O carrossel matrimonial de D. Sebastião

Desde que D. Sebastião assumiu pessoalmente o governo português, em 1568 – mesmo ano, aliás, da morte de seu primo Carlos – a questão de seu matrimônio foi tornando-se cada vez mais urgente a cada ano que passava. Embora o rei fosse garantir com o tempo uma conhecidíssima fama de misandria, o fato é que um casamento real era imprescindível e não-negociável do ponto de vista político, tanto para a produção de herdeiros do trono quanto para a fortificação de velhas alianças. E, num momento em que o império português abrangia grande parte do mundo conhecido, o jogo político matrimonial abrangia muitos interesses e jogadores distintos.

O próprio papa da época, Pio V, estava interessado no casamento de D. Sebastião, e apoiaria a que foi, na verdade, a primeira noiva oferecida ao rei: a princesa Margarida de Valois, irmã do rei Carlos IX de França, proposta que também era apoiada pelo tio-avô e antigo regente do rei, o cardeal-infante D. Henrique, como meio de conter a ameaça herege naquele reino.  O desenvolvimento de uma crescente conciliação do rei francês com os protestantes, porém, provocou a interrupção das negociações ainda antes de 1570. A princesa Margarida acabaria se casando com o protestante Henrique de Navarra em 1572, poucos meses depois da morte de Pio V.

Aquarela representando a princesa Margarida de Valois (c. 1570)
Aquarela representando a princesa Margarida de Valois (c. 1570)

Outra proeminente noiva foi a infanta Isabel, filha primogênita de Felipe II de Espanha e, por algum tempo, sua herdeira presuntiva. Esse casamento era perseguido avidamente pela avó e primeira regente de D. Sebastião, a rainha viúva D. Catarina: Espanha e Portugal poderiam se aproximar ainda mais politicamente pelo matrimônio dos primos reais. Não há dúvidas de que a união era também do agrado pessoal de D. Sebastião. Em 1576, durante um encontro com seu tio Felipe na cidade castelhana de Guadalupe, ele pediria pessoalmente a mão da infanta em casamento numa tentativa de garantir o auxílio militar de Felipe II na planejada campanha militar em África.

Felipe II, porém, só acedeu parcialmente aos pedidos do sobrinho: embora tenha diplomaticamente concordado com a ajuda militar, hesitou na questão do casamento. Nesta altura, a menina tinha somente oito anos, pretexto que foi utilizado para que nenhum compromisso fosse assumido naquela ocasião, embora tenha sido concordado que o assunto voltaria a ser discutido depois da volta de D. Sebastião de sua campanha em África. Para o historiador Queiroz Velloso, porém, o rei espanhol não levava a sério os propósitos matrimoniais de D. Sebastião, e por isso não prendia a primogênita a um contrato do qual o rei português depois pudesse procurar escapar (1935, p. 185).

IsabelClaraEugenia
A infanta Isabel (c. 1580)

De fato, o desejo belicoso de D. Sebastião era tamanho que, mesmo antes de saber oficialmente que o tio decidira não o apoiar em sua empresa militar, ele já encarregara o embaixador português de prosseguir com as negociações com o grão-duque da Toscana, Francisco de Médicis, para um possível casamento de sua filha mais velha com o rei (CRUZ, 2012, pps. 258-259), visando receber um substancial apoio para a guerra. Nenhum desses casamentos se realizaria: a filha mais velha do duque da Toscana, Leonor, se uniria em 1584 com o duque de Mântua, e a infanta Isabel apenas se casaria com o arquiduque Alberto de Áustria em 1599.

Isabel de Áustria como rainha de França (1570)
Isabel de Áustria como rainha de França (1570)

Àquela altura, outra antiga noiva em potencial, Isabel de Áustria, já não estava mais disponível: em 1570, ela se casara com o rei francês Carlos IX, irmão de outra antiga prometida de D. Sebastião, Margarida de Valois, provando o quão rápido o carrossel matrimonial europeu poderia girar. Embora viúva desde 1574, ela recusaria todas as propostas de casamento até sua própria morte em 1592. Naquelas circunstâncias, D. Sebastião considerou seriamente unir-se a Maximiliana, filha do duque de Baviera, informando inclusive à sua avó que estava decidido a matrimoniar-se dentro de pouco tempo e pedindo à sua mãe, D. Joana de Áustria, que persuadisse o duque a dar a ele a mão de sua filha em casamento.

