fragilidade da infância e se tornasse um dotado guerreiro, que lideraria a Reconquista portuguesa contra os mouros ao sul do Alentejo (SERRÃO, 1978, p. 124), o mesmo talento não o acompanhava na política e na diplomacia. Pouco antes da morte de seu pai, o papa Honório III excomungara o reino devido às tentativas reais de conter o poder da Igreja no reino. Tal interdito continuou durante o reinado de D. Sancho II, o que prejudicou sensivelmente as relações de Portugal com Roma. Além disso, como no caso de seu antepassado D. Afonso I, a excomunhão significava que o mercado matrimonial se tornara bastante reduzido para D. Sancho II. Neste sentido, podemos compreender melhor seu casamento com uma viúva que, para os padrões do período, já estava deixando a juventude.

D. Sancho II de Portugal
D. Sancho II de Portugal

As ausências de D. Sancho II para suas campanhas militares deixavam efetivamente o poder nas mãos de variados chanceleres. Até mesmo por isso, a autoridade régia não se corroeu muito durante esse período, apesar de todos os problemas. A partir de 1237, contudo, com a subida ao poder do fraco chanceler D. Durando Froiaz, o reino português começou um processo progressivo de esfarelamento de poder, com muita violência e inúmeras conspirações no seio da nobreza, criando no reino um verdadeiro cenário de guerra civil. E foi neste panorama que D. Sancho II se casou com Mécia Lopes de Haro.

Mécia Lopes de Haro – parte I

Nascida aproximadamente em 1215 na cidade castelhana de Biscaia, Mécia Lopes de Haro era filha de Lope Díaz II de Haro, senhor de Biscaia, e sua esposa Urraca de Léon, uma filha ilegítima do rei Afonso IX de Léon. Por meio de sua mãe,  Mécia tinha relações íntimas com a realeza ibérica: além de neta de Afonso IX, ela também era sobrinha de Fernando III de Castela. Em 1234, ela foi casada com o poderoso nobre Álvaro Pérez de Castro. A união dessas duas influentes casas causou a fúria do tio castelhano de Mécia, que chegou a confiscar algumas propriedades de Álvaro. Eventualmente, porém, com a ajuda da mediação da rainha Berengária, mãe de Fernando III, tudo foi resolvido.

Estátua fúnebre de Mécia Lopes de Haro
Estátua fúnebre de Mécia Lopes de Haro

Alguns anos de casamento sem filhos, porém, revelaram que a união era estéril, embora o casal não tenha feito esforço aparente para se separar. Em 1239, Álvaro foi escolhido para comandar a defesa da estratégica fortificação de Martos contra os mouros. A fome gerada pelo prolongado conflito logo fez o marido de Mécia abandonar o local para ir à Corte pedir algum apoio financeiro, deixando-a sozinha com seu inexperiente sobrinho, Tello, e algumas tropas. Algum tempo depois da partida do tio, Tello decidiu fazer uma nova incursão em território inimigo com os soldados.

Sozinha na fortificação com outras mulheres, Mécia testemunhou quando tropas mouras aproveitaram a chance para tentar tomar Martos. Foi quando ela mandou uma mensagem de ajuda para Tello e se vestiu como um soldado, ordenando às outras que fizessem o mesmo. Elas, então, circularam na fortificação, tornando os mouros, que não esperavam encontrar tropas no local, mais defensivos e hesitantes no ataque (LA FIGANIÈRE, 1859, p. 116-117). Isso deu o tempo necessário para que Tello retornasse e dispersasse os soldados inimigos. Pouco depois, Álvaro Pérez de Castro cairia doente e morreria, tornando Mécia uma viúva.

