Vida e morte dos filhos de D. João III e Catarina de Áustria

“Por cada berço que se abria, fechava-se um túmulo”: é com esta frase que o estudioso Júlio Dantas resume o infeliz destino de D. João III e Catarina de Áustria no que se refere aos filhos. Mesmo que tenha sido uma união menos pautada pela paixão do que pelo respeito mútuo, tudo indicava a princípio que as núpcias do rei português com sua prima seriam férteis. Afinal, num tempo em que toda a responsabilidade deste campo estava centrada na esposa, poderia-se dizer que a infanta da casa dos Habsburgo tinha ótimos antecedentes. Ela era filha de Joana de Espanha que, mesmo supostamente louca, tivera seis crianças saudáveis; neta de Isabel de Castela, que dera à luz quatro rainhas e um príncipe; e, por último, sobrinha de Maria de Aragão, uma consorte portuguesa que tivera nada menos do que seis filhos homens. Não era esperado – nem desejado – que D. Catarina fosse menos bem-sucedida nesta questão.

D. Maria de Portugal
D. Maria de Portugal

De fato, o início foi promissor: um menino, D. Afonso, nasceu em 1526, pouco mais de um ano após o casamento, embora falecesse rapidamente. Isso não era, porém, incomum numa época de alta mortalidade infantil, nem colocava qualquer tipo de pressão sobre a rainha, que já provara, no final de contas, sua fertilidade, o que era amplamente considerado o mais importante. Já no ano seguinte, ela deu à luz uma menina saudável que sobreviveria, D. Maria, evento comemorado com festas por todo o reino. Seguiram-se mais duas meninas que morreriam na infância, D. Isabel e D. Beatriz, nascidas respectivamente em 1529 e 1530.

Em 1531, finalmente, ocorreu o evento desejado por todos: num parto difícil, a rainha deu à luz um menino “muy hermoso y muy grande”, batizado com o nome do falecido avô paterno, Manuel, gerando comemorações internacionais. Em 1533, outro menino nasceria da união, D. Felipe, seguido em 1535 pelo irmão D. Dinis. Com três herdeiros varões, a sucessão direta de D. João III parecia assegurada. Infelizmente, o mais novo viveria pouco tempo, falecendo em 1537. No mesmo ano, morreria o herdeiro do trono, D. Manuel. A tragédia foi amaciada pelo nascimento de um novo infante pouco depois: D. João. Em 1539, a rainha Catarina deu à luz outro menino, D. Antônio, que viveu poucos meses. Pouco depois, morreria o herdeiro D. Felipe sem ter ainda completado seis anos de idade.

D. João de Portugal
D. João de Portugal

Mesmo terrivelmente abalados pela sinistra sequência de mortes dos herdeiros do trono, o casal real não poderia desistir de continuar tentando. Afinal, a sucessão recaíra no frágil D. João, e não havia precedente em Portugal para que D. Maria pudesse se tornar rainha por direito próprio. Como D. Catarina ainda não completara 33 anos, era esperado que ela pudesse ter mais alguns filhos com D. João III. Infelizmente, porém, nove nascimentos tão próximos um do outro parecem de alguma forma ter impossibilitado a rainha portuguesa de engravidar novamente.

Não se sabe ao certo o motivo médico pelo qual sete dos nove filhos de D. João III e Catarina de Áustria morreram tão jovens. Embora alguns diagnósticos de época pareçam elucidativos o bastante para resolver a questão, como a epilepsia que teria matado D. Beatriz, D. Manuel, D. Dinis e D. Antônio, ainda restaria o motivo que teria levado tantos filhos do casal a terem exatamente a mesma doença, além de uma saúde frágil o bastante para padecer dela. Além disso, há os misteriosos sintomas registrados de D. Afonso e D. Isabel, que teriam nascido com uma “postema na cabeça que lhe veo a furo”. Conhecendo o parentesco próximo do casal, podemos concluir com certa segurança que os múltiplos casamentos intra-familiares de suas dinastias potencializaram certos problemas genéticos, dos quais eventualmente seriam vítimas os sete infantes e infantas. De qualquer forma, a questão continua esperando uma resolução adequada.

Um comentário sobre “Vida e morte dos filhos de D. João III e Catarina de Áustria

  1. Mesmo para um rei e uma rainha, perder um filho era algo bem trágico, porém creio que as questões genéticas realmente tenham contribuído bastante, D. Catarina e D. João eram primos de primeiro grau, hoje a medicina até dispõe de meios para facilitar a gestação de primos com parentescos bem próximos, mas naquela época onde até tio se casava com sobrinha, ficava realmente difícil. Tenho uma enorme pena da Catarina, criei um carisma com ela pelo livro D. Catarina de Habsburgo e pela série Carlos.

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