De fato, a correspondência disponível sobre o assunto indica um consenso inédito quanto às núpcias do rei de Portugal entre o cardeal D. Henrique, a rainha viúva D. Catarina e os demais conselheiros (CRUZ, 2012, p. 221). A avó do rei, contudo, também o incentivava a esperar a maturidade física de sua prima Isabel, ainda pouco mais do que uma criança, para que um casamento com Espanha pudesse se realizar. D. Sebastião também pendia para tal decisão, embora uma união com a filha do duque de Baviera fosse desejada por muitos na corte portuguesa, visto a necessidade urgente de herdeiros para o trono. Antes que quaisquer núpcias fossem possíveis, porém, ocorreu a tragédia em Alcácer-Quibir.

Mafalda de Saboia – parte II

Provavelmente Mafalda não conseguiu muita popularidade enquanto vivia em Portugal, devido ao seu nascimento em local longínquo e aos seus costumes distintos, como ocorria com tantas outras rainhas de origem estrangeira (MATTOSO, 2012, pps. 160-162).  O frequente respeito à posição de rainha de Mafalda, de qualquer forma, torna improvável a veracidade dos boatos de frequente violência conjugal entre o casal real, surgidos já no fim da vida de D. Afonso I (que incluíam até uma irreal tentativa de assassinato da rainha enquanto esta se encontrava grávida), principalmente numa era em que muitas consortes não eram sequer mencionadas em documentos oficiais.

Estátua representando a infanta Urraca, filha de Mafalda e D. Afonso I e futura rainha de Léon
Estátua representando a infanta Urraca, filha de Mafalda e D. Afonso I e futura rainha de Léon

Quando Mafalda chegou à corte portuguesa em 1146, seu marido já tivera pelo menos um filho bastardo, Fernando, nascido por volta de 1140. Existe também registro de outro, Pedro, gerado em época desconhecida; ambos, especialmente o mais velho, ocupariam lugar de destaque na corte portuguesa. Embora mais tarde Fernando tivesse entrado numa breve disputa pela herança paterna, o fato é que os filhos rapidamente nascidos do casamento legítimo de D. Afonso I e Mafalda de Saboia tinham prioridade na sucessão.  O primeiro, chamado Henrique em honra ao avô paterno, nasceu logo no ano seguinte ao casamento, mas morreu ainda na infância. Ele foi seguido por três irmãs: Urraca (nomeada em homenagem à sua tia-avó, Urraca de Castela, nascida em 1148), Teresa (nomeada em homenagem à sua avó, Teresa de Leão, nascida em 1151) e Mafalda (nomeada em homenagem à sua mãe, nascida em 1153). Só em 1154 nasceria aquele que seria o futuro sucessor de D. Afonso I; originalmente chamado de Martinho em homenagem ao santo do dia de seu nascimento, ele foi renomeado com o nome mais régio de Sancho após a morte do irmão mais velho em 1155. A rainha teve ainda mais um menino em 1156, João, que viveu poucos anos, e mais uma menina, Sancha, que faleceu tão nova que praticamente não existem registros históricos a seu respeito.

D. Sancho, filho de Mafalda de D. Afonso I e futuro rei de Portugal
D. Sancho, filho de Mafalda de D. Afonso I e futuro rei de Portugal

Foi o nascimento da caçula, em 24 de novembro de 1157, que provavelmente causou a morte da rainha Mafalda nove dias depois, com 31 ou 32 anos de idade. O viúvo não tornaria a se casar até sua própria morte quase três décadas depois.