Margarida de Valois – filha, irmã e esposa de reis

Nascida em 14 de maio de 1553 como terceira filha (sexta criança) fruto do casamento de Henrique II de França e Catarina de Médicis, a futuramente célebre Margarida de Valois ficou orfã de pai aos seis anos de idade, após o rei falecer num trágico acidente de justa. Daí por diante, sua maior influência seria sua dominadora mãe, que, ao tentar manter o controle de uma França dividida pelas Guerras de Religião, também ensinaria a jovem Margarida grandes lições sobre habilidade política, úteis mais tarde em sua vida. A princesa também foi bem educada, como a maioria das damas renascentistas, e era fluente em vários idiomas.

Margarida enquanto criança
Margarida enquanto criança

À medida que Margarida crescia cada vez mais bela, propostas de casamento fatalmente surgiam. Uma das primeiras foi do jovem rei de Portugal, D. Sebastião, quase exato contemporâneo da princesa. Por um longo tempo, o rei foi pressionado por algumas facções da corte a ir adiante com a união, mas ele acabaria no final rejeitando Margarida pela suposta leniência do irmão dela, o fraco Carlos IX, em relação aos protestantes franceses. Em 1568, após a morte da terceira esposa de Felipe II de Espanha, Isabel de Valois, irmã mais velha de Margarida, Catarina de Médicis propôs que sua última filha ainda solteira se tornasse a quarta esposa do rei espanhol; ele a rejeitou, porém, por considerar que casar-se com a irmã da falecida esposa era contra a lei bíblica – muito embora ele tivesse anteriormente tentado se matrimoniar com a irmã de sua segunda esposa, Isabel I de Inglaterra, após a morte de Maria I em 1558.

Há duas razões principais pelas quais Margarida quase chegou aos 20 anos ainda uma donzela: primeiramente, sua engenhosa mãe não permitia que sua última filha sem marido se casasse, a fim de conservá-la como possível ferramenta para manobras políticas – o que, de fato, mais tarde se provou acertado. Em segundo lugar, os boatos sobre a sua suposta promiscuidade sexual, que ainda hoje ganham espaço em produções fílmicas sobre sua vida, podem a ter prejudicado no mercado matrimonial europeu. Segundo Armour (2004, pps. 15-16), tais histórias foram espalhadas pelo irmão de Margarida, o príncipe Henrique, que se desentendia de forma frequente com ela e que possivelmente desejava impedir um possível matrimônio entre a irmã e Henrique de Navarra, quarto na linha sucessória francesa em razão da lei sálica, que excluía todas as mulheres da sucessão.

Isabelle Adjani e Daniel Auteuil nos papéis de Margarida de Valois e Henrique de Navarra no filme A Rainha Margot (1994)
Isabelle Adjani e Daniel Auteuil nos papéis de Margarida de Valois e Henrique de Navarra no filme A Rainha Margot (1994)

As tentativas do irmão de Margarida para impedir o matrimônio acabaram não atingindo seu objetivo. Ela e o rei Henrique se casaram em 1572, numa tentativa para pôr fim às Guerras de Religião. Seis dias depois das núpcias, contudo, ocorreu o Massacre de São Bartolomeu em Paris por ordem do rei Carlos IX, que vitimou milhares de protestantes que se encontravam na capital para o casamento de um de seus líderes com a princesa francesa. Foi a própria Margarida quem interviu para salvar o marido, insistindo que ele se convertesse ao catolicismo para não ser executado. Ele seguiu seu conselho, embora repudiasse a nova religião após conseguir fugir de volta para Navarra em 1576. Margarida ainda ficaria presa na corte francesa até 1578, quando pôde retornar ao marido. Vivendo juntos por um longo tempo em relativa paz pela primeira vez, ambos discutiam com frequência, com Henrique mantendo muitas amantes. Cansando-se por fim, Margarida retornou à corte francesa em 1582, mas foi rapidamente expulsa pelo novo rei, o detestado irmão Henrique, devido ao único caso amoroso documentado de toda a sua vida com o lorde de Champvallon, além do suposto apoio político indevido dela ao irmão caçula, o príncipe protestante Francisco. Em retaliação, Margarida liderou um exército e capturou a cidade de Agen. O sucesso durou pouco. Henrique a capturou poucos meses depois e a manteria cativa por alguns anos no castelo de Usson, no sul do reino francês.

