O carrossel matrimonial de D. Sebastião

Desde que D. Sebastião assumiu pessoalmente o governo português, em 1568 – mesmo ano, aliás, da morte de seu primo Carlos – a questão de seu matrimônio foi tornando-se cada vez mais urgente a cada ano que passava. Embora o rei fosse garantir com o tempo uma conhecidíssima fama de misandria, o fato é que um casamento real era imprescindível e não-negociável do ponto de vista político, tanto para a produção de herdeiros do trono quanto para a fortificação de velhas alianças. E, num momento em que o império português abrangia grande parte do mundo conhecido, o jogo político matrimonial abrangia muitos interesses e jogadores distintos.

O próprio papa da época, Pio V, estava interessado no casamento de D. Sebastião, e apoiaria a que foi, na verdade, a primeira noiva oferecida ao rei: a princesa Margarida de Valois, irmã do rei Carlos IX de França, proposta que também era apoiada pelo tio-avô e antigo regente do rei, o cardeal-infante D. Henrique, como meio de conter a ameaça herege naquele reino.  O desenvolvimento de uma crescente conciliação do rei francês com os protestantes, porém, provocou a interrupção das negociações ainda antes de 1570. A princesa Margarida acabaria se casando com o protestante Henrique de Navarra em 1572, poucos meses depois da morte de Pio V.

Aquarela representando a princesa Margarida de Valois (c. 1570)
Aquarela representando a princesa Margarida de Valois (c. 1570)

Outra proeminente noiva foi a infanta Isabel, filha primogênita de Felipe II de Espanha e, por algum tempo, sua herdeira presuntiva. Esse casamento era perseguido avidamente pela avó e primeira regente de D. Sebastião, a rainha viúva D. Catarina: Espanha e Portugal poderiam se aproximar ainda mais politicamente pelo matrimônio dos primos reais. Não há dúvidas de que a união era também do agrado pessoal de D. Sebastião. Em 1576, durante um encontro com seu tio Felipe na cidade castelhana de Guadalupe, ele pediria pessoalmente a mão da infanta em casamento numa tentativa de garantir o auxílio militar de Felipe II na planejada campanha militar em África.

Felipe II, porém, só acedeu parcialmente aos pedidos do sobrinho: embora tenha diplomaticamente concordado com a ajuda militar, hesitou na questão do casamento. Nesta altura, a menina tinha somente oito anos, pretexto que foi utilizado para que nenhum compromisso fosse assumido naquela ocasião, embora tenha sido concordado que o assunto voltaria a ser discutido depois da volta de D. Sebastião de sua campanha em África. Para o historiador Queiroz Velloso, porém, o rei espanhol não levava a sério os propósitos matrimoniais de D. Sebastião, e por isso não prendia a primogênita a um contrato do qual o rei português depois pudesse procurar escapar (1935, p. 185).

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A infanta Isabel (c. 1580)

De fato, o desejo belicoso de D. Sebastião era tamanho que, mesmo antes de saber oficialmente que o tio decidira não o apoiar em sua empresa militar, ele já encarregara o embaixador português de prosseguir com as negociações com o grão-duque da Toscana, Francisco de Médicis, para um possível casamento de sua filha mais velha com o rei (CRUZ, 2012, pps. 258-259), visando receber um substancial apoio para a guerra. Nenhum desses casamentos se realizaria: a filha mais velha do duque da Toscana, Leonor, se uniria em 1584 com o duque de Mântua, e a infanta Isabel apenas se casaria com o arquiduque Alberto de Áustria em 1599.

Isabel de Áustria como rainha de França (1570)
Isabel de Áustria como rainha de França (1570)

Àquela altura, outra antiga noiva em potencial, Isabel de Áustria, já não estava mais disponível: em 1570, ela se casara com o rei francês Carlos IX, irmão de outra antiga prometida de D. Sebastião, Margarida de Valois, provando o quão rápido o carrossel matrimonial europeu poderia girar. Embora viúva desde 1574, ela recusaria todas as propostas de casamento até sua própria morte em 1592. Naquelas circunstâncias, D. Sebastião considerou seriamente unir-se a Maximiliana, filha do duque de Baviera, informando inclusive à sua avó que estava decidido a matrimoniar-se dentro de pouco tempo e pedindo à sua mãe, D. Joana de Áustria, que persuadisse o duque a dar a ele a mão de sua filha em casamento.

De fato, a correspondência disponível sobre o assunto indica um consenso inédito quanto às núpcias do rei de Portugal entre o cardeal D. Henrique, a rainha viúva D. Catarina e os demais conselheiros (CRUZ, 2012, p. 221). A avó do rei, contudo, também o incentivava a esperar a maturidade física de sua prima Isabel, ainda pouco mais do que uma criança, para que um casamento com Espanha pudesse se realizar. D. Sebastião também pendia para tal decisão, embora uma união com a filha do duque de Baviera fosse desejada por muitos na corte portuguesa, visto a necessidade urgente de herdeiros para o trono. Antes que quaisquer núpcias fossem possíveis, porém, ocorreu a tragédia em Alcácer-Quibir.

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