Mafalda de Saboia – parte I

Filha primogênita ou secundogênita de Amadeo III, conde de Saboia, e sua esposa Mafalda de Albon, Mafalda de Saboia nasceu aproximadamente em 1125 no condado regido por seu pai. Como inúmeras outras donzelas do período medieval, pouco é conhecido da fase inicial de sua vida; de fato, os primeiros registros de sua existência datam aproximadamente da época de seu casamento com o primeiro rei português, D. Afonso I, em 1146. Com cerca de 21 anos na época de seu matrimônio, a noiva já era considerada velha para os padrões do período; o noivo, porém, aos 37 anos, já deveria ter se casado muito antes para produzir descendência, principalmente considerando-se o seu estado régio. Por que, então, a demora para as núpcias do rei?

D. Afonso I de Portugal
D. Afonso I de Portugal

A chave para entender o intrigante atraso, pouco habitual para um personagem de sua importância, está na legitimidade do reino de Portugal.  Declarado Rei dos Portugueses em 1139 após a vitória contra os mouros na batalha de Ourique, D. Afonso I era filho e herdeiro de Henrique de Borgonha e Teresa de Leão, conde e condessa do Condado Portucalense, dados a eles quando de seu casamento pelo pai de Teresa, o rei Afonso VI de Castela e Leão. Após a morte prematura de Henrique, Teresa comandou o condado na menoridade do filho, intitulando-se rainha de Portugal até ser retirada à força do poder pelo próprio Afonso em 1128 após a batalha de São Mamede. Portanto, mesmo descendendo diretamente de reis, o reinado de D. Afonso I em Portugal era considerado ilegítimo por alguns de seus parentes e mesmo pelo papa. Tal rejeição evidentemente não melhorava as perspectivas do rei português nas cortes europeias, motivo pelo qual o rei teve que ir buscar sua esposa no distante condado de Saboia.

Rainha Mafalda
Rainha Mafalda

Embora sendo descrita em crônicas posteriores como sendo “sensata e firmada na fé”, fazendo jus à qualidade mais importante das consortes reais medievais, a rainha Mafalda parece também ter tido personalidade forte: uma hagiografia de São Teotônio, contemporâneo da rainha, descreve a tentativa dela de entrar no claustro interior, reservado apenas aos homens, e a recusa do santo em permiti-lo, fazendo frente “à presunção da rainha” e sem medo do “ódio da fúria dela” (NASCIMENTO, 1998, p. 179). Além disso, sua posição de rainha era sempre destacada ao lado da de seu marido, o rei, nos documentos da chancelaria real, o que demonstra inegável respeito.

Preparativos da guerra

Como preparativo para a viagem posterior à África, D. Sebastião nomeou, em maio de 1574, seu primo ilegítimo de 2º grau, D. Antônio, prior do Crato, como governador de Tânger, devido à sua experiência e conhecimento da região, pelo fato dele lá ter vivido por alguns anos antes de ter finalmente se livrado de seus votos sacerdotais, em 1571. Tais eventos evidentemente desagradaram o tio-avô do rei, o cardeal D. Henrique, que já tivera sua relação prejudicada com ambos por diversos motivos; não foi o único, porém. O herdeiro presuntivo do rei, D. Duarte, irmão mais novo da duquesa de Bragança, também se sentiu preterido pela escolha real, em especial pelo fato que o novo posto de D. Antônio dava direito ao bastardo de D. Luís de utilizar também o título de Excelência, exatamente como os filhos legítimos de um infante de Portugal. Isso reacendeu rivalidades já existentes entre eles.

D. Antônio, prior do Crato
      D. Antônio, prior do Crato

Tendo reforçado as tropas para a viagem e construído uma nova galé real, D. Sebastião partiu de forma um tanto furtiva do reino em agosto de 1574 para que a avó ou o tio-avô, ou mesmo seus conselheiros mais próximos, não o pudessem impedir, nomeando D. Henrique como regente em sua ausência. O rei só retornaria em fins de outubro, o que não impediu o envio de emissários e cartas pedindo insistentemente pelo seu retorno. A partir desta primeira visita, os eventos foram se acelerando cada vez mais rumo à guerra santa contra os infiéis tão desejada por D. Sebastião – para a qual, aliás, fora convidado pelo próprio papa Pio V. No caso, o foco não estaria em África, mas sim nas terras orientais; na proposta papal, o rei português integraria uma Liga católica contra o Grã-Turco. Mas ainda havia um último obstáculo a ser transposto para tal: a ausência de herdeiros diretos do rei. Nesta perspectiva, o futuro matrimônio de D. Sebastião passou a ser mais crucial do que nunca.