Margarida em sua velhice
Margarida em sua velhice

Devido aos eventos narrados acima, pode-se compreender como o rei de Navarra e a princesa Margarida de Valois não tiveram filhos em seu casamento. Com a morte do príncipe Francisco em 1584 e de Henrique III em 1589, ambos sem ter tido filhos, o marido protestante da princesa francesa tornou-se subitamente o principal candidato ao trono de França, estourando mais conflitos religiosos. Após muitas dificuldades e uma nova conversão ao catolicismo, o rei de Navarra venceu a guerra, mas precisava de um herdeiro. Assim, um divórcio teria que ser providenciado. Em 1599, após a garantia que ela continuaria a ter o título de Rainha de França, Margarida concordou e cedeu lugar para Maria de Médicis, que teria seis crianças com Henrique IV de França. Apesar disso, a antiga consorte não se retirou por completo da corte francesa, continuando a ser influente e ajudando inclusive a criar os filhos do casal real, especialmente o primogênito. Ela viveria para testemunhar o assassinato de seu ex-marido em 1610 por um radical católico. Benfeitora das artes, após a sua morte por motivos naturais, em 1615, Margarida foi enterrada na capela dos Valois na Basílica de St. Denis. Seus restos mortais, assim como os de outros membros de sua dinastia, provavelmente foram destruídos durante a Revolução Francesa.

Urraca de Castela – parte II

Uma doença lenta e crônica, a lepra ainda era algo endêmica no século XIII e condenava suas vítimas a uma vida de isolamento do restante da sociedade. Segundo Júlio Dantas, o príncipe Afonso não necessariamente foi acometido de lepra, mas sim de uma “dermatose vulgar de aspecto lepróide” (1923, pps 1-4). A hipótese do autor faz sentido se for considerado que o futuro rei não se afastou da corte portuguesa, e que as fontes de época não fazem nenhuma menção quanto à doença de D. Afonso.

Por outro lado, existem registros anteriores de nobres com a doença que continuaram a conviver entre seu estrato social, como o famoso rei Balduíno IV de Jerusalém. Além disso, deve ser considerado que a dinastia portuguesa de Borgonha ainda não estava firmada o suficiente no reino para poder suportar o baque duplo de um rei e um herdeiro doentes com o mesmo mal, como defendem Machado e Serrão (1978, p. 123). Qualquer que fosse a doença de D. Afonso, porém, ela existia: o aspecto flácido e corpulento de seu corpo limitaria suas funções régias ao por vezes impedir que liderasse exércitos. A moléstia, contudo, não o impediu de produzir herdeiros.

D. Sancho II de Portugal
D. Sancho II de Portugal

Em 1206, a infanta Urraca por fim se casou com o herdeiro D. Afonso, que se tornou rei após a morte do pai, em 1211. Pouco se sabe a respeito de sua vida depois que passou a viver em Portugal. Ela não se provou tão fértil quanto a falecida rainha Dulce, tendo apenas três filhos e uma filha que sobreviveram à infância: D. Sancho (1209 – 1248) e D. Afonso (1210 – 1279), que seriam sucessivamente reis de Portugal, Leonor (c. 1211 – 1231), rainha de Dinamarca, e D. Fernando (1217 – 1246), senhor de Septa. Uma quinta criança, D. João, viveu pouco (SERRÃO, 1978, p. 399). Seu marido provavelmente teve filhos bastardos, mas isso não prejudicou a posição da rainha; em um testamento datado de 1214, D. Afonso II declarou que Urraca deveria ser a regente em nome de D. Sancho no caso de seu falecimento prematuro. Todavia,  a rainha morreria em fins de 1220, com apenas 33 anos de idade. Pouco menos de dois depois, o rei também faleceria, provavelmente enfraquecido por sua longa doença. Todos os seus filhos legítimos ainda eram menores de idade.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal