A doença do rei D. Sebastião

Pouco depois da ascensão de seu tio-avô como regente em substituição à sua avó, o jovem rei D. Sebastião começou a ser acometido por uma misteriosa doença crônica; a possibilidade de ela ter sido fruto de sua ascendência quase incestuosa, que potencializou os defeitos genéticos (MAGALHÃES, 1993-1994, p. 541), não pode ser excluída por completo.

A primeira manifestação registrada da doença data de fins de 1564; atribuída aos intensos exercícios com os quais o rei treinava para a guerra, seus sintomas consistiam em febres e desmaios (HERMANN, 1998, p. 82), além da purgação de certa substância pelo seu pênis. Nesta altura, D. Sebastião acabara de completar 10 anos. Apesar das tentativas se manter a questão secreta, os embaixadores castelhanos foram capazes de manter Felipe II perfeitamente atualizado sobre a situação, assim como suas possíveis consequências dinasticamente infelizes de infertilidade ou impotência (CRUZ, 2012, p. 121). Em 1566, o rei teve uma melhora, apenas para piorar novamente no ano seguinte. Ele voltaria a se restabelecer em 1569, iniciando um padrão que o acompanharia até o fim da vida.

D. Sebastião
D. Sebastião

Embora a maioria dos historiadores atribua os misteriosos sintomas à uma uretrite crônica, o polêmico estudo recente de Harold Johnson (2004), defende que a dita doença tratava-se de uma DST transmitida pelo abuso sexual do rei por seu preceptor, o padre Luís Gonçalves de Câmara, supostamente baseado tanto em evidências médicas quanto em documentação primária. Segundo Buescu (2007, p. 379), D. Catarina teria inclusive conhecimento da situação e teria pedido a intervenção de seu sobrinho espanhol no assunto, escrevendo:

“Não é tempo de branduras, nem têm os súbditos disposição, nem os males estão em estado para com elas encontrar já remédio; é necessário ferro, não cautério”

Contudo, uma parte importante da argumentação de Johnson, na qual Buescu se apoia, consiste no diagnóstico real de “gonorreia”; em sua análise do assunto, Hermann e Cruz, apoiadas por Queiroz Velloso (1935, pps. 106-108) indicam que esta palavra, na época, indicava uma uretrite crônica (não gonocócica) de D. Sebastião, exacerbada por seu estilo de vida, e não necessariamente por contato sexual. Portanto, como aponta Cruz, embora um diagnóstico preciso seja hoje impossível, o conjunto de dados que foi reunido por estudiosos possibilita concluir que a hipótese engendrada por Velloso seja de longe a mais provável. Nesse sentido, a animosidade de D. Catarina estaria mais ligada à crescente influência política e pessoal de Câmara em relação ao neto, consistindo a hipótese de abuso sexual uma complicação desnecessária.

A renúncia da regente

A habilidosa manobra de D. Catarina, em 1559, em sua ameaça de renúncia seguindo o polêmico casamento do duque de Bragança, desestabilizou a posição de D. Henrique e garantiu à rainha viúva mais alguns anos tranquilos no poder. Em 1562, porém, pouco depois da vitória portuguesa sobre os mouros no cerco da praça de Mazagão, ela subitamente renunciou, num evento até hoje incompreendido por historiadores. Num estranho movimento diante da possibilidade de capitalizar em seu favor o importante triunfo conquistado, Catarina de Áustria convocou os Três Estados para anunciar sua decisão de se retirar da regência.

Mesmo que de fato ela tenha sido criticada por sua demora em socorrer os portugueses durante o cerco mouro, a regente ainda contava com apoio de vários partidários, que hesitaram em acatar D. Henrique como o novo regente de D. Sebastião; a questão só foi concordada quando ele fez um juramento solene de entregar o poder ao sobrinho-neto quando este chegasse à maturidade, com a rainha viúva mantendo apenas a tutoria e curadoria do neto. Isso garantia que ela conservaria uma importante influência sobre o jovem rei. De qualquer forma, Mazagão teria efeito duradouro sobre D. Sebastião (HERMANN, 1998, p. 81), na medida em que a nova atmosfera belicista em Portugal, combinada com o caráter fortemente religioso de D. Sebastião, levaria a trágicos acontecimentos.

Cardeal Infante D. Henrique
Cardeal Infante D. Henrique

O polêmico segundo casamento do duque de Bragança

Em 1559, um ano após a morte de sua primeira esposa, D. Isabel, D. Teodósio, duque de Bragança, efetuou um contrato de segundas núpcias com D. Beatriz de Lencastre, sobrinha do duque de Aveiro, sem requerer licença para tal da rainha regente, como costumeiro entre a alta nobreza portuguesa. Um segundo matrimônio de D. Teodósio, porém, colocaria em risco o grandioso dote que se poderia esperar vindo do futuro casamento já planejado entre seu herdeiro D. João e a infanta D. Catarina, filha do falecido D. Duarte e neta de D. Manuel I. Vendo em risco o futuro de sua sobrinha favorita, o cardeal D. Henrique exerceu pressão contra as novas núpcias, juntamente com a regente, que viu no caso um desafio à sua autoridade, uma vez que já advertira o duque de Bragança anteriormente contra o projeto dessa nova união.

D. Teodósio, duque de Bragança
D. Teodósio, duque de Bragança

Já comprometido com o duque de Aveiro, do qual D. Beatriz era sobrinha, o duque de Bragança não voltou atrás e consumou a união, causando imediata reação de D. Catarina de Áustria, que expulsou temporariamente tanto ele quanto o duque de Aveiro da corte, além do pai da noiva, D. Luís (VELLOSO, 1935, pps. 46-47). Ao mesmo tempo, então, que D. Catarina tinha sua autoridade minada por atos rebeldes de importantes membros da alta nobreza, D. Henrique ascendeu como força política significativa tanto por sua forte atuação no caso do duque de Bragança quanto por suas negociações com Roma a propósito da construção de uma armada de defesa da costa portuguesa, nas quais ele se posiciona contra, tendo visto alguns termos do acordo como atentados à soberania portuguesa (POLÓNIA, 2005, pps. 143-145).

D. Beatriz de Lencastre
D. Beatriz de Lencastre

É precisamente neste contexto, portanto, que deve ser analisada a primeira tentativa de renúncia da rainha viúva. Apesar de primeiramente ter tentado impedir a cunhada de se retirar do governo, D. Henrique acaba aceitando a oferta esperada para que assumisse o cargo; como já mencionamos anteriormente, sua posição como parente homem mais próximo do rei o tornava, pela tradição portuguesa, o mais indicado para assumir a regência. Após a rainha ter divulgado a sua decisão de retirar-se do governo, porém, foi-lhe pedido para permanecesse, o que desestabilizou bastante a posição do cardeal. Concordamos com a opinião de Hermann quando ela, baseada em testemunhos de cronistas de época, considera que a tentativa foi proposital por parte de D. Catarina (1998, p. 80); ela, então, não planejou abdicar, mas apenas fortalecer-se politicamente com a perda de prestígio de D. Henrique, num estratagema para desfazer as intrigas do ambicioso cunhado.

Vida e morte do príncipe Carlos de Espanha

Príncipe Carlos, filho de D. Maria e Felipe II
Príncipe Carlos, filho de D. Maria e Felipe II

O único filho de D. Maria e Felipe de Espanha, cujo nascimento levara à morte de sua mãe, era dolorosamente deformado pelo casamentos cruzados entre as casas reais de Portugal e Espanha, tendo apenas quatro bisavós e bisavôs quando o normal seriam oito; por consequência, seus pais eram tão aparentados quanto meio-irmãos seriam. De qualquer forma, o príncipe Carlos, tão doente e temperamental quanto fosse, era o herdeiro de um império, e as negociações e tensões políticas ao seu redor foram proporcionais à sua importância, principalmente depois da ascensão de seu pai ao trono de Espanha em 1555.

Em 1559, aos 14 anos, Carlos entrou num noivado oficial com a princesa francesa Isabel de Valois, filha do rei Henrique II e de Catarina de Médici. Questões políticas, porém, exigiram que a jovem Isabel se casasse com o próprio Felipe II, que tinha mais do que o dobro da idade dela. Apesar dos tropeços iniciais, o casamento parece ter sido satisfatório para ambas as partes – embora o arranjo possivelmente não tenha deixado Carlos muito satisfeito, mesmo considerando-se que noivas de igual ou superior importância à da princesa francesa tenham sido sugeridas em substituição à ela, como a irmã mais nova, Margarida de Valois, e a rainha escocesa Maria, viúva do irmão de ambas. No final, ficou acertado que Carlos se casaria com sua prima Ana de Áustria.

Isabel de Valois
Isabel de Valois

Pouco depois, em 1562, após um acidente que por pouco não o matou, mas deixou seu comportamento ainda mais instável, a antipatia de Carlos em relação ao seu pai cresceu ainda mais, chegando a supostamente conspirar com os líderes da revolta dos Países Baixos contra Felipe II, além de planejar mesmo o assassinato do rei espanhol. Em 1567, ele teria começado seus preparativos para fugir rumo ao centro da revolta contra Espanha.

Em 17 de janeiro de 1568, contudo, o próprio rei, juntamente com alguns conselheiros, foi ao quarto do único filho homem e declarou sua prisão, dizendo que não mais o trataria como um pai, mas como um rei. A partir de então, Carlos ficaria retido aos seus aposentos. Elliot, em sua narrativa dos eventos francamente favorável a Felipe II (1963, pps. 251-253), argumenta que, visto a notável ausência de capacidade de Carlos para liderar um império, juntamente com suas conspirações contra o rei, sua prisão foi em certa medida inevitável, muito embora o autor reconheça que Felipe II foi excessivamente rigoroso em sua punição ao príncipe, o que causou inclusive abertas críticas ao rei na época dos acontecimentos.

De qualquer forma, o herdeiro de Espanha permaneceu na prisão domiciliar decretada por seu rígido pai ainda por mais alguns meses. Em 24 de julho, porém, depois de uma série de greves de fome, a saúde frágil do príncipe cedeu e ele faleceu em seus aposentos sem que seu pai sequer fosse visitá-lo quando ficou visível que sua morte era iminente. Essa chocante frieza de Felipe II levaria inevitavelmente a boatos que ele mandara envenenar o príncipe Carlos, embora Elliott escreva que a morte de seu herdeiro deixou o rei abalado. Isabel de Valois, que mesmo depois do término de seu compromisso com Carlos ainda mantivera boas relações com ele, também ficou profundamente chocada. A hipótese de que a morte de seu enteado tenha contribuído para o fim prematuro de sua gravidez e consequente morte de mãe e filha não pode ser descartada por completo. Viúvo pela terceira vez e sem um herdeiro homem, Felipe II se casaria novamente em 1570 com a antiga noiva de Carlos, Ana de Áustria.

Primeiros anos de regência de D. Catarina

Em termos políticos, os primeiros anos da regência da rainha viúva D. Catarina foram relativamente tranquilos, ao menos no campo internacional. Portugal não fora atingido pela bancarrota espanhola, continuando com crédito e sem graves problemas financeiros. Os territórios ultramarinos continuaram também sem grandes problemas, excetuando os persistentes ataques ingleses e franceses às linhas de navegação portuguesas. Além disso, as praças restantes do norte de África mantinham-se sem problemas significativos, e a presença portuguesa no Oriente se fortalecia mediante o Estado da Índia.

Em campo nacional, porém, a situação era menos estável. Muito embora tenha sido um período de fortalecimento do poder real, a política pró-castelhana supramencionada da rainha viúva causava fortes tensões em Portugal (POLÓNIA, 2005, pps. 141-143). Um exemplo marcante são as negociações entre a regente e seu irmão, o imperador Carlos V, para que o príncipe Carlos, filho da infanta Maria e do príncipe Felipe, fosse reconhecido oficialmente como herdeiro do trono português após D. Sebastião, preterindo assim D. Duarte, neto por linha masculina direta de D. Manuel I e, portanto, o herdeiro tradicional mais próximo do rei após D. Henrique, que era já um cardeal idoso. Embora a regente e seus conselheiros considerassem o príncipe espanhol o herdeiro do jovem rei português, um reconhecimento oficial nunca foi feito.

Príncipe Carlos
Príncipe Carlos

Teresa de Leão e o Condado Portucalense

Teresa de Leão
Teresa de Leão

Nascida em 1080, Teresa de Leão foi a filha ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela e meia-irmã da futura rainha reinante Urraca. Em 1093, ela foi casada com o nobre francês Henrique de Borgonha, que tinha o dobro de sua idade, como uma recompensa de seu pai pela ajuda preciosa deste na conquista do reino de Galícia. Poucos anos mais tarde, em 1096, o casal receberia do rei leonês o Condado Portucalense, grande território que abrangia o condado de Coimbra, extinto em 1091, parte de Trás-os-Montes e o sul do reino conquistado da Galícia. Tratava-se, na verdade, de uma manobra de Afonso VI para limitar o poder da herdeira Urraca e de seu então marido, Raimundo de Borgonha, primo de Henrique. Depois da morte do marido, em 1112, Teresa assumiu o governo do condado durante a menoridade do filho Afonso, sendo reconhecida como tal por sua meia-irmã e o papa e assinando como ” Rainha Teresa de Portugal”. Em poucos anos, porém, um conflito com Urraca a obrigou a efetuar uma aliança com o poderoso nobre Fernão Peres de Trava – que em pouco tempo também se tornaria seu amante. O nascimento posterior de duas filhas causaria a revolta dos nobres portucalenses e de seu filho Afonso, que desafiariam a pretensão de Teresa em continuar governando em nome do filho na batalha de São Mamede, em 1128. A vitória expressiva de Afonso, que expulsaria a própria mãe do condado, iniciou o processo que levaria ao reconhecimento de Portugal como um reino independente. D. Afonso I, portanto, considerado o primeiro rei português, inaugurou o poder da casa de Borgonha na Península Ibérica. Ela seria ancestral direta da futura dinastia portuguesa de Avis. 10462915_1424299387866553_7380828500145981522_n

D. Maria, duquesa de Viseu

D. Maria, duquesa de Viseu
D. Maria, duquesa de Viseu

Conhecida como ” A Sempre-Noiva” por seus vários projetos de casamento frustrados, D. Maria foi a única filha sobrevivente do terceiro casamento de D. Manuel I de Portugal e Eleanor de Áustria. Nascida em 1521, a infanta ficou órfã de pai com menos de um ano de vida. Quando, dois anos depois, sua mãe deixou Portugal rumo ao seu reino de origem, foi impedida de levá-la consigo pelo enteado e novo rei, D. João III, que a essa altura já assumira o papel de pai efetivo da irmã caçula, quase vinte anos mais nova do que ele.

Por um lado, havia um claro componente afetivo nesta recusa, que seria agravado com o passar dos anos e a morte da maioria dos filhos de D. João III e Catarina de Áustria. Muito tempo depois, quando Eleanor tentaria novamente trazer a filha para junto de si na Espanha, o rei português recusaria mais uma vez, escrevendo que muito o admirava este pedido da madrasta, uma vez que:

“a infante minha irmã que eu atte gora criey como filha propria e a que tenho o mesmo amor aja de sayr de minha casa se nam como sempre foy costume sayrem as filhas dela. Nem vejo como posa ver honrra de infamte e minha deixar esta criaçam e o amor com que he tratada de mim e servida e acatada de meus vassalos e naturays pera em tal idade primcipiar hua vida tam diferente em tudo em tam desacostumada dela e da sua natureza.” (BRAGA, 2002, p. 71)

Por trás desta compreensível negação do ponto de vista sentimental, porém, escondem-se interesses de Estado. Como filha de D. Manuel I, D. Maria tinha direito a uma considerável herança, da qual fazia parte o rico ducado de Viseu. Não era interessante para o reino português, do ponto de vista financeiro, que parte de seus recursos fosses esvaído pela saída da bela herdeira, tanto por vontade própria quanto por via de uma negociação matrimonial.

Desse ponto de vista, podemos entender melhor os noivados cancelados de D. Maria, muito embora questões políticas externas também tenham desempenhado seu papel em manter a infanta donzela. Por exemplo, em 1537, depois de D. João III ter rejeitado alguns pretendentes franceses à mão da irmã, D. Maria foi brevemente considerada para ser a quarta esposa do rei inglês Henrique VIII, recém-enviuvado de sua terceira consorte, Joana Seymour, que morrera pouco depois do nascimento do único filho homem sobrevivente do rei, o príncipe Eduardo. Rapidamente, porém, os ingleses ficaram mais interessados na prima de D. Maria, Cristina, que além de ser uma rica herdeira, também poderia herdar o reino da Dinamarca. No final, por interferência de Carlos V, tio de ambas, nenhum dos casamentos seria realizado; Henrique VIII acabaria se casando com a alemã Ana de Cleves.

Outra união frustrada seria com seu primo, o príncipe espanhol Felipe. Depois que este enviuvou da homônima de D. Maria, filha de D. João III, em 1545, houveram longas negociações para um segundo matrimônio com a dinastia de Avis, materialmente muito vantajoso para os Habsburgo (COSTA, 1958, p. 82). Finalmente, em 1553, D. João III cedeu e emissários espanhóis chegaram a ser enviados para levar a valiosa infanta, já chamada oficialmente de princesa de Castela. Mais uma vez, porém, os planos seriam alterados: poucos meses mais tarde, com a morte do rei inglês Eduardo VI e a sucessão de Maria I, tornou-se mais interessante um casamento de Felipe com esta prima inglesa. A culta infanta portuguesa, que, como outras damas da época renascentista, recebeu ampla educação doméstica e livresca (SANTOS, 2007, p. 21), foi novamente abandonada.

Depois disso, apesar de outras possibilidades de núpcias terem surgido, como um casamento com o enviuvado Sacro Imperador Romano, Fernando I, ou uma união com o duque de Saboia, D. Maria pessoalmente as rejeitou, temendo que tivessem o mesmo fim dos projetos matrimoniais anteriores (BRAGA, 2002, p. 78). Em 1558, depois da morte do irmão, D. Maria saiu de Portugal para encontrar-se com sua mãe Eleanor de Áustria, agora a rainha viúva de França, pela primeira vez em quase 30 anos. Após algumas semanas juntas, cada uma retornou ao seu reino de origem; ainda no caminho de volta, Eleanor faleceria.

D. Maria passou o restante dos seus dias administrando o ducado de Viseu e agindo como protetora de artistas e escritores, tendo sido supostamente a musa inspiradora de Luís de Camões, autor do poema épico As Lusíadas (PINTO, 1996, p. 152). Durante o período tumultuoso da menoridade do jovem D. Sebastião, foi defendido por uma facção da nobreza portuguesa que ela substituísse sua cunhada D. Catarina como regente, mas estes planos acabaram por não resultar em nada (BUESCU, 2007, p. 347). D. Maria morreria em 1577.

Jesuítas vs. dominicanos

Logo no início da regência de D. Catarina, uma disputa notável se impôs entre a rainha viúva e seu cunhado D. Henrique: tratava-se da crucial decisão de quem seriam os professores e confessores do jovem rei. Embora tanto o cardeal quanto a regente concordassem no vital ponto que os mestres deveriam ser religiosos (BUESCU, 2007, p. 337), garantindo uma boa educação moral a D. Sebastião naqueles tempos de tantas heresias, divergiam sobre qual exatamente deveria ser a ordem religiosa de origem deles.

Enquanto D. Henrique defendia que a educação deveria ser ministrada por jesuítas portugueses, Catarina de Áustria, com sua orientação pró-castelhana, advogava a escolha de membros da ordem dominicana ou da agostiniana. Depois de certa tensão, aconselhada por seu confessor, a rainha acabou cedendo à escolha de D. Henrique (HERMANN, 1998, p. 78); ficou acertado que o influente posto de educador principal seria ocupado pelo padre jesuíta Luís Gonçalves de Câmara, que anteriormente já fora confessor do pai do rei, o príncipe D. João, além de ter tido considerável influência sobre o seu avô, D. João III. Apesar disso, porém, essa não pode ser considerada uma derrota política de D. Catarina perante D. Henrique, já que o confessor escolhido, o dominicano Luís de Montoya, foi indicado pela rainha, o que aponta para alguma espécie de acordo conciliatório para preservar os interesses de ambos.

Brasão da Companhia de Jesus
Brasão da Companhia de Jesus

De qualquer forma, mesmo que sua nomeação tenha ocorrido em 1559, Luís Gonçalves de Câmara só começaria suas lições no ano seguinte. Quando finalmente o preceptor conseguiu chegar à Portugal, vindo de uma atribulada viagem desde Roma, e ocupar o cargo para o qual fora nomeado, o rei já tinha seis anos de idade (CRUZ, 2012, pps. 75-79). Para alguns estudiosos, como Johnson (2007), Câmara teria importância fundamental na trajetória rumo à crise sucessória de 1580, por motivos que veremos mais adiante.

Brasão da ordem dominicana
Brasão da ordem dominicana

A regência de D. Catarina

Apesar de não haver nenhum impedimento legal para uma mulher assumir tal cargo, D. Catarina, viúva de D. João III e avó do jovem rei D. Sebastião, não deixava de estar quebrando todos os paradigmas anteriores em Portugal ao assumir a regência do neto ao invés do cunhado D. Henrique, último irmão sobrevivente do falecido rei. De fato, mesmo que rainhas partilhassem da dignidade de seu marido, sua principal função era gerar filhos legítimos para a perpetuação da dinastia (RODRIGUES, 2007, p. 134 e p. 139), não participar do exercício efetivo do poder.

D. Catarina
D. Catarina

Certamente, era consenso na Europa que mulheres não deveriam por princípio exercer o comando – supostamente, elas seriam fracas, volúveis, caprichosas e covardes por natureza, qualidades indesejáveis para uma cultura que prezava um comportamento forte, corajoso e mais agressivo por parte de um monarca (LEHFELDT, 2000, p. 33). A participação ativa de Catarina de Áustria no governo do reino português praticamente desde o princípio de seu matrimônio com o rei, então, desafiava esta ideia, e gerou reações de acordo: sua participação no Conselho, decorrente de uma relação bastante íntima com D. João III, gerou discussões e comentários desconfortáveis, mas não a impediu de se fortificar politicamente à medida que o rei adoecia, e, a partir de 1545, assumir efetivamente o governo, como já vimos anteriormente. Observamos, porém, que toda a sua autoridade em Portugal era derivada primeiramente do marido, D. João III, e, mais tarde, de sua posição como avó do rei, D. Sebastião, não como regente por direito próprio.

De qualquer forma, D. Catarina de Áustria acabou por iniciar sua regência com ratificação do cardeal D. Henrique – se tal colaboração ocorreu por sincero desejo de obedecer à orientação política expressa por seu falecido irmão nos últimos anos de seu reinado ou por pura ambição de poder no futuro, disfarçada por uma simulada harmonia com a rainha viúva (SILVA, 1860, pps. 31-34), ou por uma mistura de ambas, não podemos saber ao certo, mas definitivamente D. Henrique esteve em segundo plano durante a maior parte da regência de D. Catarina em nome do neto. Isto se manteria até 1559, quando a polêmica das segundas núpcias do duque de Bragança ajudou a sacudir o terreno aparentemente firme onde se localizava a regência da rainha viúva.

A regência de D. Sebastião

Devido a pouca idade de D. Sebastião, uma regência seria necessária por alguns anos; como mãe do monarca, D. Joana seria a candidata mais evidente, mas se retirara para a Espanha, por ordens paternas, poucos meses depois do parto. A questão, então, ficou dividida entre a avó da criança, a rainha viúva, e o tio-avô, o cardeal D. Henrique. Tanto Hermann (1998, p. 78), quanto Sousa Costa (1958, pps. 74-76) e Polónia (2005, pps. 139-140), apoiados na historiografia sobre o tema, concordam, em termos gerais, na divisão imediata que se seguiu na nobreza entre estes partidos. D. Catarina, que já mostrara ser uma poderosa e influente figura política durante o reinado de seu marido (MAGALHÃES, 1993-1994, p. 530), que pode ser especialmente observada nos arranjos matrimoniais dos filhos sobreviventes e no estabelecimento do Tribunal da Santa Inquisição, além de sua atuação no conselho do rei (SILVA, 2013, pps. 11658-11659), habilmente se impôs frente ao cunhado, indo contra séculos de tradição que colocavam a preferência da regência no parente homem mais próximo do jovem rei, como no caso do duque de Coimbra como regente de seu sobrinho D. Afonso V, e não sua mãe, Leonor de Aragão.

Ao contrário do costume, porém, D. João III não deixara testamento oficial esclarecendo sua vontade sobre o assunto, o que abriu caminho para a rainha viúva apresentar perante o Conselho de Estado supostos apontamentos feitos pelo falecido rei designando-a como regente. Tendo ela, com o auxílio de seu fiel servidor Pedro de Alcáçova Carneiro, deliberadamente forjado o testamento do rei ou não, como insinuam alguns autores, o fato é que D. Henrique eventualmente cedeu e entrou em acordo com a rainha viúva, seja por convicção da veracidade dos documentos ou simples fraqueza moral (COSTA, 1958, p. 75), apoiando a pretensão da cunhada à regência e curadoria do jovem rei. Com a capitulação da oposição nacionalista de D. Henrique, portanto, a política portuguesa aproximou-se ainda mais dos interesses castelhanos (MAGALHÃES, 1993-1994, p. 542).

D. Henrique
D. Henrique

Mas, ao contrário da maioria das interpretações sobre o tema, Polónia coloca-se contra a leitura historiográfica dominante que vê o cardeal liderando um partido nacionalista contra o partido pró-castelhano de Catarina de Áustria nos anos que se seguiram. Houve, de fato, choques entre ambos, principalmente no que envolveu a escolha dos educadores e confessores de D. Sebastião, mas eles pareciam estar mais ligados a dissidências pessoais do que a visões políticas distintas. Estamos de acordo com Polónia quando ela defende, baseada na ausência de testemunhos documentais definitivos sobre os supostos partidos, que os desacordos entre D. Catarina e D. Henrique eram, sobretudo, o resultado das tentativas recíprocas, mas distintas, de ambos se aproximarem do rei e orientá-lo politicamente (POLÓNIA, 2005, p. 141).