Isabel I de Castela – a diplomata e a mãe

Perto do fim da Guerra de Sucessão Castelhana, Isabel teria outra menina, a infanta Joana. Depois do fim do confronto e durante a estabilização de Castela, nasceu a infanta Maria, e enquanto o casal real guerreava contra os mouros no sul do reino nasceu a última filha, a infanta Catarina. Em 1492, a Reconquista chegava ao fim com a conquista da cidade muçulmana de Granada, e Fernando e Isabel puderam se dedicar melhor aos projetos matrimoniais de seus filhos, feitos de maneira que serviam às principais preocupações de Fernando: neutralizar a França, tradicional inimiga de Aragão, e reforçar a soberania espanhola.  Então, em 1490, a primogênita Isabel casou-se com o herdeiro português D. Afonso. Alguns anos depois do falecimento deste, ela voltaria a se casar com o primo dele, o rei D. Manuel I. Já a segunda filha, Joana, se uniu a Felipe, duque de Borgonha, em 1496, e seu único irmão, João, uniu-se à irmã de Felipe, Margarida, no ano seguinte.

Joana de Castela
Joana de Castela

Pouco depois, porém, a sequência de mortes que arruinaria a política dinástica de Fernando começou: o príncipe João faleceu subitamente, deixando a esposa grávida com uma menina que também morreu pouco depois do parto. Com essa sequência de trágicos eventos, a rainha de Portugal acabou tornando-se novamente a herdeira do trono de Castela, como já o fora antes do nascimento do irmão algumas décadas antes. A possibilidade de união peninsular completa ficaria ainda mais forte se Isabel, que acabara de se descobrir grávida de D. Manuel I, pudesse dar à luz um menino: no caso, o infante também poderia legitimamente herdar Aragão, reino ainda regido pela antiga lei sálica, que, em princípio, excluía quaisquer possíveis herdeiras da sucessão.

No mesmo ano, D. Isabel e D. Manuel I foram oficialmente convocados pelas Cortes castelhanas e aragonesas a prestar juramento como herdeiros do trono. Pouco depois, nasceu um menino, D. Miguel, embora sua mãe, enfraquecida com o esforço e constantes jejuns religiosos, morresse pouco depois nos braços de D. Manuel I. O pequeno príncipe, porém, também morreria em 1500. Rapidamente, a infanta Maria foi enviada para Portugal para ser a segunda esposa de D. Manuel I, mas a herdeira da Espanha unificada agora era a segunda filha emocionalmente instável de Isabel e Fernando, a infanta Joana, que pouco antes tivera um menino, Carlos. A rainha de Castela, contudo, jamais superou a morte de seu único e adorado filho, com sua saúde declinando progressivamente desde o falecimento do príncipe João. Ela ainda viveu para ver a partida da última filha, Catarina, em 1501, rumo à Inglaterra para se casar com o príncipe Arthur, herdeiro do trono, e as dificuldades que a caçula passou em solo inglês após o falecimento precoce do primeiro marido logo no ano seguinte.

Isabel morreria em 26 de novembro de 1504. Seu viúvo, Fernando, se casaria novamente para produzir um herdeiro para Aragão no lugar do filho estrangeiro de Joana, mas seus esforços foram em vão. Ele faleceria amargurado 12 anos depois da primeira esposa. Seu sucessor, Carlos, reinaria sobre ambos os reinos de seus avôs maternos e sobre os domínios herdados do avô paterno, sendo o monarca mais poderoso da primeira metade do século XVI na Europa.

Isabel I de Castela interpretada pela atriz Michelle Jenner na série homônima (2011-14)
Isabel I de Castela interpretada pela atriz Michelle Jenner na série homônima (2011-14)

Isabel I de Castela – a rainha e a guerreira

A facção da nobreza liderada por Isabel, porém, não era forte o suficiente para depor o rei. Novamente, então, os dois lados chegaram a um acordo: Henrique IV nomearia Isabel como sua herdeira presuntiva, e Isabel não se casaria sem a permissão do irmão. Não muito tempo depois, porém, o rei estava tentando casar Isabel com D. Afonso V de Portugal, ao mesmo tempo em que negociava uma união entre sua suposta filha Joana e o herdeiro de D. Afonso, o príncipe D. João: assim, tia e sobrinha poderiam reinar consecutivamente tanto em Castela quanto Portugal.

Joana de Castela, dita
Joana de Castela, dita “a Beltraneja”

Isabel, porém, se recusou e começou a tentar paralelamente uma união com seu primo Fernando de Aragão, a quem já fora prometida por certo tempo em sua infância. Sendo a parte mais poderosa do acordo, ela pôde até mesmo impor condições algo humilhantes para Fernando e seu pai, o rei João II, que desesperados por uma união que tirasse Aragão da difícil condição financeira e política em que se encontrava, não tiveram como negociar realisticamente com a princesa (ELLIOT, 1963, p. 15). Finalmente, em outubro de 1469, Isabel fugiu secretamente da corte com a desculpa de visitar a tumba do irmão Afonso, enquanto Fernando disfarçava-se de servo em sua viagem por Castela rumo à cidade de Valladolid. Lá, Isabel o teria reconhecido à primeira vista sem erro em meio a um grupo de cavalheiros, exclamando “É ele, é ele!” (FRASER, 1992, p. 22). No mesmo dia, ambos se casaram com o auxílio de uma dispensa papal falsa, necessária devido ao seu parentesco próximo. Já no ano seguinte, nasceria a primeira filha do casal, batizada em homenagem à mãe.

Infanta Isabel de Aragão, primogênita de Isabel e Fernando
Infanta Isabel de Aragão, primogênita de Isabel e Fernando

O casamento secreto de Isabel de Castela e Fernando de Aragão precipitou o início da luta pela sucessão do trono castelhano. Henrique IV procurou restabelecer Joana como sua herdeira no lugar de Isabel, mas, quanto ele morreu em 1474, foi sua meia-irmã que subiu ao trono. Então, a princesa Joana tomou a iniciativa de propor uma união com D. Afonso V de Portugal, ciente de sua frágil posição após a morte de seu pai. O rei concordou e invadiu o reino castelhano com seus exércitos em 10 de maio de 1475 para se encontrar com sua sobrinha e noiva. Ambos se casaram em 25 de maio e foram proclamados soberanos conjuntos de Castela.

Assim, a sangrenta guerra teve início oficial, permanecendo indefinida até a batalha de Toro, em 1 de maio de 1476, onde as tropas portuguesas recuaram e debandaram. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento para convocar as Cortes, onde sua filha primogênita foi jurada como herdeira, simbolizando a legitimidade da própria Isabel; o nascimento de seu filho João em 1478 a fortaleceria ainda mais. Depois de repelir os franceses, aliados de Portugal, e garantir o recuo de D. Afonso V e Joana, a guerra de sucessão castelhana basicamente se limitou aos confrontos navais e breves revoltas internas contra o domínio de Isabel, sufocadas com rapidez. Em fevereiro de 1479, Portugal sofreu mais um grave revés quando a dispensa papal que havia garantido o casamento de tio e sobrinha foi anulada, prejudicando em muito a pretensão de D. Afonso V. Sem escolha, o rei teve que concordar com um tratado de paz. Assinado na vila de Alcáçovas em 4 de setembro de 1479 e ratificado por ambos os lados no ano seguinte, ele consistiu basicamente na renúncia de D. Afonso V a qualquer direito ao trono castelhano, assim como Joana, que foi confinada a um convento. Portugal e Castela também dividiram suas áreas de influência no oceano Atlântico.

Isabel I de Castela – a infanta e a herdeira

Isabel I de Castela
Isabel I de Castela

Nascida em 22 de abril de 1451 na cidade castelhana de Medina del Campo, a futura rainha de uma Espanha unificada não era considerada uma herdeira. Ela era a primogênita do segundo casamento do rei João II de Castela com a nobre Isabel de Portugal, que tinha uma alta dose de sangue real português por sua dupla descendência de D. João I de Portugal: paternalmente pelo casamento do rei com Philippa de Lancaster, e maternalmente pelo filho ilegítimo de D. João I, o primeiro duque de Bragança. A jovem infanta tinha um irmão 26 anos mais velho, fruto do primeiro casamento do monarca castelhano com a já falecida Maria de Aragão. Preso num casamento estéril com a herdeira Blanche de Navarra, porém, o príncipe Henrique não tinha filhos, o que tornava sua jovem meia-irmã a segunda na linha sucessória. Em 1453, nasceu um menino para o casal real, Afonso, que assumiu então o lugar da irmã. Tragicamente, João II faleceu não muito tempo depois disso. Viúva, a rainha Isabel foi forçada a viver com suas crianças no pobre castelo de Arévalo, onde teriam uma vida difícil pelos próximos anos longe da corte castelhana.

Isabel de Portugal, rainha de Castela. Progressivamente instável após uma depressão pós-parto que se seguiu ao parto de sua primogênita, ela morreria abandonada em 1496.
Isabel de Portugal, rainha de Castela. Progressivamente instável após uma depressão que se seguiu ao parto de sua primogênita, ela morreria abandonada em 1496.

No mesmo ano do nascimento de seu meio-irmão Afonso, o príncipe Henrique conseguira a anulação de seu primeiro matrimônio com Blanche, alegando que era incapaz de consumar o casamento com ela; o fato, porém, que ele era capaz com muitas prostitutas locais indicava, na mentalidade da época, que a união era amaldiçoada. Dois anos depois, ele se casou novamente com Joana de Portugal. Em 1462, quando a rainha estava prestes a dar à luz, Henrique IV convocou seus meios-irmãos de volta à corte para testemunhar o nascimento da criança que tiraria Afonso da cobiçada posição de herdeiro presuntivo. Após o parto de uma menina saudável, Afonso começou sua educação oficial com um tutor enquanto sua irmã tornou-se uma das damas de companhia oficiais da rainha Joana. Nesta posição, além de ter acesso a uma vida mais confortável, Isabel também teve uma instrução mais constante e formal.

Joana de Portugal, rainha de Castela. Após os escândalos de seu casamento, ela se refugiaria em um convento, onde morreria em 1475.
Joana de Portugal, rainha de Castela. Após os escândalos de seu casamento, ela se refugiaria em um convento, onde morreria em 1475.

Nem Isabel nem Afonso, contudo, tinham contato direto com as agitações políticas do reino de Castela. Pouco depois do nascimento da princesa Joana, haviam começado rumores insistentes entre a nobreza já dissidente de que Joana não era filha do rei, mas sim do suposto amante da rainha, o influente aristocrata Beltrán de la Cueva. Tentando abafar os boatos, Henrique IV baniu a rainha Joana da corte. O nascimento de duas crianças ilegítimas pouco depois, porém, transformou as chamas do escândalo num verdadeiro incêndio: agora, uma facção considerável da nobreza defendia que Joana, a Beltraneja (filha de Beltrán) não poderia suceder ao rei e defendiam os direitos do príncipe Afonso. Após a Segunda Batalha de Olmedo, em 1467, Henrique IV e Afonso atingiram um acordo: o último sucederia ao rei se se casasse com a princesa Joana. Afonso, porém, não viveu muito tempo depois de ser reconhecido como o herdeiro do trono castelhano, sendo vítima da praga (ou do veneno, segundo rumores) logo no ano seguinte. Como herdeira de seu irmão, Isabel tornou-se a líder da causa rebelde.

Fernando de Aragão, o “catalão astuto”

Filho e futuro herdeiro de João II de Aragão e Joana Enríquez, Fernando de Aragão nasceu em 1452. Na época, o provável sucessor do trono de Aragão era seu irmão mais velho, o príncipe Carlos, fruto do primeiro casamento de seu pai com Blanche de Navarra. Em 1461, porém, ele morreu misteriosamente, provavelmente envenenado por sua madrasta, e o jovem Fernando tornou-se herdeiro.

Fernando de Aragão
Fernando de Aragão

Nesta nova situação, sua união com a infanta castelhana Isabel começou a ser perseguida com empenho. Em pouco tempo, porém, o projeto seria abandonado. Nos princípios da crise sucessória castelhana, o projeto foi subitamente ressuscitado como um meio de garantir a permanência dos Trastâmara em ambos os reinos, gerando assim novamente, depois de um intervalo de alguns séculos, uma ideia de união ibérica. Como, porém, o irmão de Isabel, Henrique IV, era contrário à união, eles se casariam em segredo em 1469 com uma dispensa papal possivelmente falsificada. A primeira filha do casal, homônima da mãe e futura consorte de D. Manuel I de Portugal, nasceria já no ano seguinte. Quatro outras crianças se seguiriam: João, herdeiro do trono até sua precoce morte (1478-1497), Joana, futura rainha de Espanha (1479-1555), Maria, futura rainha de Portugal (1482-1517) e Catarina, futura rainha de Inglaterra (1485-1536). Após a vitória de Isabel contra sua sobrinha supostamente bastarda, ela e Fernando passaram a reinar conjuntamente, inaugurando a era de ouro espanhola.

Os termos do contrato pré-nupcial de Isabel e Fernando, porém, firmavam claramente o papel do herdeiro aragonês no governo comandado por Isabel: além de explicitar que Isabel seria “la reina proprietaria”, ainda exigia que Fernando fosse viver permanentemente em Castela (ELLIOTT, 1963, p. 15). Tendo em vista estes termos, podemos compreender melhor o papel de Fernando como rei “jure uxoris” (pelo direito da esposa); apesar de ser mais do que um simples consorte, ele ainda era subordinado à esposa nos assuntos castelhanos, agindo como um co-gestor auxiliar. Enquanto isso, em Aragão, Isabel seria apenas a rainha consorte.

Fernando e Isabel
Retrato de casamento de Fernando e Isabel

Estes termos algo humilhantes no contexto do século XV não podem esconder, porém, a autoridade de Fernando em sua relação marital com a piedosa Isabel, que se submetia a ele em privado de acordo com a concepção cristã de casamento. Por mais que sua autoridade política em Castela fosse limitada, portanto, ele continuaria a ser o principal conselheiro da esposa até a morte dela em 1504, agindo depois como o regente para a herdeira dita insana, sua filha Joana. Sem conseguir produzir um herdeiro homem com sua segunda esposa, Germaine de Foix, para impedir que Aragão fosse anexado aos domínios Habsburgo por meio do filho estrangeiro de Joana, Carlos, ele faleceria amargurado em 1516 (FRASER, 1992, pps. 21-23 e p. 105).

A viagem e a visita

Enquanto a união pessoal e dinástica de D. Catarina de Guimarães e D. João, Duque de Bragança, se fortalecia e crescia cada vez mais, a orientação de D. Sebastião rumo a uma guerra em África também se confirmava definitivamente; afinal, maior ainda que o zelo religioso do rei, era a sua vocação guerreira, que fora influenciada pelos irmãos Câmara, que tinham morado em África, e aprovada por facções desgostosas com a política de abandono das praças naquele continente por seu avô, D. João III.

D. Sebastião
D. Sebastião

Pouco depois de uma breve viagem pelo Alentejo e pelo Algarve, em 1573, o jovem rei subitamente viajou em quase sigilo à África, em 1574, alheando para isso sua avó e seu tio-avô, causando mesmo uma reaproximação de ambos devido à sua reprovação comum (POLÓNIA, 2005, p. 185) do que foi considerada uma viagem imprudente por muitos. Durante o percurso do rei por estas áreas geograficamente adjuntas pôde ser confirmada a submissão de seus súditos à sua real figura; o povo se ajoelhava à sua passagem, e mesmo muitos homens iam beijar seus pés (CRUZ, 2012, p. 215). De fato, isso confirma a popularidade do Desejado como um rei que rapidamente lhe aliara às necessidades do “povo miúdo”. Em um trecho de uma minuta que o rei enviou às Câmaras, inclusive é dito que seu maior desejo é prover as necessidades de seus vassalos. Isso não significou, é claro, que seu espírito naturalmente guerreiro estivesse adormecido. Em realidade, uma guerra contra os infiéis já estava em preparação – ao menos na mente de D. Sebastião.

Antes da controversa viagem à África, porém, a comitiva real se hospedou no palácio do duque de Bragança, em Vila Viçosa, durante o progresso pelo país, onde foi recepcionado com uma opulência que superaria inclusive os paços reais onde fora criado (COSTA, 1958, p. 157). Ali, de forma notável, tendo em vista a misoginia com a qual era frequentemente descrito, o rei teria manifestado grande vontade de passar uma quantidade considerável de tempo com sua tia por afinidade, D. Isabel, e com uma prima em 2º grau, a duquesa de Bragança, irmã mais velha de seu herdeiro presuntivo, D. Duarte; como as damas em questão haviam habitado o Paço da Ribeira antes do matrimônio de D. Catarina, haviam sido companhias de infância de D. Sebastião, que vivera ali em apartamentos com sua tutora, a rainha viúva. Em meio às festividades, que contaram com presentes, grandes banquetes e até mesmo uma tourada, D. Sebastião – que pouco antes mudara o tratamento real de Alteza para Majestade – concedeu oficialmente aos Bragança o direito de uso do tratamento de Excelência, que já o utilizavam desde o casamento do duque com D. Catarina de Guimarães. Esta foi mais uma importante mostra da influência da Casa e sua alta posição na hierarquia nobiliárquica portuguesa.

D. João II, o “Príncipe Perfeito”

Rei de Portugal entre 1481 e 1495, D. João II foi cognominado posteriormente como o “Príncipe Perfeito” por revigorar a economia do reino e a exploração das colônias, restabelecendo efetivamente a proeminência da monarquia portuguesa perante a nobreza do reino. Ele nasceu em 03 de março de 1455, sendo o único filho sobrevivente do rei D. Afonso V e D. Isabel de Coimbra e, ainda como  um jovem príncipe, acompanhou o pai em suas campanhas em África. Apesar de suas bem-conhecidas virtudes, já então ele não era benquisto entre a alta nobreza, mostrando-se algo impermeável às intrigas da corte portuguesa.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

Em 1473, ele se casou com sua prima D. Leonor de Viseu, irmã do duque de Viseu e futura cunhada do duque de Bragança. Eles teriam apenas um filho sobrevivente, D. Afonso, que viria a se casar com primogênita dos Reis Católicos, Isabel. Em 1477, D. João tornou-se monarca durante a breve renúncia de seu pai num mosteiro, mas retirou-se assim que ele manifestou sua vontade de retomar o trono. Seria apenas em 1481, depois da morte de D. Afonso V, que D. João II se tornaria de fato o rei de Portugal.

Herdando um trono endividado, o novo rei restaurou as políticas atlânticas portuguesas, investindo pesadamente na descoberta de uma nova marítima rumo às Índias. O retorno financeiro das descobertas resultantes ajudaram a pagar as dívidas do reino, permitindo o fortalecimento da autoridade real, bastante dividida durante o reinado anterior. O descontentamento generalizado da nobreza com essa situação gerou inevitáveis conspirações. Procurando sufocar os primeiros sinais de uma possível revolta, D. João II executou os principais expoentes da oposição, o duque de Bragança e o duque de Viseu, seus próprios parentes. Depois destas mortes, não haveria mais conspirações durante o reinado.

D. Leonor
D. Leonor

Seu sucesso na centralização da monarquia, porém, não se estenderia à sucessão real, visto que seu único filho morreria ainda antes dele; em 1491, o herdeiro D. Afonso morreu numa queda de cavalo pouco após o casamento com Isabel de Aragão. Após enfrentar resistência dos aliados da rainha na legitimação de seu bastardo D Jorge, ele foi obrigado a deixar o trono para seu parente legítimo mais próximo: o irmão da rainha D. Leonor e do duque de Viseu, D. Manuel. D. João II morreria em 1495, com apenas 40 anos.

Curiosidade: D. João II era visto por contemporâneos como um dos maiores monarcas de seu tempo. Isabel I de Castela, hoje uma das mais célebres rainhas do período, era sua grande admiradora, e costumava referir-se a ele como “El Hombre”.